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A aritmética do desamor...

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  Salvou-se como se padecesse de uma doença terminal e, no espanto da cura, a atribuiu a um milagre. Salvou-se, lavou as mãos para limpar o contacto da mão dela na sua e o cheiro do creme barato comprado na drogaria do Aníbal, que faz esquina com o bar onde, em tempos, timbraram o seu amor, servido em chávena quente, fumegante, aroma a café, moagem fina, Lote Barista. Ficou livre como um pássaro de inverno que não pia nem suspira, mas ainda tem asas. Tristão sem Isolda, Romeu sem Julieta, história em branco de um casal que Shakespeare, em drama de som e fúria, significando nada, é a vida, não chegou a registar. Salvou-se, por milagre, de ser eternizado em literatura de cordel, em modo Corín Tellado como a madrasta dela gostava. Alívio. O que fica escrito é para sempre e não pode ser apagado, nem com a parte azul da borracha que rasga o papel para apagar a tinta.  Um-dó-li-tá, quem está livre, livre está. Ele está. A aritmética do desamor é simples: menos com menos dá mais, ma...

Sintaxe da Fuga…

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  Num esforço semântico quis escrever um poema de amor. Completo. Velas. Flores. Corações. O fogo que arde sem se ver. O contentamento descontente. Mas, num impulso, o amor rasga o papel. Sai do poema. Não por erro ortográfico, nem por cansaço. Foge do poema para fugir de mim. E o que fica é o nó desfeito. O papel vazio. Um poema mutilado.                                                                                                                                                                                                                                                                     Imagem Pinterest    

Noite casta...

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    Vem jantar  comigo Ponho-te  toalha de linho Pratos de porcelana fina E copos de cristal. Abrimos  latas de atum E chamamos caviar. Bebemos vinho indecente E chamamos néctar dos Deuses. Damos a mão E chamamos-lhe amor. Vem jantar comigo Está noite de luar. As flores  não murcharam As velas não queimaram. Mas a espera já desdenha. Morrem-me segundos Nas pontas dos dedos. Nesta madrugada lenta Exaustivamente casta...    

Compasso de espera...

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  Ainda não passou um mês desde que a minha gata partiu, e já perdi a conta às vezes que me sugeriram adotar outra. Como se a sua ausência fosse um mero inconveniente: uma camisola que se rasgou, um sapato que descolou e urge substituir. Quem nunca criou uma relação verdadeira com um animal, quem nunca partilhou brincadeiras, afeto e rotinas, dificilmente compreende que a perda não é “só um gato”. É família. É a ausência de uma companhia que, durante quinze anos, fez parte da minha vida. A sugestão de “adotar logo outro” é fria, porque ignora o luto, a memória e o espaço que ainda está dolorosamente preenchido, o lugar que é dela. É uma ligação intemporal: não se apaga, não se substitui. Ninguém substitui um familiar que morre. Os nossos animais não são objetos de estimação; são seres com quem partilhamos amor. Eu sei que não é por maldade; é antes uma forma de cuidado, uma tentativa de me oferecerem companhia no vazio que ficou. Um remendo, como se um novo afeto pudesse costurar de im...

O mundo tornou-se um lugar menor...

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      Ficarás para sempre em cada silêncio da minha saudade... 

Para o Martin com amor ...

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Martin era o meu gato. Desapareceu há dezoito anos. Não há luto para o inacabado. Nem persistência que resista ao compasso do tempo. Mas, sem luto, há um ciclo incompleto que não sei como fechar. E continuo a vê-lo por aí e sei que não é ele, porque não me vê a mim. E continuo a vê-lo em cada canção, em cada trecho, que tem a palavra "amigo". Continuo a resistir à resignação e ao adeus. O Martin não morreu no tempo, mas no silêncio. E esse silêncio continua a miar nas paredes da casa e no meu coração. Não é perda nem presença, apenas ausência sem forma.       "And all are bobbing heads in sync And all have got a lot on their minds to think about But you carry on in pictures and in song And the unmade be you slept in Where I laid you down to rest one last time Goodbye, dear friend, goodbye, dear friend "  

SENSIBILIDADE ESTÉTICA DA PALAVRA ADEUS...

