Espalhadas uma pela outra...
Só me lembro que a Luna partiu quando não está.
Por norma, está sempre espalhada pela casa e pelas nossas rotinas. Num canto qualquer, num gesto, numa hora do dia, numa coisa que ficou exactamente onde ela a deixou. A ausência só se torna evidente quando, por alguma razão, ela não está.
Hoje, dei conta de mais uma arranhadela.
“Sempre eu”, deve ela ter pensado lá no céu.
Posso ter sido eu a arranhar-me. Pode ter sido num ramo, numa das minhas caminhadas. E também pode ter sido mesmo a Luna.
No aniversário da sua partida, é essa a hipótese que me faz mais sentido.
Talvez a saudade seja isso também. Esta maneira estranha de continuarmos a viver uns nos outros, mesmo depois de já não podermos estar juntos.
Gosto de pensar que, talvez exista um qualquer lugar onde ainda faço parte dos seus dias, dos seus gestos, das suas pequenas coisas.
Porque talvez partir não seja desaparecer.
Talvez seja apenas deixar de estar.
E há uma diferença enorme entre as duas coisas.
E talvez, de alguma maneira, ela também saiba quando eu não estou.
Até lá, continuamos espalhadas uma pela outra.


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