O Chinelo, a Sopa e a Ausência do Príncipe...

Eu também me acho uma pessoa estranha e sei que certas coisas inusitadas que me acontecem são fruto da minha capacidade de vestir a pele das personagens que os livros me oferecem. Gosto do chá Earl Grey porque, num livro de Ellery Queen, uma Mrs. não-sei-das-quantas só bebia esse chá. Mas o pior são as síndromes de que padeço, todas com a mesma origem. A uma delas dei o nome de Síndrome da Noctofobia Cinderélica (não confundir com nictofobia).


Eu explico: a história da Cinderela sempre me acompanhou. Sofri horrores com medo de que ela se transformasse em abóbora caso as doze badaladas a apanhassem na rua. Não sei quando começou, mas sei que é mais forte do que eu: esteja onde estiver, com quem estiver, com o aproximar da meia-noite, desapareço a grande velocidade. No limite, o barulho da porta a fechar tem de coincidir com o som da última badalada.


Era a noite branca. A festa na praia até estava a correr bem. Mas, com o anoitecer, vieram as minhas inquietações. Os meus olhos, impacientes, ficavam colados ao mostrador do relógio. Foi então que a minha Síndrome da Noctofobia Cinderélica tomou conta de mim: desatei a correr pela praia fora. Tinha cronometrado o tempo que levaria da praia à casa alugada, para o efeito, na bicicleta emprestada. Senti o chinelo, comprado horas antes num chinês, a soltar-se. Pedalar com um pé descalço era desconfortável, mas a probabilidade do feitiço cair sobre mim e acabar no prato de alguém, no dia seguinte, em forma de sopa alaranjada, tornou isso a menor das minhas preocupações.


Já no conforto do lar, fui invadida por aquela esperança peregrina de que alguém bateria à minha porta e, caso provasse que o chinelinho era meu, casaria comigo e viveríamos felizes para sempre. Tal não aconteceu. Ainda…


E eu, deitada na cama, olhos fechados, podia jurar que ouvi o sussurro das ondas a rir suavemente, como se o mar soubesse de um segredo que eu no momento desconhecia.


 


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