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O meu espantalho... (atualização Sapo Blogs)

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Proporcionalmente às coisas de que realmente gosto, gosto de poucas coisas. Gosto de burros, gaivotas, pardais, abraços, cemitérios, de si, de mim, mas isso toda a gente sabe. O que pouca gente sabe, e digo pouca porque há alguém que sabe, é que gosto de espantalhos. Não me refiro aos espantalhos que abrilhantam e se cruzam connosco no nosso dia a dia. Esses respeito, naturalmente, senão pouco sobraria para respeitar, e eu gosto de sentir que respeito muito. Refiro-me, mesmo, àqueles espantalhos das hortas, com cabelos de palha e vestidos de roupas velhas, muito velhas. Um espantalho de smoking duvido que me causasse o mesmo efeito. Claro que não consigo explicar este meu fascínio pelos ditos, como também não consigo explicar porque é que eu acreditava em tapetes voadores, enquanto os outros miúdos acreditavam no Pai Natal. O objectivo dos espantalhos é afugentar os passarinhos, mas um espantalho que se preze tem sempre os braços bem abertos para lhes servir de poleiro. Daí os espantal...

Espalhadas uma pela outra...

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  Só me lembro que a Luna partiu quando não está. Por norma, está sempre espalhada pela casa e pelas nossas rotinas. Num canto qualquer, num gesto, numa hora do dia, numa coisa que ficou exactamente onde ela a deixou. A ausência só se torna evidente quando, por alguma razão, ela não está. Hoje, dei conta de mais uma arranhadela. “Sempre eu”, deve ela ter pensado lá no céu. Posso ter sido eu a arranhar-me. Pode ter sido num ramo, numa das minhas caminhadas. E também pode ter sido mesmo a Luna. No aniversário da sua partida, é essa a hipótese que me faz mais sentido. Talvez a saudade seja isso também. Esta maneira estranha de continuarmos a viver uns nos outros, mesmo depois de já não podermos estar juntos. Gosto de pensar que, talvez exista um qualquer lugar onde ainda faço parte dos seus dias, dos seus gestos, das suas pequenas coisas. Porque talvez partir não seja desaparecer. Talvez seja apenas deixar de estar. E há uma diferença enorme entre as duas coisas. Eu só me lembro que a...

Não me sacudam ... (atualização Sapo Blogs)

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Bateu à porta levemente, deu-me a correspondência em mãos e perguntou: Estás a chorar?  Não é pergunta que se faça. Pessoas como eu são demasiado cobardes para chorar. Chorar é para os fortes.  Nós, os cobardes, temos conjuntivite, alergia, um cisco no olho... nunca são lágrimas. Nem  lhe respondi. Se dissesse a verdade, teria de confessar mais do que lágrimas. Despachei-o com um aceno, e ele continuou a distribuir a correspondência pelos vários gabinetes. Não éramos colegas. Várias firmas tinham escritórios alugados no mesmo espaço: um andar na zona do Marquês de Pombal. Por norma, ele, era o último a chegar, coincidindo com a hora do carteiro. Outras vezes, chegava tarde, e era eu a incumbida da tarefa. Havia espaço para uma breve troca de palavras.  Não éramos amigos. Imperava a cordialidade, e só. Nunca aceitei o convite para tomar café. Evitar, a qualquer custo, criar laços. E eu estava a chorar, sim. Porque era o meu último dia ali. Porque ia embora para um nov...

A Intrusa...

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À minha passagem, os grilos calaram-se. Retomaram a cantilena no segundo seguinte. Os pássaros não se intimidaram. Diria até que reforçaram o chilrear. Talvez para abafar os sons da cigarra, dos patos. Ou das rãs no lago azul. Azul da cor do céu.  Ao longe, um cão ladrava. E eu, ali, sem saber com qual deles conversar. Ali, sem um papel claro a desempenhar. Nenhum daqueles sons me pertencia. Sentinela mal colocada. A intrusa. Até ao anoitecer...      Fotos do meu álbum "Por aí..."      

Falácia de um Retorno...

