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Noite casta...

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    Vem jantar  comigo Ponho-te  toalha de linho Pratos de porcelana fina E copos de cristal. Abrimos  latas de atum E chamamos caviar. Bebemos vinho indecente E chamamos néctar dos Deuses. Damos a mão E chamamos-lhe amor. Vem jantar comigo Está noite de luar. As flores  não murcharam As velas não queimaram. Mas a espera já desdenha. Morrem-me segundos Nas pontas dos dedos. Nesta madrugada lenta Exaustivamente casta...    

O Sossego das Cores...

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    As cores desmaiam com a delicadeza que só as coisas cansadas sabem ter. O mundo, exausto, quer retirar-se em silêncio. Há um rumor leve no ar, o último fôlego de um dia que persiste, teima em não querer partir. As sombras alongam-se devagar, tocam os muros, os rostos, as memórias. Tudo parece suspenso entre o ainda e o já não, entre o que foi e o que se despede sem alarde. O tempo abranda, perde a pressa de existir. As vozes tornam-se ecos distantes, dissolvidos numa névoa húmida. Levanta-se o vento, que recusa ser pintado em repouso. Nesse instante quase imóvel, o ocaso, esbatido, parece adormecer dentro de si, embalado pela própria exaustão. Esvai-se o dia, cansado. As cores começam a desbotar, transformando o mundo num esboço a carvão .

Inventário de nós...

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  a noite interdita no gesto proibido. o desenho suave da cicatriz na memória do quarto. jardim despido de flores, de sonhos, de sons, de ti sem mim.    

Silêncios Que Me Acordam ...

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Gosto da noite. Não é só o silêncio, nem apenas a ausência de compromissos. É outra coisa. Tenho mais energia, sou mais criativa, até as conversas saem mais articuladas. Os pensamentos acordam, as memórias ganham vida, tudo se acende quando a luz do dia se esconde. À noite, sou mais bonita. Não tenho dúvida. A tolerância sobe um patamar, como se também ela preferisse o lusco-fusco. O único senão é que detesto dormir. Mas adoro acordar. Acordo cedo, sempre. Mesmo ao fim de semana. E não me incomoda nada. Pelo contrário: gosto da casa em silêncio. Gosto que assim continue durante a meia hora seguinte. Não é um silêncio absoluto, há uma música baixinha que faz parte dele. O telemóvel permanece sem som.  O meu raciocínio ainda está algures, esquecido numa almofada. E eu gosto disso. Gosto desse tempo em que não se exige pensamento nem resposta. Gosto da penumbra que reflete, envergonhada, a lâmpada de baixa voltagem do candeeiro, que não queria ali estar, por se sentir desautorizado no cum...

Um Fósforo Aceso Era Quase Poesia...

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Não há príncipes? Não faz mal. Escrevem-se histórias de sapos. Não há luz? Não faz mal. Lê-se à luz improvisada. Às vezes são as noites escuras que nos iluminam por dentro. 

Notas de um sonho breve...

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  Era uma rua escura, inodora, daquelas ruas onde não acontece nada. Do lado de lá de uma janela, alguém tocava uma balada. Sentei-me num degrau do prédio, como quem espera a chave para entrar. A melodia surgia como o lamento de alguém que queria ir muito para além de um encontro improvável. Encostei-me à parede fria, fechei os olhos e imaginei uma sala despida de adornos. Apenas um piano. Alguém, no masculino, de feições indefinidas, sem carisma emocional, deixava as notas acontecerem, indiferente. Foi aí que entrei na sala. Senti-me impotente e frágil, pálida como um fantasma que não morreu. O abraço fez-se em passo de dança, num redopio lento de quem reconhece a presença e quer a todo o custo não a deixar fugir.  Tentei descobrir ali um atalho para a normalidade. O máximo que consegui foi um pensamento fatigado: Agora é tarde para querer sair daqui. Envolvida num abraço de náufraga, deixei-me afogar num barulho de cristais, com suspiros de cetim. Voltei à rua. Deixei-o a arrumar a m...

Pecados consentidos...

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  A noite tem a cor que eu gosto, tem fantasmas do meu tamanho. Tem medos que adormecem e me deixam dormir também. Na hora do excesso permitido, bailam pecados em meu redor. Eu escondi-me muito pouco... Fugaz mendiga das horas paradas, ampliadas num suspiro qualquer. Existem palavras soletradas, esculpidas em pedra dura, que não se cruzam. No silêncio, não há palavras cruzadas. Eu sei, e tu sabes. Perto ou longe, nunca seremos nós...

Exílio Sem Cor ...

