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  A vista panorâmica da janela do meu quarto.  Na procura de alojamento, desta vez no Porto, veio-me à memória um S. João que lá passei, há muitos anos, a convite de um amigo, e a trabalheira que tive para encontrar um hotel a preços comportáveis, sabendo de antemão que não seria tarefa fácil, dada a época. Qual não foi o meu espanto quando, na altura, em plena Avenida dos Aliados, encontrei um hotel de 2 estrelas, é certo, mas por metade do preço que tinha estipulado como plafond. Assim sendo, acabei por ficar uma semana completa, em vez dos três dias programados. Percebi que o hotel estava em obras mal entrei no elevador. Tranquila. Cheguei à recepção, ninguém. Nem campainha para chamar. Comecei a dizer boa tarde, relativamente baixo e em crescendo, mas o barulho de martelos e berbequins não facilitava. Até que alguém, aos gritos lá do terceiro andar, me deu as coordenadas: que tirasse a chave do quarto e, se precisasse de algo, fosse ter com ela à lavandaria (creio eu). Ent...

Entre margens…

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  O mar traz cheiro a rio acabado de morrer no sal. Nesse encontro, uma ausência salgada e fria corre para Sul. Os olhos acompanham, lágrimas que não caem. Desobedecem às correntes. Seguem. Tudo em mim se inclina, sem Norte. O mar cheira a rio cansado. E eu fico a meio, nem margem... nem fundo. Sem origem. Sem rumo. Sem bússola. Sem Sul.

O Chinelo, a Sopa e a Ausência do Príncipe...

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Eu também me acho uma pessoa estranha e sei que certas coisas inusitadas que me acontecem são fruto da minha capacidade de vestir a pele das personagens que os livros me oferecem. Gosto do chá Earl Grey porque, num livro de Ellery Queen, uma Mrs. não-sei-das-quantas só bebia esse chá. Mas o pior são as síndromes de que padeço, todas com a mesma origem. A uma delas dei o nome de Síndrome da Noctofobia Cinderélica (não confundir com nictofobia). Eu explico: a história da Cinderela sempre me acompanhou. Sofri horrores com medo de que ela se transformasse em abóbora caso as doze badaladas a apanhassem na rua. Não sei quando começou, mas sei que é mais forte do que eu: esteja onde estiver, com quem estiver, com o aproximar da meia-noite, desapareço a grande velocidade. No limite, o barulho da porta a fechar tem de coincidir com o som da última badalada. Era a noite branca. A festa na praia até estava a correr bem. Mas, com o anoitecer, vieram as minhas inquietações. Os meus olhos, impacient...

É inda quente o fim do dia...

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  Fernando Pessoa É inda quente o fim do dia... É inda quente o fim do dia... Meu coração tem tédio e nada... Da vida sobe maresia... Uma luz azulada e fria Pára nas pedras da calçada... Uma luz azulada e vaga Um resto anónimo do dia... Meu coração não se embriaga Vejo como que em si o dia... É uma luz azulada e fria.

Cais das Incertezas...

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Existe o nada O som do vento  e desta areia,  em sintonia certa. O desembarcar da mágoa  no cais das incertezas. E existe um céu E a sina de quem nasce só  e resiste. Que vive e adormece Adormece e vive E volta a renascer ...

Pássaro Branco: A Coragem da Bondade...

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      Há filmes que passam por nós e há outros que ficam. Pássaro Branco fica. É uma obra fictícia, ancorada num período dolorosamente real. Um enredo linear do passado contado no presente por uma Helen Mirren magistral, que nos entrega uma lição de coragem e bondade. Ela, Helen Mirren, de quem sou fã incondicional, traz uma dignidade à história que nos desarma. Gosto de filmes que me fazem sentir, não apenas ver. Filmes que me obrigam a abrandar, a ouvir e a pensar. Este filme transporta-nos para a França ocupada da Segunda Guerra Mundial, onde uma jovem judia sobrevive graças à compaixão de um colega que, pela sua condição física, era ignorado por todos. É, na sua essência, uma lição sobre como a luz e a imaginação podem florescer, mesmo nos momentos mais sombrios. Recorda-me que existe sempre espaço para a empatia, para a escolha certa e para a esperança. Não é uma obra para consumir e esquecer. É um filme para guardar, para deixar assentar e para revisitar, talv...

Há uma casa feita de pedras...

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      “There is a house built out of stone Wooden floors, walls and window sills Tables and chairs worn by all of the dust This is a place where I don't feel alone This is a place where I feel at home And I built a home For you, for me For you, for me Until it disappeared… (...)”

