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O Efeito Marcellus...

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  Remarkably Bright Creatures Não sou particularmente fã de Sally Field, nem de polvos falantes. Pelo menos era o que pensava no início. Minutos depois, estava completamente rendida a Marcellus, o polvo. Queria trazê-lo para casa, aprender com ele e ouvi-lo naquela sucessão de diálogos inteligentes, sensíveis e profundos, onde humor, emoção e reflexão se equilibram na medida certa. Na impossibilidade de o adotar, prometo nunca mais comer polvo (efeito Marcellus) e acrescentá-lo à minha lista de animais de estimação improváveis, da qual já fazem parte um burro, um morcego, um cágado, uma lesma e um ouriço. Em Criaturas Extremamente Inteligentes ( Remarkably Bright Creatures) , as personagens são pessoas comuns, com perdas, dúvidas, rotinas e pequenas fragilidades. Depois surge um elemento inesperado: um polvo com uma inteligência invulgar e uma voz cheia de ironia. Ele observa os factos, liga pistas e tira conclusões. Há quase uma inversão de papéis: o animal é o grande observador r...

Dia dos Irmãos/31 de maio

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     Dizem que os irmãos são aqueles que crescem connosco. No nosso caso, eu e a Ana T., crescemos juntas de outra forma. Tudo começou numa brincadeira no Facebook e, sem darmos por isso, passámos de amigas a manas. Aliás, acho que já ninguém nos convence do contrário. Ao longo dos anos fomos colecionando momentos que já fazem parte da nossa história. As inevitáveis idas à Feira do Livro, onde prometemos sempre "só dar uma vista de olhos" e acabamos a sair carregadas de livros. Os espetáculos no CCB, que nos dão sempre assunto para conversar antes, durante e depois. Os almoços e jantares, ora cá em casa, ora fora, onde a comida é importante, mas as conversas são sempre o prato principal. Entre gargalhadas, desabafos, planos, fotografias, mensagens e todas as nossas dinâmicas, criámos uma ligação tão natural que já nem pensamos nela. Simplesmente existe. E é por isso que és muito mais do que uma amiga. És a irmã que a vida decidiu pôr no meu caminho. Neste Dia dos Irmãos, ...

Despir o dia...

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  Não me posso queixar daquilo de que gosto. Jamais me queixarei do gelado de Caramelo Salgado, embalagem familiar. Também não me vou queixar deste calor imenso. Posso dizer que tenho saudades de chegar a casa e despir a minha gabardina preta, que me protege da chuva, do frio e me confere alguma privacidade. Curiosamente, gosto mais da minha roupa de inverno.  Mas o foco é o calor. É esperar pelo comboio seguinte para não ficar comprimida entre gente. Quando vou para casa nunca chego atrasada, chego sempre a tempo. Posso perder todos os comboios do mundo. Entrei e sentei-me junto à janela. Rapidamente o comboio encheu. Uma senhora sentou-se ao meu lado e metade dela encostada a mim. Viemos a conversar animadamente. Coisa rara. Ela desceu duas estações antes da minha. Tive pena. Apetecia-me trazê-la para jantar comigo. Coisa rara. Chegar a casa. Entrar vestida na cabine de duche, água na pressão máxima. Despir-me, peça a peça, do comboio, do calor, da senhora encostada a mim. D...

Cansaço...

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  Eu, quando chego a casa. Só muda a cor do sapato e do sofá. Imagem Pinterest. Mas podia ser: quase um autorretrato. Ou uma selfie, sei lá ...

As senhoras do bar...

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  Talvez por não estar habituada a ser cuidada, nem a cuidar, quando alguém tem um gesto de cuidado comigo, fico extremamente sensibilizada. Nunca sei bem como retribuir e sinto que não agradeço o suficiente. Todas as manhãs, ao beber o café, peço às senhoras do bar para me guardarem uma sopa para o almoço. Elas já sabem que eu não como grão nem sopa de peixe, por isso têm o cuidado de ter sempre uma alternativa para mim. Na quinta-feira, avisei que não ia almoçar porque tinha médico. Diz uma delas: "Que pena, hoje é a sopinha da pedra de que tanto gosta! Se quiser, guardo-lhe uma para amanhã." E guardou. E quando é canja, guardam sempre uma dose a mais para eu trazer para o jantar. Pode parecer pouco para quem vê de fora, mas para mim é tanto. Hoje, na minha caminhada por Sintra, comprei um pacote de queijadas para cada uma. É um miminho, uma forma de dizer que me lembrei delas. Sei que é pouco. Quem cuida merece sempre mais.

