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"Não me sacudam que estou cheio de lágrimas." (II)

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  Bateu à porta levemente, deu-me a correspondência em mãos e perguntou: Estás a chorar? Não é pergunta que se faça. Pessoas como eu são demasiado cobardes para chorar. Chorar é para os fortes. Nós, os cobardes, temos conjuntivite, alergia, um cisco no olho... nunca são lágrimas. Nem lhe respondi. Se dissesse a verdade, teria de confessar mais do que lágrimas. Despachei-o com um aceno, e ele continuou a distribuir a correspondência pelos vários gabinetes. Não éramos colegas. Várias firmas tinham escritórios alugados no mesmo espaço: um andar na zona do Marquês de Pombal. Por norma, ele, era o último a chegar, coincidindo com a hora do carteiro. Outras vezes, chegava tarde, e era eu a incumbida da tarefa. Havia espaço para uma breve troca de palavras.  Não éramos amigos. Imperava a cordialidade, e só. Nunca aceitei o convite para tomar café. Evitar, a qualquer custo, criar laços. E eu estava a chorar, sim. Porque era o meu último dia ali. Porque ia embora para um novo espaço, noutra loc...

Cartas de amor...

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  O silêncio não é inocente, produz ecos que não consigo ler.  Pessoas feitas como peças de lego que não encaixam.  Encaixo-me no dia de hoje.  Rejeito o café, mordo o pau de canela.  Diariamente finjo que caí, mas estou em pé!  Sanidade à beira do abismo, quero subir ao alto da montanha e soltar a noite.  Quero um encontro de amigos que ficam pela noite dentro, em pijama, a conversar e a beber chá.  Estou sozinha nessa pretensão. Paciência!  Lamento profundamente quem sabe como deve ser e depois não é.  Já não imagino uma mão a segurar a minha.  Ideia marginal como uma estrada.  O carteiro passa num aceno de quem já não entrega cartas de amor.  Peço um café curto e escaldado, sem açucar.  Fico parada, nesse intervalo, a ouvir-me respirar.  O carteiro passa e volta a acenar, digo-lhe adeus também…    

SENSIBILIDADE ESTÉTICA DA PALAVRA ADEUS...

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    Vou em viagens de sonho, embrulhada em papel vintage e num gesto de quem respira o mesmo ar falo-lhe ao ouvido, em voz de cinema: “O melhor de mim é a forma como gosto de ti.” Tinha esquecido que qualquer gesto está cheio de pequenos outros. Dei o último suspiro. Saí para a rua, como se fosse a primeira vez. Não sei sonhar, nem amar, nem dizer palavras de amor, mas fico linda quando sorrio. Gosto de respostas que calem a pergunta e de mim quando solto o cabelo. Temo que o tempo me traga saudades mortas a escorrerem por todos os lados principalmente por mim. Ter cuidado com as palavras não significa ficar calada. Arrumo as palavras numa folha de papel branco que fecho dentro da gaveta ... e deito a chave fora. Vou-me despindo de ti... até ficar nua!  

ATÉ SEMPRE...

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  Numa amnésia infinita de reencontro e despedida é num abraço que procuro a linha ténue que separa a sanidade da loucura. Há abraços que perfumam... Há abraços que não se repetem... que ficam para trás, numa estação de comboio qualquer e apetece ir buscá-los. Há abraços que são uma saudade imensa... que se escrevem com a palavra distancia. Há abraços que escorrem como se fossem lágrimas... Há abraços em que me abraço e apresiono para não esquecer... Foi num abraço que me perdi... num abraço de até já que eu traduzi até sempre... Mas não chorei na despedida ...  Continuo presa num tempo e num dia que tinha sido diferente dos outros. Nesse dia todos os que morreram foram para o céu e o mundo ficou da cor que eu gosto.  imagem pinterest  

EM PASSO PLANEADO...

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Apertei os sapatos em ritmo de Adeus. Parto em passo planado, com o sol em poente, reivindico uma gaivota triste como complemento de paisagem. Só depois me afasto, sem carácter de urgência. Vestida de preto, com salpicos de silêncio e um apontamento a designar, levo nas mãos acenos gastos à força de tanto serem usados. Remeto-as à inercia! Pela primeira vez não olho para trás num gesto póstumo. Há "nós" e laços, há agora um projecto de consciência em ruína. Atirei, como uma noiva, um ramo de crisântemos. Lamento imenso se alguém o apanhou...  "Ele foi sempre um mar de inverno, ela quis ser uma gaivota de verão."   Foto by me      

VANGELIS...

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       Vangelis, nos momentos em que não me apetece pensar. A música a fluir eu a deixar-me ir. Vangelis, para me ajudar a serenar, devolver alguma lucidez. Uma fonte de inspiração também, na escrita, devo-lhe tantas palavras. Partiu, a obra fica. Fica também a saudade imensa.  Obrigada. Daqui... até que!!!   "Aqueles que por obras valorozas se vão da lei da morte libertando"