Efeito secundário...
Cuidámos uns dos outros entre analgésicos, antipiréticos, anti-histamínicos e aquelas pastilhas efervescentes que o Carlos jurava resolver tudo. O importante era estarmos juntos, partilhar alegrias e frustrações naquele barracão na encosta do monte, que outrora pertencera aos avós do Miguel.
Havia gargalhadas misturadas com o cheiro a frango assado no carvão. Palavras a preencher silêncios antigos.
É feriado. Já ninguém se queixa. Eu, ainda ligeiramente febril, deixo-me ficar nesse arrepio, na necessidade de afeto que me puxa de volta ao barracão. O barracão, um monumento à ausência. Foi dos avós do Miguel, depois dele. Agora é só meu. Parece-me.
Naquele tempo, a dor era o cimento da nossa amizade. Hoje, resta a assepsia do silêncio. Um a um, todos parecem ter tido alta. Foram-se curando devagar… da vida, das ausências. Restou o espaço, deserto de gente, no intervalo de encontros que o tempo resolveu silenciar.

Comentários
Enviar um comentário