A casa da minha Avó (memórias)…

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  A casa da minha avó não tinha telhados de vidro. Mas não é de uma casa escura que me lembro. Lembro-me da gargalhada espontânea, cristalina, que lhe empurrava a cabeça para trás, para depois mergulhar sobre o ombro, a tentativa de ocultar a cara com o braço. Fazia-se silêncio, e só os movimentos, quase peristálticos, denunciavam que a gargalhada não tinha terminado. Eu olhava-a em apneia, fascinada, quando fosse grande queria rir assim. Não é só da gargalhada, ímpar, que me lembro. Lembro-me da luz mortiça do candeeiro a petróleo, do cheiro característico que emanava e cujo acesso me estava proibido. Era a minha avó que o segurava, enquanto eu me preparava para dormir . Depois saía, como uma luz que se apaga. Fazia-me meias de renda e vestidos de chita fina, que eu estreava nas festas da aldeia. Curava-me as mazelas com beijinhos e dizia: já passou! Não é de uma casa escura que me lembro. É de uma gargalhada que não me esqueço. A história da princesa que me embalou, a luz mortiça...

O Renascimento Digital da Biblioteca Joanina. Um presente de Sharjah para o Mundo...

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  Através do canal “Conta Lá”, posição 123 da NOS, tomei conhecimento da iniciativa do Xeque Dr. Sultan bin Muhammad Al Qasimi, Emir de Sharjah e historiador, que visa a preservação e divulgação do património bibliográfico da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra. O Xeque defende que o estudo da presença portuguesa no Golfo Arábico é essencial para compreender a identidade da sua região, considerando a história um fator de união entre povos. É autor de várias obras sobre a expansão portuguesa no Oriente e sublinha a ligação histórica entre Portugal e o mundo árabe. Com esse propósito, financiou com 8 milhões de euros a digitalização de cerca de 20 milhões de páginas do espólio da Biblioteca Joanina. O projeto teve início em 2024 e prolongar-se-á até 2030, com o objetivo de democratizar o acesso ao conhecimento e facilitar a investigação à escala global. Parte do acervo já se encontra acessível ao público através da plataforma UC Digitalis, na secção Joanina Digital, permiti...

Não tenho medo do escuro (memórias)...

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A hospedeira insistia para que eu pusesse a mala de mão debaixo do assento. Eu acenava que sim, mas continuava com ela no colo. Nem sequer era para a contrariar, nem eu conseguia perceber por que raio não lhe obedecia. Qualquer entendido justificaria com o facto de ser a primeira vez que andava de avião e os tais nervos, que servem de desculpa para tudo, seriam a desculpa. Mas não me sentia minimamente nervosa, nem eufórica, nem nada. Estava ali, tranquila, agarrada à minha malinha, enquanto ela, a hospedeira, numa ginástica maluca, explicava as medidas de segurança a adotar. Felizmente não foi preciso pô-las em prática, porque eu não tinha percebido nada daquela sinalética.  Aeroporto Vincenzo Bellini Catania-Fontanarossa. Mais conhecido como Aeroporto di Fontanarossa. Dada a proximidade com o vulcão Etna, havia a possibilidade de  alterações na rota, devido às cinzas vulcânicas, caso se encontre em erupção. Estava calmo e tranquilo, como eu....

Onde Dormem os Medos…

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Na casa da minha avó, as palavras não eram filtradas. Não havia papão. Havia o "homem mau", que me levava, no saco, caso não fizesse o que ela queria. Comer a sopa toda, por exemplo. O homem mau estava sempre presente. Eu imaginava-o vestido de preto, com uma longa barba negra. Supostamente, vivia no sótão da casa, era para lá que a minha avó apontava sempre que ameaçava chamá-lo. Curiosamente, quando se zangava comigo, tratava-me por "você". Eu gostava do homem mau porque, no meu imaginário, atrás dele vinha sempre um príncipe para me salvar. Na casa da minha madrasta, o tratamento era por "você", como se estivesse sempre zangada comigo. Com todos, na verdade. Até o cão e o gato ela tratava por "você". Não por snobismo, gostava genuinamente dessa forma de se dirigir aos outros (e eu também). Não havia homem mau. Por isso, também não havia príncipe. Não havia quem me metesse medo, nem quem me viesse salvar. Hoje, ainda carrego medos. Esperam-me e...