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  É manhã. Desprendo-me de mim. Adormeço com palavras em forma de poema. Acordo com palavras mudas, pensamentos com forma e sem vibração. É manhã. Eu já cá não estou! É como se o dia viesse e me levasse para um sítio onde não quero estar. Logo à noite, talvez regresse… frágil, desamparada, inocente. Mas agora tenho de ir, infiltrar-me no mundo dos outros, distribuir simpatias e sorrisos ensaiados. O meu mundo é a preto e branco, e obrigam-me a afagar o arco-íris. Não quero pisar caminhos já trilhados, nem ser protagonista de uma história que morre de tédio terminal. Mas, enquanto a noite não vem, tenho de ir e sentir que estou a ser integrada acima das minhas possibilidades, camuflando uma louca ilusão… A ilusão de que, algures, num sítio a definir, secreto, em que é reservado o direito de admissão... exclusivo para pessoas que vivem a preto e branco …, há lugar para mim. É dia, e a vida não para. Continuam a nascer e a morrer pessoas. Pergunto se não terei morrido também… ou se sobrei...

A dança do sono...

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  O sono baila airosamente. Débil, quase um pressentimento. Rascunhos de saudade emergem da solidão, e bocejam na memória da minha porta. O relógio, em vez de avé Marias, chora badaladas. Doze. Devagar, apagam-se os ruídos da cidade. Luzes piscam despedidas nas janelas entreabertas. Cada sombra sabe exatamente onde se deitar. Aninha-se o silêncio no dia adormecido. Os medos também precisam de descansar… Boa noite.  

Silêncios de Novembro...

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      No gesto altruísta de quem decide oficializar a distância, parti. Partir é quase morrer... com a capacidade de ressuscitar. Pesa o silêncio a que a memória se habituou. Esboço um sorriso que não é o meu ... Esse morreu ontem à noite. A noite, essa, mantém-se lá fora... E são duas da manhã. Uma janela que se fecha... A minha... Como um Novembro sem calma... Um episódio em forma de fim. Alguém que morreu, sem partir e ainda não sabe. As ondas, essas, morrem na praia. Nem todas vão para o céu...   Foto do  álbum "Os meus serões".        

A Vista da Minha Janela…

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Mudou a hora, anoitece mais cedo. “Penso, com frequência, que a noite é bem mais viva e tem um colorido mais rico do que o dia.”     Concordo com Van Gogh. À noite tudo parece poesia. A prova, "a vista da minha janela” a horas diferentes.    Sem desprimor para as outras destaco esta, tirada em Istambul, onde à noite é bem visível a Ponte do Bósforo. Dubai Marina Tirana (Albania) Dubai Metro Station Da janela do avião, num céu por aí  Nicósia (Chipre) Janela da minha casa (Portugal, por enquanto ...) Eu, preto e branco, versão espantalho. Mas à noite nem se nota nada (angel face)         Imagens do meu álbum : quando a paisagem anoitece…                  

Deixei de fumar. Parece-me... (parte II)

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Meu Deus, vou ficar rica! Pensei. E, de imediato, me imaginei  vestida de amarelo, com um chapéu de abas largas da mesma cor, a desinquietar o senhor Ambrósio porque me apetecia tomar algo.  Deixei de fumar. Pelo menos já não fumo há cinco meses. Jamais saberei se é para a vida toda. A última tentativa não correu muito bem. Desta vez, a musa inspiradora foi uma longa viagem de comboio. Não, não é no Expresso  Oriente. Para ficar a um preço suportável, teria de integrar um grupo de pelo menos cinco pessoas. Cruzes credo! Quem gosta de viajar sozinho percebe-me. É uma simples viagem de comboio pela Europa. Para quem fuma, viajar é sempre stressante, mesmo que as viagens sejam curtas. De avião a alternativa é escolher voos com escala e não cortar as unhas nos dois meses antecedentes.  Viajar. Foi isso que me levou a deixar de fumar e, até agora, com sucesso. Tenho mais saudades dos meus momentos com o cigarro do que do cigarro em si.  Não fiquei rica. Nem ganhei mais paladar, olfato, pele...

"AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM"

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“O sentido do amor e da amizade estava todo ali. A amizade deles era séria e silenciosa como todos os grandes sentimentos destinados a durar uma vida inteira. E como todos os grandes sentimentos, também continha certa dose de pudor e culpa. Ninguém se pode apropriar impunemente de uma pessoa, subtraindo-a de todas as outras.” SÁNDOR MÁRAI (As Velas Ardem Até ao Fim)   Crei grandes expectativas quando encomendei este livro, há cerca de um ano. Muito recomendado, críticas de excelência. Guardei-o como quem guarda o melhor pedaço da sobremesa para o fim. Vai ser o meu companheiro esta noite. Que não me desiluda. Depois digo...