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  E foste embora embrulhado nas minhas palavras, numa ida sem volta. Fiquei a ver-te partir, num adeus envergonhado que a sombra do dia ocultou. O amanhecer tranquilo desenhou corações na janela do meu quarto. Todos para ti, meu amor agora ausente. Voltarás em sonhos trocados. Falácia de um retorno teórico. Não em dia de nevoeiro, como o rei. Mas num dia cinzento. Educadamente cinzento. Imagem Pinterest

Prelúdio de Cinzas...

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  Preparo-me para o luto, acendo previamente todas as velas que formam o percurso até mim. Não sei se há luto para o inacabado! Primeiro morrem os sonhos, depois é o silêncio que fala como um eco que retorna em desejo de ser voz. Cansada de acordar periodicamente, olho o espelho que reflete a indiferença de mim. É a repetição ritmada de uma vigília que se inventa. Terei sempre o esquecimento... que conduz à reconciliação, terei sempre um momento para sublinhar, terei sempre a noite e a noite é o meu lugar para permanecer. Eu não sei se é a morte que pousa na minha sombra! Pelas vezes que morri, pelas vezes que me ergui, ergue-se a lua em forma de boa pessoa e chora sob o meu nome... Penitência de um ser anónimo, é aí que me visto de cinzas.

Em V…

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  Em sentido oposto, mas como se caminhássemos uns ao encontro dos outros, todos os dias me cruzo, na ciclovia do parque, com um grupo de cinco homens. Caminham em V, como no voo dos gansos. Será que praticam a mesma filosofia? Quando nos cruzamos, desfazem a formação e alinham-se em fila indiana, para logo depois retomarem o V. Bem-dispostos, ao fim de poucos encontros começaram a dizer «bom dia», em coro. Eu respondo, naturalmente. Depois, alguém se atreveu a um «como está?». E, aos poucos, foi escalando uma maior proximidade. Foi então que mudei para o percurso superior, separado por um riacho. Preveni-me. Já vi casamentos começarem por menos. Primeiro, um cruzar de olhares. Depois, um «olá». Fala-se do tempo. A seguir, um café. E, quando damos por nós, estamos no altar, a dizer sim ao ganso líder, enquanto o gansinho das alianças se aproxima, solene, para nos pôr no dedo uma argola de ouro. Os restantes perfilam-se como testemunhas. Cá coisas. Além disso, o parque superior tamb...

A dança do sono…

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  O sono baila airosamente. Débil, quase um pressentimento. Rascunhos de saudade emergem da solidão, e bocejam na memória da minha porta. O relógio, em vez de avé Marias, chora badaladas. Doze. Devagar, apagam-se os ruídos da cidade. Luzes piscam despedidas nas janelas entreabertas. Cada sombra sabe exatamente onde se deitar. Aninha-se o silêncio no dia adormecido. Os medos também precisam de descansar… Boa noite.

Contacto de emergência procura-se…

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Mais por hábito do que por necessidade, todos os anos compro uma agenda referente ao ano em curso. Preencho tudo ao pormenor. Aniversários, consultas, reuniões, coisas que tenho de fazer, coisas que não posso esquecer e outras que, invariavelmente, acabo por esquecer. Há, no entanto, uma linha que fica sempre em branco: Contacto de emergência. Há anos que essa parte deixou de ser preenchida. Na realidade, não tenho mesmo um contacto de emergência. Passamos tanto tempo a construir uma vida independente que, às vezes, nos esquecemos de que há momentos em que a independência tem o seu preço. Há dias em que precisamos simplesmente de alguém que diga "deixa estar, eu trato disso, eu estou aqui". Podia pôr A, B ou C. Mas, certamente, qualquer uma dessas pessoas já é o contacto de emergência de alguém. E de alguém de quem tem verdadeira responsabilidade. Não extensiva a mim, evidentemente. E isto fez-me pensar que contacto de emergência devia ser uma profissão. Uma coisa contratável...

Sexta, 28/08/2026

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Em Viseu, todas as sextas feiras, ao jantar, comíamos bola. Era o único dia em que eu cozinhava. Mantive o hábito por uns tempos. Hoje senti uma certa nostalgia. Lurdinhas, Mimi, Jorge e Pedro, caso mantenham o hábito, estamos em sintonia. Às vezes, trato-me tão bem que até tenho inveja de mim...

Agustina Bessa Luís...

