O Idílio e a Inevitabilidade...

 


Invento sonhos e moro neles. No limiar, uma ferradura, amuleto contra pesadelos. Saio para a rua como se fosse primavera, cheiro as flores sem as colher e os pássaros, ao sobrevoarem-me, abanam as asas para me refrescar.
Alimento-me de certezas, de histórias de bem-querer, como a guardiã à janela de uma torre antiga, dedos manchados de tinta, a escrever destinos que destribui aleatoriamente.
Um dia, o amuleto falha. O pesadelo, que não me acorda, transforma pássaros em abutres, com rajadas de vento nas asas que me levam para longe daqui. À janela, a guardiã vacila, as palavras deixam de obedecer. Já não há histórias com final feliz.
Uma borboleta de asa negra surge, presságio ou guia, e conduz-me por labirintos de silêncio, onde as certezas de outrora morrem como frutos caídos. Caminho descalça por terreno incerto. O verdadeiro poder não está em morar no sonho, mas em atravessar o labirinto sem procurar a saída
A borboleta negra dissolve-se num sopro de fumo, deixando-me nos dedos um rasto de pó prateado. Fecho a mão. E, pela primeira vez, não tento acordar. Caibo inteira na noite.

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