O RAPAZ DO CHAPÉU…

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A estação ferroviária deserta. O normal, dado a hora avançada. Não me preocupei em confirmar o horário do comboio seguinte. Sentei-me, abri o livro na página marcada e tudo ao redor desapareceu. Até que ouço o toque, desafinado, de uma flauta. Um rapaz, com ar de cowboy, mas sem chapéu, tocava para mim. Não estava ali mais ninguém. Continuei a leitura. O rapaz continuou a desafinar. Olhei, de relance, à procura do chapéu que lhe faltava na cabeça, para depositar umas moedas e talvez ele mudasse de poiso. Não havia chapéu. Guardei o livro e aproximei-me. Fez-me duas perguntas, se tinha um cigarro e que livro estava a ler. Dei-lhe o cigarro e mostrei-lhe o livro: "A Redundância da Coragem" de Timothy Mo. Fiz-lhe um resumo da história. Ele gostou e lamentou a improbabilidade de vir a conhecer o final. Num gesto altruísta passei-lhe o livro para a mão. É um empréstimo, disse-lhe. De hoje a 15 dias, à mesma hora, vou estar aqui. E passados 15 dias também. E dificilmente aqui retor...

OS BANDIDOS…

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    A esta distância, já lá vão largos anos, parece-me improvável, impossível até, mas a memória que guardo é que a sala tinha daquelas portas vaivém como nos saloons dos filmes western. Encobertos por uma espessa nuvem de fumo, esperavam-me uns quantos fora da lei, com armas nos coldres presos à cintura. Puxei da minha garrafa de água para eles verem que eu também estava armada. Entrei, a medo, mas depois de oito horas de voo o vício fala mais alto. Os delinquentes, com bigodes até ao pescoço e chapéus de aba larga ao nível das sobrancelhas, afastaram-se e deram-me espaço numa mesa minúscula, com lotação para lá de esgotada, mas onde cabia o meu antebraço, para ter acesso ao cinzeiro. Perguntaram-me de onde era. Fiz que não entendi, cá conversas!!! Só queria repor os níveis de nicotina. Ao segundo cigarro já toda eu era simpatia. Contei-lhes de onde era, para onde ia e o número que calçava em sapato raso. Que diabo, estávamos em quadrilha. Sabia que quem quer que assomasse à...

Olinda, excesso de Infinito…

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Olinda, a única água que suportava era a do mar e a que viesse diretamente do céu. Os únicos pássaros que conhecia eram as gaivotas, e o seu meio de transporte era o sonho naufragado, encalhado, que se movia ao sabor da imaginação. Era intolerante a tudo o que tivesse tecto. Nem sempre foi assim. Houve tempos em que tentou escalar a linha da normalidade, sempre em crescendo. No entanto, a normalidade tem prazo de validade e capacidade de se renovar, inovando. Sem estabilidade, perde-se o equilíbrio, e Olinda sentiu-se ultrapassada, rasgada, como se fosse papel. Não passou a viver do ar, mas sim do que lhe davam. E à noite, dormia sob as estrelas, mais numerosas do que as que qualquer hotel pudesse ostentar. Mas Olinda não estava feliz. Ninguém é feliz sozinho. Ou melhor, ninguém é feliz sem alguém a quem exibir a felicidade. Esse pensamento fez com que se sentisse uma pessoa normal. E rejeitou-o. Abrigada sob a espessa capa da designação social "Sem Abrigo", sentia-se protegi...

História com final feliz...

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  Fui protagonista na tua história de papel. Tropeçando nas vírgulas que me impuseste. Escondida, nas entrelinhas. Sobrevivi à primeira página. Morri antes do fim. Abandonada numa frase por acabar. Engolida por um silêncio e em letra pequenina. Mataste-me com a pressa de um rascunho, rabiscado com lápis de ponta fina. E tiveste o teu final feliz.

Não tenham medo do que não existe..

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  Alguém me disse: se dás atenção à música de um filme, é porque o filme não é bom o suficiente. Possivelmente o filme não foi bom o suficiente. A banda sonora, sim. O refrão, “N’ayez pas peur du bonheur, il n’existe pas”. Assim, como um dogma: “Não tenhas medo da felicidade, ela não existe”. É quase como pedir para não ter medo do papão: ele também não existe. Na verdade, esta frase funciona como um mantra de sobrevivência emocional. É muito mais fácil gerir a ausência definitiva de algo do que a sua volatilidade constante. Se aceitarmos que ela não existe, deixamos de ser reféns da expectativa. Não vou entrar em divagações sobre felicidade, já que é um tema que domino tão bem quanto saber a duração exata do que é efémero. E ser feliz é uma coisa que me irrita. Por norma, o que nos faz felizes no momento, é o que nos causa infelicidade no futuro. E isto também é válido para chocolates e sapatos. Quilos e calos, bem entendido. "As Recordações", nome do filme. Partilho a músic...

