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Ponto central. Sem parágrafo...

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À Espera de Godot ...

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Notícias de cá... carácácá, um projeto a que pretendo dar continuidade, sem promessa de assiduidade.  Escrevo quando me apetecer, sobre o que me apetecer e se me apetecer. O foco será sempre a noticia ou a falta dela.  Não sei em que publicação, revista, jornal ou outra coisa qualquer havia uma rubrica que se chamava «Notícias de cá... carácácá». Talvez já não exista, plágios à parte, só porque gosto do nome. Claro que este blogue é meu. Posso escrever o que quero e o que me apetece. Se me apetecer publicar um post sem título e, única e simplesmente, digitar um ponto final no centro da «folha», posso fazê-lo. E até dar-lhe continuação, percorrendo todos os sinais ortográficos. Depois, começar com numeração, em romano, para não ser tão monótono. E começar logo no «C». Ai e tal, temos alfabeto agora, pensam os seguidores de tão apelativo conteúdo. Só que não. «C» de 100, em numeração romana. Já estou a divagar. O pensamento é como as cerejas. Eu nem gosto de cerejas, não concord...

Porto Brandão...

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Gosto de dias que desabam na noite e desaguam no mar... 

A VELHINHA QUE ROUBAVA LIVROS... (atualização Sapo Blogs)

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Diz-se que um livro não se deve escolher pela capa. Eu compro livros pela capa, pela contra capa, pelo título, pelo escritor, pelo editor, pelo preço, pelo sim, pelo não. Enfim, compro livros por tudo e por nada. Sou viciada em comprar livros. E justifico-me: sei lá se no futuro terei dinheiro para os comprar. Como se eu acreditasse no futuro. Acredito no dia de hoje e é nele que invisto para me fazer feliz. Depois, caso não tenha dinheiro para livros, roubo-os. A outra também roubava livros e teve direito a um livro publicado e a um filme (A Menina que Roubava Livros de Markus Zusak). A Velhinha que Roubava Livros também me parece um bom título. Isto para dizer que comprei "Crime e Castigo" pela capa. Até porque já li e tenho o livro. Mas não resisti ao Grito de Edvard Munch. E não resisti à "A Noite" do meu querido Manuel António Pina.   Tentei, sem êxito, resistir a José Jorge Letria e confesso que todas as tentativas de lhe resistir são ignoradas com sucesso. Q...

O Sossego das Cores...

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As cores desmaiam com a delicadeza que só as coisas cansadas sabem ter. O mundo, exausto, quer retirar-se em silêncio. Há um rumor leve no ar, o último fôlego de um dia que persiste, teima em não querer partir. As sombras alongam-se devagar, tocam os muros, os rostos, as memórias. Tudo parece suspenso entre o ainda e o já não, entre o que foi e o que se despede sem alarde. O tempo abranda, perde a pressa de existir. As vozes tornam-se ecos distantes, dissolvidos numa névoa húmida. Levanta-se o vento, que recusa ser pintado em repouso. Nesse instante quase imóvel, o ocaso, esbatido, parece adormecer dentro de si, embalado pela própria exaustão. Esvai-se o dia, cansado. As cores começam a desbotar, transformando o mundo num esboço a carvão .

Com legenda...

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  Um preconceito que está cada vez mais presente é o de que ler um livro é, por definição, enriquecedor, enquanto passar tempo na Internet é prejudicial. O problema não está no meio que utilizamos, mas na forma como o utilizamos. Um livro pode abrir-nos horizontes, despertar o pensamento crítico e transmitir-nos conhecimento. Mas também podemos ler sem refletir, sem questionar e sem aprender verdadeiramente. Da mesma forma, a Internet pode ser um espaço de superficialidade e distração, mas também uma fonte extraordinária de conhecimento, cultura, ciência, história, literatura e pensamento. Claro que há uma diferença importante: ter acesso à informação não significa adquirir conhecimento. É preciso saber selecionar fontes, questionar o que lemos, distinguir factos de opiniões e pensar por nós próprios. E isso aplica-se tanto à Internet como aos livros. Não devemos julgar a inteligência, a cultura ou a capacidade de alguém pelo suporte que escolhe para aprender. O conhecimento não te...

Sem legenda...

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O silêncio dos versos...

