Não me sacudam ... (atualização Sapo Blogs)





Bateu à porta levemente, deu-me a correspondência em mãos e perguntou:
Estás a chorar? Não é pergunta que se faça. Pessoas como eu são demasiado cobardes para chorar. Chorar é para os fortes. Nós, os cobardes, temos conjuntivite, alergia, um cisco no olho... nunca são lágrimas. Nem lhe respondi. Se dissesse a verdade, teria de confessar mais do que lágrimas. Despachei-o com um aceno, e ele continuou a distribuir a correspondência pelos vários gabinetes.

Não éramos colegas. Várias firmas tinham escritórios alugados no mesmo espaço: um andar na zona do Marquês de Pombal. Por norma, ele, era o último a chegar, coincidindo com a hora do carteiro. Outras vezes, chegava tarde, e era eu a incumbida da tarefa. Havia espaço para uma breve troca de palavras. 
Não éramos amigos. Imperava a cordialidade, e só. Nunca aceitei o convite para tomar café. Evitar, a qualquer custo, criar laços.
E eu estava a chorar, sim. Porque era o meu último dia ali. Porque ia embora para um novo espaço, noutra localidade, ali tão perto e tão longe. Estava a chorar porque não sabia despedir-me. Porque despedir é um verbo que nunca aprendi a conjugar em voz alta.
Ele soube. Não sei como, mas soube. E no fim daquele dia, tentou apanhar-me na estação, como quem tenta apanhar uma última palavra antes de ela se perder no silêncio.

Mas o comboio já estava em andamento.
Nem acenei em adeus.
Vi-me refletida na janela. Na minha expressão podiam ler-se as palavras de Louis Calaferte:
"Não me sacudam, que estou  cheio(a) de lágrimas."

 


 


 


Comentários

  1. Há despedidas que ficam engasgadas no silêncio, mas o bom dos caminhos é que nem sempre terminam numa estação. Por Braga também há café, do bom e de São Tomé — se um dia destes por cá passares, o convite fica feito para o bebermos sem pressas nem apeadeiros pelo meio.

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    1. Curiosamente, estou a planear um passeio a que chamo “Rota Ferroviária pelo Norte”: Lisboa → Porto → Braga → Barcelos → Viana → Caminha → Guimarães → Lisboa. Estou a planear tudo com o ChatGPT, tendo em conta horários, estadias, etc. Pretendo ficar uma noite em cada cidade. Se estiveres por Braga nessa altura e tiveres disponibilidade, tomamos o tal cafezinho, pois então.

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