O SENHOR DO CACHIMBO...

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  Era costume ir, a uma determinada hora, à janela da marquise para ver o pôr do sol. Na varanda da vivenda em frente, um senhor, de meia idade, barba branca e ar distinto, fumava cachimbo. Se os olhares se cruzassem, dizíamos, imperceptivelmente, boa tarde e nada mais. Por norma, e para meu deleite, havia sempre uma música clássica no ar. Uma em particular que eu gostava muito, sabia que era do Pavarotti, mas não sabia o nome da canção.  Enchi-me de coragem e perguntei-lhe. Caruso, respondeu ele.  A partir desse dia, sempre que eu ia à janela, ele punha Caruso. E eu agradecia-lhe com um acenar de cabeça e sorriso discreto.  O senhor, não sei o nome, manteve o ar distinto, apesar de cada dia mais débil. Quando umas senhoras, vestidas de preto, encerraram de vez as portadas das janelas, deduzi que faleceu. Eu, em homenagem, continuo a ouvir Caruso. O senhor já não está. E mesmo que estivesse, não o poderia ver. Nem ao pôr do sol. As árvores do jardim de baix...

Memórias de um dia de chuva...

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  A frase "vamos tomar um café" tornou-se banal. Um acto de socialização bem aceite e que faz sentido praticar até com quem mal conhecemos ou acabámos de conhecer. Tomar um cafézinho é o mote para estabelecer uma relação, ainda que breve. Há dias, chovia torrencialmente, dei abrigo, no meu minúsculo chapéu de chuva, a um senhor que estava completamente desprotegido de artefactos impermeáveis. Rimos imenso, conversámos o possível e atravessámos estradas com a água pelo tornozelo. Encharcados os dois, na cumplicidade ímpar de quem sabe que o chapéu de chuva não serve de nada quando um dilúvio desaba sobre nós. Passar por isso sozinha seria uma maçada, partilhar a situação com um estranho foi um alívio. Chegados ao destino, estação de comboios, o inevitável convite: "Vamos tomar um café?"- Podia ter-me pedido em casamento, convidar-me para uma viagem a Ulan Bator, podia ter-me até convidado, num plano mais radical, surfarmos a onda da Nazaré. Mas não! Convidou-me para ...

Sombras em azul ...

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Um pensamento parado, de cor azul. Azul da cor do silêncio que a chuva lavou. Um desejo inerte, ao relento, como uma página riscada. Ou o copo meio cheio. O relento também é azul, como o pensamento, num diálogo a duas sombras.  Incoerências cronológicas na ausência. Desconcertante como um rio que recusa desaguar porque tem medo do mar.  É no ontem que semeamos os momentos que colhemos, mas continuaremos a dizer até amanhã, até logo, até depois… nunca até ontem. Porque um amo-te implica um eu também. Porque sim.  Vaguear por aí, desabitada de olhares vagos, recolhendo beijos deixados no tempo. Prendendo abraços. Libertando memórias azuis da cor do pensamento. E do relento. O relento é azul. Reflexo esbatido, como sombras envergonhadas que as nuvens tocam ao sabor da imaginação.  Perco-me e reencontro-me nesses afetos, para logo desistir, diluída no fumo das palavras queimadas. Que a verdade queimou. Transfiro-me definitivamente para o lado azul, sem nada a declarar. E...

Reincidência Inevitável das palavras...

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  O meu pensamento, um simulacro de palavras, vítimas de atropelamento e fuga. Espalham-se em contramão, inconscientes, como fragmentos de um puzzle de conclusão aleatória. Num alfabeto de esperança que se basta, como uma eremita urbana, era urgente terem morrido na véspera. Salto alto, saudade negligente, que desfila como vírgulas em ponto de espera para ser ponto e vírgula e é apenas exclamação. Afasto o cabelo em desdém como quem apaga no papel, as palavras sinistradas, proibidas de formar pensamentos. Num último suspiro, falam-me de coisas que nunca disse, de memórias que talvez não sejam minhas. Arrastam-se, tropeçam umas nas outras, até se confundirem com o pó do léxico. Às vezes penso que são elas que me pensam, que a minha mente é apenas o cenário do seu acidente. E eu fico aqui, entre o rescaldo e a tentativa, a observar o trânsito caótico das ideias, na esperança de que alguma palavra, intacta, numa amnésia improvisada, não saiba o caminho de volta. Não podem sobreviver, ...