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A aritmética do desamor...

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  Salvou-se como se padecesse de uma doença terminal e, no espanto da cura, a atribuiu a um milagre. Salvou-se, lavou as mãos para limpar o contacto da mão dela na sua e o cheiro do creme barato comprado na drogaria do Aníbal, que faz esquina com o bar onde, em tempos, timbraram o seu amor, servido em chávena quente, fumegante, aroma a café, moagem fina, Lote Barista. Ficou livre como um pássaro de inverno que não pia nem suspira, mas ainda tem asas. Tristão sem Isolda, Romeu sem Julieta, história em branco de um casal que Shakespeare, em drama de som e fúria, significando nada, é a vida, não chegou a registar. Salvou-se, por milagre, de ser eternizado em literatura de cordel, em modo Corín Tellado como a madrasta dela gostava. Alívio. O que fica escrito é para sempre e não pode ser apagado, nem com a parte azul da borracha que rasga o papel para apagar a tinta.  Um-dó-li-tá, quem está livre, livre está. Ele está. A aritmética do desamor é simples: menos com menos dá mais, ma...

O Eclipse da Palavra...

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Não era um dia para festejar. Nem dia de festa. Não era um dia qualquer. Nem qualquer dia. Não era um dia sem fim. Nem o fim do dia. Era a noite. Era de noite. Era uma vez… Foto álbum "Férias"

Incoerências de um lamento...

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Cultivamos frases como telas impressionistas que não sabemos decifrar. Hoje, quero-me demasiado branda, num ritmo obstinado de quem não aprendeu a perdoar. Hoje é um dia para esquecer. Passar imediatamente ao dia seguinte. No absoluto de um diálogo, não quero expor-me em palavras, entrelinhas passageiras de um momento. Sorrio, apenas, para disfarçar o desconforto. Ficar parada, a assistir a um gesto de renovação, é como fumar um cigarro apagado. O gesto altruísta de estar aqui, agora, como quem gosta de um passado perfeito, imperfeito... sei lá! Caracterizada de personagem, já nem sei se vivi ou apenas pensei que nasci. Vontades ocas, onde farrapos de sombras continuam a bailar, desajeitados, num espaço vazio. Descubro incoerências cronológicas. Páginas arrancadas e coladas desordenadamente. Aprendo a  avaliar o que é ou não é suficiente. Revejo-me no lamento de um lobo que uiva porque não aprendeu a chorar...

Cronologia do Desencanto...

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Brindo ao desencanto, mais ou menos. Refugio-me na figura que um defunto plagiou, sopro a vela, atiço a fogueira, e a paixão continua medíocre. No vazio da distância, suspendo-me num gesto oferecido, e a meia-noite permanece intacta. O meio da noite também. Pretendo atrasar-me, digo eu, e anuncio o espanto. Num socorro sem alívio, corro só, como quem se esgota na despedida e despida permanece, mas de distância. Sendo assim, ainda não chorou de saudade quem se fez de contente. Volto a anunciar o espanto. Com quantos gestos de indiferença se destrói a velha nota de rodapé onde um dia se escreveu: “ para sempre…”? E depois, há uma voz rouca que me chama. Talvez queira saber a quem pertence. Não ainda. Nota de rodapé: Quem gosta sem razão deixa de gostar pelo mesmo motivo... 

Anatomia das Palavras...

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Palavras sopradas pelo vento voam em minha direção.  E abraçam-me.  Só porque sim. Visualizo o momento num retrato a preto e branco. Levanto a mão, como faria um índio, num gesto de paz, e conquisto o direito de ser ouvida. As palavras caem-me aos pés, rendidas. Sabem que os blocos de gelo também choram quando derretem.  Não podem abraçar-me só porque sim. A distância, sobrevive salgada como a água do mar, que respira ondas.  Eu respiro silêncios, despedidas, esperas e nadas.  A resiliência de quem aprendeu a ser e a estar exatamente como quer ser e estar. Reconcilio-me com o vazio que nem sinto.  Não me desinquietem as sombras que se aninham em palavras vãs. Não me abracem. Não podem abraçar-me só porque sim.

A odisseia térmica das compras semanais...

