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"Não me sacudam que estou cheio de lágrimas."

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     O senhor impecável na sua camisa branca, despojada de gravata, permanecia solitário, encostado ao acrílico, na plataforma que separa as carruagens do comboio. Era o rosto do desalento, emoldurado numa barba aparada e quase grisalha. O sobretudo de caxemira cinza parecia um manto pesado, carregado de sombras e preocupações. A minha atenção focou-se nele, em detrimento do livro que tencionava ler. Olhei-o fixamente, na certeza de que, caso os nossos olhares se cruzassem, ele não me veria. Nas entrelinhas da expressão, podia ler-se as palavras de Louis Calaferte: "Não me sacudam que estou cheio de lágrimas." O comboio estremeceu e parou; as portas automáticas abriram,  ele saiu. O comboio, indiferente às histórias pessoais que transporta, continuou a sua jornada. O início da marcha foi gradual, fiquei a vê-lo da janela,  e ele foi ficando para trás até desaparecer. E não pude fazer nada. Quisera oferecer-lhe palavras de consolo ou, pelo menos, pôr-lhe a mão no ombro num ges...