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Este mês li vários livros de autores que já conhecia, mas também me estreei com Rita Ferro e Agustina Bessa Luís, duas autoras que conhecia apenas de referência, mas que nunca tinha lido. Gosto de Edgar Wallace, no entanto, não consegui chegar a meio de O Homem que Sabia; abandonei a leitura sem culpa. Há livros que, por muito que gostemos do autor, não nos agarram. Rita Ferro lê-se bem. Não é maçuda e o enredo de As Mulheres Não Choram é quase um déjà-vu. Uma leitura descontraída, simples e sem grandes sobressaltos. Agustina, em Fanny Owen , não me surpreendeu, porque não esperava menos. A elegância das palavras, a mestria da narrativa, a forma como constrói e conduz a história... Sem sombra de dúvida, isto é mesmo literatura. Resumindo: Rita Ferro entretém, para desacelerar. Agustina Bessa Luís desafia e permanece. E, naturalmente, já encomendei mais dois livros dela, A Sibila e A Dama do Paço . Porque há autores que lemos e outros que queremos continuar a descobrir.

História com final feliz…

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Fui protagonista na tua história de papel. Tropeçando nas vírgulas que me impuseste. Escondida nas entrelinhas. Sobrevivi à primeira página. Morri antes do fim. Abandonada numa frase por acabar. Engolida por um silêncio e em letra pequenina. Mataste-me com a pressa de um rascunho, rabiscado com lápis de ponta fina. E tiveste o teu final feliz. Imagem "Pinterest"

Porque eu gosto de pedras e minerais e outras coisas mais...

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  A expectativa: Pedra bruta de grão grande Labradorita de pedra bruta Lascas de Abalone Natural Iridescente : Pedra Bruta de Obsidiana com Veios de Floco de Neve: Pedras Brutas de Quartzo Transparente Branco : Pedras de Cristal Bruto Azul Escuro Cobalto : Cristal de Sunstone Natural : Pirita Natural : A realidade:

Uma requisição por cumprir...

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Encontrei este talão dentro de um livro. Garantidamente, não é uma requisição minha. Provavelmente,  o livro comprado em segunda mão ou alguém meu conhecido incumbiu-me, algures no tempo, de uma tarefa que nunca cheguei a cumprir. Não sei a história do talão, mas, ao encontrá-lo, veio-me uma imagem à memória. Coimbra: quatro estudantes a rir e a falar alto, um frango assado dividido entre eles e comido à mão, na rua Ferreira Borges, uma garrafa de litro de Coca-Cola e um rolo de papel higiénico a servir de guardanapos. A essência da juventude e da camaradagem universitária estava toda ali. Não havia artifícios nem etiquetas, a felicidade ali era pura, crua e despretensiosa. Pensei, um dia, replicar a situação. Não precisava de ser em Coimbra. Queria apenas partilhar com um grupo de amigos um frango assado e um rolo de papel higiénico, comer à mão e rir muito. Mas não tenho quem me acompanhe nesta loucura. E, quando tive, não surgiu a oportunidade ou não me lembrei. Diria que este t...

Às vezes, acontece...

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  Apetecia-me escrever. No entanto, reconheço que estou demasiado contundente para o fazer. Quando não temos nada de agradável para dizer, devemos ficar calados. É um lema que adoptei. E, com o tempo, aprendi que, quando não temos nada para dizer, também. Por isso, hoje não digo nada. Ainda que me apeteça. Ainda que tenha tanto para dizer. Talvez, por vezes, o silêncio seja a forma mais sensata de não dizermos aquilo de que nos poderemos arrepender depois. Hoje, a página fica em branco. 

Crónica de uma amizade improvável...

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Eu e a Sónia conhecemo-nos numa formação de trabalho. Nunca nos tínhamos visto. Os restantes colegas também não se conheciam entre si, mas, ao fim de pouco tempo, todos tinham a certeza de que nós éramos amigas de longa data. A cumplicidade nasceu ali, quase imediatamente. Trabalhamos em edifícios diferentes. Podia ter sido uma daquelas amizades que ficam associadas a uma formação, a algumas conversas e a um “qualquer dia temos de combinar qualquer coisa”. Não foi. Nunca perdemos o contacto. Esta semana, tivemos finalmente a oportunidade de trabalhar juntas. Foi uma semana incrível. A Sónia detesta papéis. Eu tenho uma relação de amor com eles, juntas conseguimos transformar uma tarefa em qualquer coisa parecida com diversão. Rimos, trabalhámos imenso. Sem grande esforço, acabámos por ser uma espécie de lufada de ar fresco para as restantes colegas do departamento. As horas de almoço também foram fantásticas. Conhecemos pessoas novas, conversas inesperadas, e até fizemos um piquenique ...