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  Quando anunciaram que o Vasco ia declamar poesia, saí de mansinho. A minha ligação à poesia não é auditiva. Quando leio poesia, nem sequer crio uma voz interior. Os versos permanecem em silêncio. Não precisam de som para produzir emoção. Há uma maneira de declamar poesia que parece obedecer a um código, tornando todos os poemas semelhantes. Na minha opinião, nem toda a poesia foi feita para ser declamada, nem toda a poesia ganha quando lhe damos voz. Gosto de sentir o poema sem que ninguém determine o ritmo ou a emoção que devo encontrar nele. Abro, no entanto, uma excepção para Cântico Negro, de José Régio, na interpretação de Vítor Norte. Há qualquer coisa naquela forma de dizer o poema, sobretudo no final, que me rende por completo. A voz ganha uma agressividade quase zangada, uma revolta que não procura suavizar as palavras nem torná-las mais bonitas. Pelo contrário, dá-lhes a força de quem sabe que não vai por ali.  Sigo a página «O Poema Ensina a Cair». Raquel Marinho ...

Notas de um sonho breve...

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  Era uma rua escura, inodora, daquelas ruas onde não acontece nada. Do lado de lá de uma janela, alguém tocava uma balada. Sentei-me num degrau do prédio, como quem espera a chave para entrar. A melodia surgia como o lamento de alguém que queria ir muito para além de um encontro improvável. Encostei-me à parede fria, fechei os olhos e imaginei uma sala despida de adornos. Apenas um piano. Alguém, no masculino, de feições indefinidas, sem carisma emocional, deixava as notas acontecerem, indiferente. Foi aí que entrei na sala. Senti-me impotente e frágil, pálida como um fantasma que não morreu. O abraço fez-se em passo de dança, num redopio lento de quem reconhece a presença e não a quer perder. Tentei descobrir ali um atalho para a normalidade. O máximo que consegui foi um pensamento fatigado: Agora é tarde para querer sair daqui. Envolvida num abraço de náufraga, deixei-me afogar num barulho de cristais, com suspiros de cetim. Voltei à rua. Deixei-o a arrumar a minha ausência. Não...

A Baía e o caminho de volta...

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"Para não fugir à regra, comigo, é tudo muito imprevisível. Para complicar, descer em Campolide: o comboio antecipou-se ao da Gare do Oriente. Um menu mais magro, exibido no placar, ainda assim, não menos interessante. Depois conto." Respondi eu a um comentário. Não vou contar. Vou dizer que a casa da Aroeira continua linda. A Baía do Seixal tem umas esplanadas fantásticas, com vista para o por do sol.  Acrescento: gosto de voltar onde fui feliz, para não esquecer o caminho.  

Conversas com os Botões e Outros Desatinos... (e a Saca do Pão)

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  No céu, o rasto branco dos aviões que se cruzam e, sabe-se lá porquê, escapam impunes. Não chocam, passam resvés Campo de Ourique, como se a expressão tivesse sido inventada para eles, embora a sua origem exata seja incerta e se divida por várias teorias populares. Mas já não se fala disso. Fala-se de outras coisas, do preço do peixe vermelho, como quem diz redfish, e da palha de Abrantes, que molda lampreias em dias de festa e não precisa de estrangeirismos para se perceber que não é uma palha qualquer. Daquelas que enchem colchões, climatizada, que aquece nas noites frias e refresca nas quentes. E talvez seja por isso que se fala tanto do tempo, que também já não é o que era, embora continue a ser tempo, essa coisa que passa sem pedir licença e que, ao contrário dos aviões, não deixa rasto branco no céu. Só uma espécie de memória mal arrumada, feita de dias que foram quentes quando deviam ter sido frios e de noites que se prolongaram para além da conta. Isto é a conversa com os...

Partículas de um lamento...

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  Sempre... Tudo o que quis coube no tempo em que tinha razão. Tentei andar de pé como os outros... Caminhei como pude. Entrei em becos de onde não queria realmente sair, mas queria poder sair, se quisesse. Recordo... Partículas de gestos, pequenas coisas sem interesse, mas cheias de mim. Horas que passaram só para dizer que estiveram lá. Horas mortas. Morreram porque não queriam ser enterradas vivas. A lua também morreu e foi para o céu... Lamento... Quando o violino se quebrou. E o que doeu foram todas as melodias que naquele violino jamais tocarão. Chora o spalla e o maestro. Cala-se o violino... Quero... Abrir a janela e perder-me na corrente de ar.

Desabafos...

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  Às vezes chegas a casa e pensas que o melhor momento do dia foi encontrar o sinal verde nos semáforos, aquele instante em que consegues atravessar a estrada sem ter de esperar. Outras vezes pensas que, hoje, o melhor momento do dia vai ser ficar amarfanhada no sofá, a ver filmes, sem fazer mais nada. Depois, o telefone toca. Vem o desafio de sair de casa e ir almoçar. Vais. E ris tudo aquilo que não riste durante a semana. Conversas, desabafas, esqueces por umas horas o peso dos dias. E, sem dares por isso, esse passa a ser o melhor momento do dia. Aquele que te salvou. Que te deu forças para mais uma semana. Que te devolveu um bocadinho de esperança. A esperança de que o melhor momento do dia não tenha de ser um semáforo verde. Obrigada, Sónia. 

