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Prelúdio de Cinzas...

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  Preparo-me para o luto, acendo todas as velas que formam o percurso até mim. Não sei se há luto para o inacabado. Primeiro morrem os sonhos, depois é o silêncio que fala, eco que deseja ser voz. Olho o espelho: reflete a indiferença de mim. Vigília ritmada que se inventa. Terei sempre o esquecimento, um instante para sublinhar, e a noite... A noite é o meu lugar. Eu não sei se é a morte que pousa na minha sombra. Pelas vezes que morri, pelas vezes que me ergui, ergue-se a lua, empática, e chora sob o meu nome. Penitência de um ser anónimo: a essência purificada pela dor. Visto-me de cinzas.

Antes que o café arrefeça...

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   Antes que o café arrefeça , de Toshikazu Kawaguchi. Um livro para ser lido na véspera de um feriado, à noite, sem pressa... e sem o sorriso patético que mantive da primeira à última página. Uma história simples, em termos de linguagem, com uma profundidade emocional despretensiosa. Criei uma certa empatia com as variadíssimas personagens. É um livro honesto: conforta sem iludir. Quase uma reflexão disfarçada de história, um exercício de empatia silenciosa com personagens que, embora breves, parecem familiares. Também não é um “livrão”. Diria que funciona melhor como metáfora do que como enredo. E mais não digo, para não ser acusada de spoiler. “A aceitação pode ser mais libertadora que a correção.” Li isto algures, aqui, faz todo o sentido. Mas tenho de ir, antes que o café arrefeça.    

"Não me sacudam que estou cheio de lágrimas."

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     O senhor impecável na sua camisa branca, despojada de gravata, permanecia solitário, encostado ao acrílico, na plataforma que separa as carruagens do comboio. Era o rosto do desalento, emoldurado numa barba aparada e quase grisalha. O sobretudo de caxemira cinza parecia um manto pesado, carregado de sombras e preocupações. A minha atenção focou-se nele, em detrimento do livro que tencionava ler. Olhei-o fixamente, na certeza de que, caso os nossos olhares se cruzassem, ele não me veria. Nas entrelinhas da expressão, podia ler-se as palavras de Louis Calaferte: "Não me sacudam que estou cheio de lágrimas." O comboio estremeceu e parou; as portas automáticas abriram,  ele saiu. O comboio, indiferente às histórias pessoais que transporta, continuou a sua jornada. O início da marcha foi gradual, fiquei a vê-lo da janela,  e ele foi ficando para trás até desaparecer. E não pude fazer nada. Quisera oferecer-lhe palavras de consolo ou, pelo menos, pôr-lhe a mão no ombro num ges...