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    Vou em viagens de sonho, embrulhada em papel vintage e num gesto de quem respira o mesmo ar falo-lhe ao ouvido, em voz de cinema: “O melhor de mim é a forma como gosto de ti.” Tinha esquecido que qualquer gesto está cheio de pequenos outros. Dei o último suspiro. Saí para a rua, como se fosse a primeira vez. Não sei sonhar, nem amar, nem dizer palavras de amor, mas fico linda quando sorrio. Gosto de respostas que calem a pergunta e de mim quando solto o cabelo. Temo que o tempo me traga saudades mortas a escorrerem por todos os lados principalmente por mim. Ter cuidado com as palavras não significa ficar calada. Arrumo as palavras numa folha de papel branco que fecho dentro da gaveta ... e deito a chave fora. Vou-me despindo de ti... até ficar nua!  

A NETA DA MARIA...

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  Põe o lenço na cabeça, pega nas duas pontas, cruza-as atrás do pescoço, agilmente, e ata-as no cimo da cabeça. Lenço azul petróleo, com florinhas brancas, avental a condizer, que é domingo. Sai para a rua, bate a porta, fecha-a à chave, põe a chave debaixo do vaso dos manjericos. Vai pela vereda, para aproveitar a sombra. Segue ligeira, com a mão na cintura, a outra balança ao ritmo dos passos. Vai almoçar com a ti Xica, a comadre. Chegada ao destino, sem bater à porta, entra. A comadre recebe-a com um sorriso, diz-lhe que está adiantada, os grelos ainda estão ao lume. Responde que não tem muita fome, anda com uma dor nas cruzes, a filha quer que "lhe chegue" uma pomada, mas ela prefere ir ao Ti Gabão, o endireita. Foi ele que a curou da dor no ombro e nunca mais padeceu de tal mal. Entretanto, os grelos cozeram. Grelos com batatas e ovos cozidos. Servidos numa malga, empurrados com o pão para uma colher. Findo o repasto, pegaram num bloco de linhas, dois envelopes e dois s...

Por falar de amor...

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    A Luna tem 14 anos. No ano passado, esteve muito doente. Acredito que não foram os medicamentos, foi o amor que a salvou. A dedicação, estar com ela noite e dia, não a deixar ir. Dar-lhe comida à boca, conversar com ela. Aos poucos, foi recuperando. A dinâmica alterou-se: as travadinhas das três da manhã, em que corria pela casa toda, trepava paredes, depois acalmava e olhava-me, como se eu fosse o rebuliço, acabaram. Agora, está muito tranquila. Quer apenas comer e dormir. Não fica triste quando saio de casa e recebe-me à porta por hábito. Já não rebola feliz. Mas hoje demorei. Estive mais tempo fora do que o habitual. E a velha Luna voltou. Não me largou. Voltou a subir para a cadeira só para estar ao pé de mim. Jantei com ela ao colo — e ela não gosta de colo. Agora, vou embrulhá-la na mantinha, esperar que adormeça. Esperar que me perdoe se por momentos se sentiu abandonada.      Sem ela a minha vida era bem mais triste... 

Amor, Água Benta e Outras Assombrações...

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  Estranhamente, todos estavam impecavelmente vestidos, como se fosse dia de festa. O senhor ao meu lado, um pouco pálido, não por acaso, claro, não deixava de ser um defunto jeitoso. Sempre fui sensível a um homem de fato. Morto ou vivo (fiquei a saber). Deduzi que fosse bastante popular dado o número de pessoas a chorar por ele. O problema de ter um velório partilhado era lidar com os pingos de água benta que os amigos do falecido faziam questão de dividir comigo.  Que os reservassem para ele! Já bastava estar morta, e ainda ter de passar por esta provação.  Resolvi então sair de mim e vaguear pelo teto, espreitar os inconsoláveis  familiares do jeitoso lá de baixo. Cheguei a desafiá-lo para me acompanhar, mas ele, de nariz empinado, parecia demasiado compenetrado em absorver a dor dos herdeiros que entre uma lágrima e outra iam calculando o valor das partilhas.  E ainda dizem que, na morte, somos todos iguais. Ora, o enjoadinho, a dar-se a uns ares de superioridade, como se ignorass...