Ponto sem fuga...

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  Em gesto distraído inventa memórias. Tudo o mais é um mar de silêncio Onde se pescam gritos. É permitido dizer adeus sem enviar um beijo. E fecha a porta, com quem apaga uma vela E passa a velar-se a si próprio. Faz-se triste na solidão exposta. Ele, chora baixinho, porque ela não volta. Esvaída no perfume duma flor que murchou. Em gesto distraído inventa memórias Como quem desenha lágrimas, com lápis de ponta fina Numa página que se rasgou...

Alterar o que não ensina...

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O passado é imutável, mas nem todos se conformam com isso. Para alguns, os erros são lições, degraus necessários. Mas há quem sinta o contrário. Certas dores não ensinam, apenas doem. Éramos cinco ao jantar. O passado veio à baila. Ninguém mudava nada, caso pudesse. Todos os erros foram lições, crescimento. Há pessoas que valorizam particularmente a aprendizagem que nasce das falhas, dos tais erros, como se o sucesso e as vitórias não oferecessem o mesmo nível de conhecimento ou crescimento pessoal. Eu, a única a discordar. Mudaria tudo. Até o almoço da véspera, e o pequeno almoço do dia. Era a oportunidade de viver tudo de maneira diferente. Outra versão de mim, outros caminhos, outras histórias. Editar escolhas. Até o passado delas, eu mudaria. Os erros não me ensinam nada. Não é com eles que quero aprender. Se o tempo voltasse atrás, a urgência maior seria silenciar as dores que ainda ecoam. Proporcionar-me-ia o que, por medo, me privei de viver, de ter, de arriscar ... Ir-me-ia da...

Síndrome da Noctofobia Cinderélica... (Atualização Sapo Blogs)

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Eu também me acho uma pessoa estranha e sei que certas coisas inusitadas que me acontecem são fruto da minha capacidade de vestir a pele das personagens que os livros me oferecem. Gosto do chá Earl Grey porque, num livro de Ellery Queen, uma Mrs. não-sei-das-quantas só bebia esse chá. Mas o pior são as síndromes de que padeço, todas com a mesma origem. A uma delas dei o nome de Síndrome da Noctofobia Cinderélica (não confundir com nictofobia). Eu explico: a história da Cinderela sempre me acompanhou. Sofri horrores com medo de que ela se transformasse em abóbora caso as doze badaladas a apanhassem na rua. Não sei quando começou, mas sei que é mais forte do que eu: esteja onde estiver, com quem estiver, com o aproximar da meia-noite, desapareço a grande velocidade. No limite, o barulho da porta a fechar tem de coincidir com o som da última badalada. Era a noite branca. A festa na praia até estava a correr bem. Mas, com o anoitecer, vieram as minhas inquietações. Os meus olhos, impacient...

Entre o escritor e a obra...

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João Tordo, em Águas Passadas. Foi um livro que não me cativou. Ponderei deixá-lo a meio. Escreve fluidamente, é certo, mas sem o cuidado de embelezar um parágrafo que seja. É o deixar ir. Faltou-lhe a lapidação e o cuidado estético que procuro na literatura. Não posso julgar um escritor por um único livro. Ele, inadvertidamente, lembrou-me isso quando, numa passagem, refere Sidarta, de Hermann Hesse. Um livro que adorei e que me levou a comprar outros livros do autor. Caso tivesse sido O Lobo das Estepes, um livro que me desiludiu profundamente, provavelmente teria desistido de Hesse para sempre, perdendo assim a oportunidade de descobrir literatura de excelência. Portanto, não vou desistir de João Tordo. Aguardo outro registo. A utilização frequente de linguagem obscena, insultos e palavrões nos diálogos também me cansou. Não só por algum pudor da minha parte, mas porque, ao repetir-se, deixou de servir as personagens para se transformar num recurso previsível. O mesmo aconteceu com ...