SÉRAPHINE DE SENLIS

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Para mim, uma tarde bem passada equivale a estar amarfanhada no sofá, rodeada de livros e gulodices, televisão ligada e a saltitar de canal em canal, até que algum me desperte a atenção. Foi o caso, e por mero acaso. Gosto de filmes coloridos, com ritmo e pessoas bonitas. Deparei-me com um filme monótono, humilde, miserável mesmo. E a banda sonora… nem me lembro se tinha banda sonora. Sinceramente, acho que o que me fez parar no canal foi a coincidência de apanhar um filme no início. Então lá estava uma senhora robusta, de traseiro para o ar, a limpar o chão. O filme não passava disto e eu não mudava de canal. Muito a passo de caracol, a história foi-se desenrolando e, sem dar por isso, eu saí do meu sofá carregada de gulodices para acabar num manicómio francês do século XX, sem estranhar o caminho. Já completamente rendida aos longos planos, tipo Manoel de Oliveira, fiquei a conhecer Séraphine de Senlis, pintora autodidacta de quem nunca tinha ouvido falar. Nasceu em Arsy, a 3 de Sete...

Sábado à tarde...

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  "O único indício do que o homem pode fazer é aquilo que o homem já fez." (R. G. Collingwood) Amarfanhada no sofá, depois de ver Nuremberg, fiquei presa à frase de Collingwood. O passado como advertência e possibilidade. O ser humano capaz de criar beleza extraordinária, mas também destruição extrema. O mesmo homem que escreve poesia, compõe música e ergue catedrais é também aquele que faz guerras, destrói vidas e desumaniza outros homens. O passado mostra-nos, ao mesmo tempo, o melhor e o pior de que somos capazes. O presente, infelizmente, confirma-o.

Sombras em Janelas Vazias...

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Os medos adormecem dentro dos meus bolsos, dobrados como cartas que nunca tive coragem de enviar. Carrego sombras inteiras nos ombros, silhuetas em janelas onde alguém ainda espera por alguém. E sigo. Sigo sempre entre o que sei e o que desaprendi. Há palavras que chegam tarde, outras chegam vazias. Encostam-se ao meu nome como aves cansadas, mas eu já não abro as mãos para as recolher. Abro-as para as deixar partir devagar. Sem promessa de horizontes. Já vi o mar devolver ondas. Não imploro permanências. O vento também aprendeu a respirar sozinho. Reconheço-me naquilo que não quero. O vazio esconde-se comigo no escuro e resiste.  Há uma cumplicidade qualquer nas tardes de outono que se despedem sem pressa. Há um conforto qualquer nas ausências que continuo a querer. Não fico sozinha só porque sim.
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As pétalas das papoilas voam como pássaros feitos de papel. Aterram, planadas, numa terra sem Rei. Bem me quer, mal me quer, Bem me quer, mal me quer... foto by me

O Inverso do meu Reverso

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  O Josée, que entretanto já apagou o perfil, insiste à força toda para que me mude para o blix.pt. Alguém o avise, por favor, de que estou quase anónima no Blogger e que isso me está a saber incrivelmente bem. Muito agradecida pelo convite e isso, mas não me desencaminhe, meu querido. A verdade é que gosto de escrever assim: sem pressão, sem grandes expectativas e quase incógnita. É uma sensação pura de liberdade. Escrever aqui (Blogger) é como amarrotar o papel e saber que, se ele cair no chão em vez de acertar no cesto do lixo, não vai incomodar ninguém. A imperfeição, o desapego, a ausência de palco... talvez sejam o inverso do meu reverso.