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Palavras em trânsito...

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  A SAPO Blogs vai encerrar e estamos tristes, claro. Foi aqui que muitos de nós deixámos palavras, silêncios,  rotinas e onde se formou, inclusive, um imaterial sentimento de amizade. Um lugar não desaparece quando fecha. Permanece enquanto houver quem leve as memórias consigo. Convém, ainda assim, não dramatizar em excesso. Há outras plataformas. Nenhuma será exactamente igual, mas não nos roubam o essencial. Escrever continua a ser escrever. Ler continua a ser ler. Quem gosta verdadeiramente de palavras acaba sempre por encontrar um sítio onde as pousar, mesmo que isso exija alguma ginástica digital . Seguimos com a casa às costas . É tempo de ir fazendo as “malas”, guardar algumas palavras e preparar-me para o encerramento total . Vou permanecer até ao fim, limpar a casa, organizar o que fica. Estou grata pela forma como fui aqui acolhida. O sentimento de que um ciclo se encerra não me é estranho. A minha vida será sempre feita de saudade e de pessoas que ficam, irrem...

Manual de Transferência de Culpa...

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Imagem Pinterest 2025 ficou para trás. Finalmente. Um ano que não repetiria. Gostava que 2026 me devolvesse o que o anterior me tirou. A minha gata, principalmente. A minha tolerância. Alguma empatia por situações pontuais que, vistas agora, não justificavam as reações drásticas que tomei. Um inventário de ausências. O clássico “eu sou assim”. Não sou nada assim. Fui assim porque quis. Ou porque me deixei ser. Vá, 2026, traz-me serenidade e discernimento. Não posso continuar a fingir que não sei que somos seres plurais, contraditórios, mutáveis. Em 2025 fiz o que quis e só por quem quis.  Ri menos, convivi menos, afastei-me demais em nome da minha estabilidade emocional.  É confortável ter um bode expiatório, um ano inteiro para culpar. E se 2026 falhar, já tenho o discurso ensaiado: vou bater à porta de 2027 e queixar-me deste antecessor incompetente que não me soube carregar.      

Por Carla...

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  A minha mão sobre a da Carla. Eu e a Carla não éramos as melhores amigas. Por culpa minha, não é fácil ser minha amiga. Só estávamos juntas nos jantares de grupo. Num desses jantares, recebemos pulseiras iguais, daí a fotografia. A Carla faleceu precocemente. Temos várias fotos juntas, mas esta simboliza as vezes em que lhe podia ter dado a mão e só o fiz num momento fútil. As mãos tocam-se, mas o que verdadeiramente as une são os objetos, não o gesto. Nunca fui fácil de acompanhar ou de decifrar, e isso afastou-me do essencial, como dar a mão no momento certo. Vivo bem com isso. O mundo transborda de boas pessoas e conforta-me saber que não faço mal a ninguém. Gosto das pessoas na ausência, canso-me delas na presença. Não é frieza, é defesa. Talvez gostar à distância seja a minha forma imperfeita de amar.  

Falácias e Chocolate Quente...

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  Se viveria num país tropical? Sem hesitar, sim, sempre. Mas não deixo de ter um certo apreço por estes dias cinzentos, de chuva fina. Sem vento. Não gosto do vento, na mesma proporção em que ele não gosta de mim. A nossa relação é de mútua e fria indiferença. Pode considerar-se esta afirmação uma falácia patética, admito. Um erro de lógica que atribui sentimentos a algo inanimado. Mas eu e as falácias convivemos bem. E eu sei sempre quem gosta, ou não, de mim: sejam animais, coisas, pessoas, estados meteorológicos, meses, dias, horas ou segundos. Um eco que me sussurra "bem-vindo", ou uma sombra me adverte: "passa à frente.” E eu obedeço. Hoje, chove como eu gosto: sem frio e sem vento. Saí para a rua, toda eu sorrisos, debaixo daquela chuva que molha parvos. E molhou-me a mim. De volta a casa, preparei um chocolate quente, pus Tom Waits  a cantar baixinho e abri um livro. A chuva, lá fora, acompanhava o som da voz e o virar das páginas. E, por um breve instante, senti...

Voltar atrás, alterar o que não ensina...

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  O passado é imutável, mas nem todos se conformam com isso. Para alguns, os erros são lições, degraus necessários. Mas há quem sinta o contrário. Certas dores não ensinam, apenas doem. Éramos cinco ao jantar. O passado veio à baila. Ninguém mudava nada, caso pudesse. Todos os erros foram lições, crescimento. Há pessoas que valorizam particularmente a aprendizagem que nasce das falhas, dos tais erros, como se o sucesso e as vitórias não oferecessem o mesmo nível de conhecimento ou crescimento pessoal. Eu, a única a discordar. Mudaria tudo. Até o almoço da véspera, e o pequeno almoço do dia. Era a oportunidade de viver tudo de maneira diferente. Outra versão de mim, outros caminhos, outras histórias. Editar escolhas.  Até o passado delas, eu mudaria. Os erros não me ensinam nada. Não é com eles que quero aprender. Se o tempo voltasse atrás, a urgência maior seria silenciar as dores que ainda ecoam. Proporcionar-me-ia o que, por medo, me privei de viver, de ter, de arriscar ... Ir-me-ia ...

Antes que o café arrefeça...

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   Antes que o café arrefeça , de Toshikazu Kawaguchi. Um livro para ser lido na véspera de um feriado, à noite, sem pressa... e sem o sorriso patético que mantive da primeira à última página. Uma história simples, em termos de linguagem, com uma profundidade emocional despretensiosa. Criei uma certa empatia com as variadíssimas personagens. É um livro honesto: conforta sem iludir. Quase uma reflexão disfarçada de história, um exercício de empatia silenciosa com personagens que, embora breves, parecem familiares. Também não é um “livrão”. Diria que funciona melhor como metáfora do que como enredo. E mais não digo, para não ser acusada de spoiler. “A aceitação pode ser mais libertadora que a correção.” Li isto algures, aqui, faz todo o sentido. Mas tenho de ir, antes que o café arrefeça.    

"Não me sacudam que estou cheio de lágrimas."

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     O senhor impecável na sua camisa branca, despojada de gravata, permanecia solitário, encostado ao acrílico, na plataforma que separa as carruagens do comboio. Era o rosto do desalento, emoldurado numa barba aparada e quase grisalha. O sobretudo de caxemira cinza parecia um manto pesado, carregado de sombras e preocupações. A minha atenção focou-se nele, em detrimento do livro que tencionava ler. Olhei-o fixamente, na certeza de que, caso os nossos olhares se cruzassem, ele não me veria. Nas entrelinhas da expressão, podia ler-se as palavras de Louis Calaferte: "Não me sacudam que estou cheio de lágrimas." O comboio estremeceu e parou; as portas automáticas abriram,  ele saiu. O comboio, indiferente às histórias pessoais que transporta, continuou a sua jornada. O início da marcha foi gradual, fiquei a vê-lo da janela,  e ele foi ficando para trás até desaparecer. E não pude fazer nada. Quisera oferecer-lhe palavras de consolo ou, pelo menos, pôr-lhe a mão no ombro num ges...