Semáforos...

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  Às vezes penso que, se tivesse semáforos em casa, de manhã seria o amarelo. Acordar com cuidado. Ir devagar nos gestos. Sem ruído. Deixar-me perceber que o dia começou. Verde para o chá fumegante, para um livro aberto, para me amarfanhar no sofá e ver um filme. Verde para me arranjar sem ter de sair, comer o que me apetecer, pôr uma música a tocar ou simplesmente ficar. Verde para as coisas que faço não porque têm de ser feitas, mas porque me apraz fazê-las. O vermelho reservava-o para a preguiça. Para aquilo que não me apetece fazer e que, afinal, pode esperar. Para os dias em que parar também é uma forma de cuidar de mim. Talvez fosse bom viver assim, com pequenos sinais luminosos a dizer-nos quando avançar, quando abrandar e quando ficar. E talvez algumas pessoas sejam como semáforos. Há expressões que são vermelhas e nos fazem parar. Outras são amarelas e nos pedem cautela. E depois há aquelas que, sem dizerem uma única palavra, ficam verdes. Como um semáforo verde para peões...

Balada de Outono...

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  Hoje, 23 de setembro, começou oficialmente o outono. Disse alguém. O verão está de abalada, pensei eu. Uma coisa levou à outra. E, quase sem dar por isso, fixei-me na Balada de Outono, do Zeca Afonso. Sempre que se fala de outono, é desta balada que me lembro. Talvez porque o outono tenha esta coisa de nos apanhar entre o que fica e o que parte.  Entre os dias que ainda querem ser verão e as tardes que já começam a escurecer mais cedo. Ou talvez seja simplesmente a voz, a letra, a música.  A melancolia que esta balada me transmite.  É o deixar-me ir.  O querer ficar.  O não saber muito bem de mim... "Águas passadas do rio Meu sono vazio Não vão acordar Águas das fontes calai Ó ribeiras chorai Que eu não volto a cantar(...) Hoje começou oficialmente o outono. E eu fiquei a pensar que há estações que não começam no calendário. Começam numa música.

Com carinho...

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  Guardo esta dedicatória de Mia Couto como quem guarda um encontro, uma emoção, um pequeno pedaço de tempo entre páginas.

Jorge Palma...

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  1950/2026 "Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és,ninguém te leva a mal Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar..."    Jorge Palma Descansa em paz na terra dos sonhos. 

"O Trem das Onze" (memórias)...

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Lamento sempre quando morre alguém que gosta de viver, independentemente da idade . Gostar de viver é algo comum a muita gente, mas gostar de permanecer vivo é diferente. É não parar, é continuar a produzir, dar continuidade a uma obra que não lhe garante longevidade, mas que o projeta para além da morte. Morreu o Ti Manel Gervásio, compadre da minha avó. Escultor anónimo, de peças ímpares, que foi espalhando pela aldeia. A minha avó, muito abalada com a morte do compadre, sentada ao lume, rezava o terço. Eu, entretida a contar as traves do teto da cozinha. O silêncio era quebrado apenas pelo crepitar da lenha. Lá fora, nada acontecia. A minha avó foi-se deitar sem jantar. Aninhei-me ao pé dela e abracei-a em conchinha. Vencida pelo cansaço, adormeceu rapidamente. Fiz torradas à lareira e acompanhei-as com café quente. Liguei o rádio, bem baixinho. "Adoniran Barbosa, O Trem das Onze..." tocava suavemente: (...) Não posso ficar nem mais um minuto com você Sinto muito, amor, m...

La Solitude ...

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"Gosto, como os animais, das florestas e dos mares, de me perder durante um tempo, permanecer a sonhar num recanto encantador, e forçar-me a regressar de longe ao meu lar. Atrair-me a mim próprio, ... voltar para mim."      Friedrich Nietzsch
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A senhora da mercearia trata-me por meu amor. Trata toda a gente assim. Eu trato-a por querida. Ao rapazinho que me vem entregar as pizzas, também o trato por querido. Não é sempre o mesmo, para mim é como se fosse. Gosto à séria de termos afetuosos. Como se eu fosse muito boa pessoa. Há pessoas que me irritam de morte. Depois de lhes falar com uma certa acidez, tipo raspanete, remato com um querido/a e a pessoa continua a irritar-me, mas olha-me tranquilamente, sem se sentir injustiçada. Isso alivia-me um subtil peso de consciência. Porque as pessoas agem em conformidade com o que são e sentem, e não como pessoas robotizadas, feitas à minha medida e à minha tolerância. É uma canseira, mas é o que temos. Escrito na quinta-feira. O único dia que tolero na semana.