Behind the Candelabra: My Life with Liberace (filme)

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Uma declaração de amor.  E quando um homem gosta de um homem o que se chama?  - Chama-se amor...           "Porque te amo? Amo-te não apenas pelo que és, Mas pelo que eu sou quando estou contigo. Amo-te não apenas pelo que fizeste de ti mesmo, mas pelo que estás a fazer de mim. Amo-te por ignorares as possibilidades do tolo em mim, e por aceitares as possibilidades do bom em mim. Porque te amo? Amo-te por fechares os olhos às discordâncias em mim. E por acrescentares música em mim através da escuta reverente. Amo-te por me ajudares a construir da minha vida não uma taberna, mas um templo. Amo-te porque fizeste tanto para me fazer feliz. Fizeste-o sem uma palavra, sem um toque, sem um sinal Fizeste-o apenas sendo tu próprio. Talvez afinal, isso é o que o amor significa. E é por isso que te amo." "Why do I love you? I love you not only for what you are, But for what I am when I'm with you I love you not only for what you have made of yourself, But for what you are mak...

GATO ESCONDIDO ...

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Posso não ser a melhor dona do mundo. Mas tento. Em boa verdade, esta gata também não me facilita a vidinha. Hora de tomar o medicamento, vasculhar roupeiros, gavetas, até procurei dentro do frigorífico, já em desespero, claro. Escondidinha atrás dos livros.... Depois é o que se vê: 007 Ordem para espalhar pelo por tudo quanto é lado.    Claro que ela é que é a minha dona, mas faz de conta que não sabemos. Tenham em atenção que as letras pequeninas não é suposto ler.   Nem tudo é mau, adora fazer uma sestinha na transportadora.    Os gatos Há um deus único e secreto em cada gato inconcreto governando um mundo efémero onde estamos de passagem Um deus que nos hospeda nos seus vastos aposentos de nervos, ausências, pressentimentos, e de longe nos observa Somos intrusos, bárbaros amigáveis, e compassivo o deus permite que o sirvamos e a ilusão de que o tocamos Manuel António Pina  

O MEU AMOR...

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   O meu amor  tem patas de veludo voz de cristal e gosto requintado.  O meu amor não tem horas nem amarras voa livre como um pássaro  e ocupa sem pudor todo o meu coração...

LER A DOIS...

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“Nossos companheiros perfeitos nunca têm menos de quatro patas.” ― Sidonie Colette Xiuuuu... que a sô dona gata Luna está concentrada... (o pior é que eu espero mesmo para mudar de página. Qualquer dia já mio).  

NEM SEQUER É PARENTE, É SÓ CASTIGO...

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Não é meu enteado,  nasceu após o divórcio, nem é meu afilhado, nem sequer vizinho. Não me é rigorosamente nada, nadinhaaaa. Porque carga d' água tenho eu de aturar o pimpolho, sempre que os pais resolvem dar uma escapadinha romântica. Não sei a idade dele, nem me interessa, mas já tem idade suficiente para ficar meses a fio sozinho em casa. Pronto, tem seis ou sete anos, meses a fio é um exagero, mas um fim de semana prolongado até fazia dele um homem, digo eu. Depois tem a mania que é esperto, lembra-me, constantemente, que as crianças têm de brincar. Sugiro aos polícias e ladrões, ele é o ladrão e tem de ficar amordaçado, de pés e mãos amarradas, até os paizinhos voltarem. Não acha boa ideia, que falta de sentido de oportunidade tem este miúdo. Ai e tal, atravessar a estrada, tens de me dar a mão, diz ele. Que sorte a minha não terem inventado que as crianças têm de ser carregadas às costas ao atravessar uma simples passadeira. Lá lhe dou a mão, que não larga, como se a passadei...

COM MUITO AMOR ...

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  Hoje era dia de cobrir-te de mimos, oferecer um ramo de flores e uma caixa de bombos de chocolate com recheio de cereja. Mas tu não estás, avó...