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  Com este calor, sair à rua é um suplício. Mas as compras semanais, essas entidades sem coração, nem consideração pelo sofrimento humano, não querem saber. Lá fui eu, vestida de forma leve e arejada, chinelos no pé, pronta para sobreviver aos quase quarenta graus da rua. No saco, porém, seguia o verdadeiro equipamento de sobrevivência: gorro, cachecol, luvas, camisola polar, meias quentinhas e botas de cano alto. À cautela, enfiei também aquele casaco de carneira que normalmente só vê a luz do dia quando vou à Serra da Estrela. A pessoa tem de se prevenir. Toda a gente sabe que, no verão, as superfícies comerciais ativam o ar condicionado em modo "Era do Gelo". Entrar na secção dos frescos sem proteção é pedir um choque térmico capaz de me mumificar ao lado das couves-de-bruxelas. Ainda um dia vejo pinguins na secção dos congelados e nem vou estranhar. Imagem "Pinterest"  

Eco nas margens…

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Sussurro inacabado. Surge o teu nome, sem rima, sem rumo, quase a ruir. Memórias pequenas ecoam nas margens, como uma maré que não recua. E salva-se o teu nome na maneira absurda de deixar de ser apenas um nome. Mas há noites, no fim de um serão cansado, em que o teu nome chega antes do sono e encosta-se devagar às paredes do meu peito. E mesmo quando me calo, dizes-te em mim, como quem já não precisa de voz. E quase... é só um nome. Foto do álbum "Os meus serões." 

O universo baralhou-se...

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  Alguém avise o universo que eu pedi um polvo. Em desespero, aceitava um alienígena. Não uma borboleta. Estava a meio do duche quando reparei nela. Nenhuma de nós pareceu muito preocupada com a situação. Não sei se mais alguém já passou pela experiência de tomar banho com uma borboleta. Não recomendo particularmente, mas acredito que existam coisas piores. A primeira preocupação foi pôr a vedeta na rua sem lhe causar dano. Tentei a tática clássica da folha de papel, mas não resultou. Mudou-se para a parede oposta, num sítio ainda mais alto, como quem tem autonomia e poder de decisão. Surgiu a segunda preocupação: será que tinha fome? Fui pesquisar na net e diziam mel diluído em bastante água e fruta aberta, laranja ou maçã. Só tinha pera. Espero que ela não tenha levado a mal. Fui trabalhar. Quando cheguei, continuava exatamente no mesmo sítio e quero acreditar que não comeu nada. Disseram-me que talvez com um frasco fosse mais fácil apanhá-la e devolvê-la à natureza. Resultou, em...

Ressaca cultural de empatia intergaláctica ...

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  Socorro, estou a ficar lamechas… Partilhei por aqui que me derreti completamente com o polvo falante de Remarkably Bright Creatures (Criaturas Extremamente Inteligentes). A partir daí, a minha vida desceu uma espiral perigosa e comecei a ver documentários sobre polvos como se fosse investigação científica séria. Sendo fã incondicional de Ben Kingsley, estranhei um pouco vê-lo metido numa história de alienígenas. Depois lembrei-me do E.T. e pensei que talvez fosse seguro. Resultado: parei o zapping e fui ver o filme Jules. Estou oficialmente rendida. Agora só quero que o Jules aterre no meu quintal ou, na falta dele, na minha marquise, sei lá! Sem querer dar spoilers , digo apenas isto: comigo, o final teria sido outro. Eu ia com o Jules até ao fim do mundo, até ao outro mundo, e, no caso, até ao planeta dele. Sinto que estou perigosamente perto de passar dos polvos para os alienígenas e de começar a ver documentários sobre vida extraterrestre com o mesmo rigor e seriedade cient...

Lapsos Literários...

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  Tenho uma relação peculiar com livros e memória. Entro numa livraria cheia de certezas e saio frequentemente com autores trocados, capas convincentes e uma vaga sensação de que o meu cérebro decidiu improvisar. Há qualquer coisa de bonito nisso. Como quem pede um café e recebe um chá, mas acaba por beber o chá na mesma. Talvez seja assim que algumas histórias chegam até nós. Por acidente. Por distração. Ou porque, no fundo, os livros também gostam de se meter onde não foram chamados. Comprei “A Raridade das Coisas Banais”, de Pedro Chagas Freitas, a pensar que estava a comprar José Luís Peixoto. Depois, na Feira do Livro, trouxe dois livros de Afonso Cruz, um deles convencida de que estava a comprar João Tordo. Não sou fã de Pedro Chagas Freitas. Comecei a ler o livro e ainda não sei se o vou acabar. Talvez numa viagem de avião, sem outro à mão para o substituir. Não há livrarias nas nuvens. Adiante. Pedro a mais. Afonso Cruz e José Luís Peixoto na dose certa. João Tordo em défic...