"Não me sacudam que estou cheio de lágrimas."
O senhor impecável na sua camisa branca, despojada de gravata, permanecia solitário, encostado ao acrílico, na plataforma que separa as carruagens do comboio. Era o rosto do desalento, emoldurado numa barba aparada e quase grisalha. O sobretudo de caxemira cinza parecia um manto pesado, carregado de sombras e preocupações.
A minha atenção focou-se nele, em detrimento do livro que tencionava ler. Olhei-o fixamente, na certeza de que, caso os nossos olhares se cruzassem, ele não me veria. Nas entrelinhas da expressão, podia ler-se as palavras de Louis Calaferte: "Não me sacudam que estou cheio de lágrimas."
O comboio estremeceu e parou; as portas automáticas abriram, ele saiu. O comboio, indiferente às histórias pessoais que transporta, continuou a sua jornada. O início da marcha foi gradual, fiquei a vê-lo da janela, e ele foi ficando para trás até desaparecer.
E não pude fazer nada.
Quisera oferecer-lhe palavras de consolo ou, pelo menos, pôr-lhe a mão no ombro num gesto solidário que transmitisse afeto. E assim, no fluir das estações, perdi o encontro com a oportunidade de partilhar um momento de empatia.
O senhor impecável perdeu-se na imensidão enevoada da noite, e eu, confinada ao meu assento, fiquei com a sensação de que, por vezes, a vida coloca-nos diante de cenários que não ousamos contaminar.
O comboio, como o destino, segue o seu rumo, mas a reflexão sobre aquele momento, que não chegou a ser, permanecerá comigo, como um capítulo não lido. Um livro inacabado, cujas páginas em branco ocultam oportunidades perdidas. O Ricardo, tinha de lhe dar um nome, permanecerá nos trilhos do tempo, lembrando-me de que, por vezes, as histórias incompletas também deixam pegadas num campo despojado de neve.
FOTO MINHA E DE UM ÁLBUM QUALQUER...
Sucede que nestes casos os Ricardos reaparecem. Esse comboio é um predestinado palco de escrita. Apostamos?
ResponderEliminarUm beijinho Romi.
Na sensibilidade dos dias, quantos encontros nos perseguem, sem que lhes consigamos dizer adeus.
ResponderEliminarMuito bonito, parabéns!
Feliz resto de dia, Romi!
Beijinhos
Claro que apostamos... e perdeu (risos). Isto foi escrito há cerca de um ano e o tal Ricardo nunca mais deu à costa. Mas acertou no predestino do comboio, é realmente um palco recheado de histórias. Agora parece que temos um empate, eu que detesto perder apostas.
ResponderEliminarUm beijinho, João Afonso.
"Na sensibilidade dos dias, quantos encontros nos perseguem, sem que lhes consigamos dizer adeus." Esta frase é que merece todos os parabéns. Ai reside, realmente, a minha grande dificuldade em dizer adeus.
ResponderEliminarMuito obrigada, querido José.
Um beijo enorme.
Quantas histórias pairam sobre as sombras do que poderia ter sido...
ResponderEliminarAdorei estes teus pensamentos que deram uma bela história de mistério.
Um beijinho, estava com saudades.
Obrigada, querida Isabel.
ResponderEliminarVou passar no teu cantinho, as saudades são mutuas.
Quantos Ricardos encontramos nós ao longo do dia, e com a vida agitada que temos nem olhamos para eles.
ResponderEliminarObrigada pelo texto, gostei imenso.
E quantas vezes somo nós os Ricardos da vida....
ResponderEliminarObrigada, querida Carla. Beijinho grande.
Também é verdade!
ResponderEliminarBeijinho
Olá Romi, são momentos inesquecíveis marcados pelo ímpeto para a interação a regressar tantas vezes, uma espécie de "E se...?". Um texto muito bonito e poético, gostei muito deste comboio cheio de emoção e bem querer pelo próximo, onde o respeito pela privacidade prevaleceu nas "pegadas num campo despojado de neve"
ResponderEliminarDesejos de uma boa noite querida Romi, beijinhos
O comboio é o meu meio de transporte preferido. O meu sonho, fazer a viagem de Paris a Istambul, no Expresso do Oriente. Dizem que vai voltar em 2024. Que historias teria para contar. Neste meu trajeto tão curto, na linha de Sintra, há sempre histórias novas ao sabor da minha imaginação. Possivelmente o "Ricardo" nem é um homem triste, estaria apenas cansado. Jamais saberemos.
ResponderEliminarObrigada pelas tuas palavras tão incentivadoras, minha querida Mafalda.
Um beijinho grande
A sensibilidade de cada um de nós a fazer história sobre histórias a que perdemos o fio e nunca ficamos a saber se só perdemos o fio ou se o fio à meada.
ResponderEliminarÀs vezes agimos por impulso, outra vezes pelo mesmo motivo não agimos. Prefiro arrepender-me por não ter agido. Perder o fio e a meada...
ResponderEliminare temos expresso do oriente para a Romi em 2024! Um projecto de viagem espectacular, vai ser o máximo!
ResponderEliminarAqui pelo ninho acontece com frequência esse semblante "triste" que é apenas cansaço.
Beijinhos Romi, mais um Xi, boa sexta-feira!
Quantas pessoas se cruzam connosco, e que por vezes só precisam de um abraço, ou um sorriso.
ResponderEliminarBeijinhos
Verdade.
ResponderEliminarBeijinho, Di.
O título despertou-me a curiosidade e ainda bem que me trouxe aqui. Outro excelente texto!
ResponderEliminarMuito obrigada, Inês. Beijinho
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