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Acústica Imperfeita

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A sinfonia áspera dos atritos, o ranger das engrenagens enferrujadas da alma, a acústica imperfeita, o lamento, quebram o silêncio. Curvo-me como uma vírgula e apanho os cacos.  A fricção constante de todas as arestas que a ausência de ruído já não pode limar ou suavizar. Suspendo-me na textura emocional do silêncio fragmentado, repartido num puzzle imperfeito. Morreu o silêncio, este. E é por essa possibilidade perdida que a mágoa cai, pesada e única, na madeira crua do novo ruído que agora me habita. A perda da quietude interior. Desespero assumido. Chore-se, então. Desalmadamente. No descanso sem paz. No adeus sem lenço branco. Velório, funeral e missa do sétimo dia. Cuidarei de manter vivas as flores na campa do silêncio improvisado.  

Prelúdio de Cinzas...

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  Preparo-me para o luto, acendo todas as velas que formam o percurso até mim. Não sei se há luto para o inacabado. Primeiro morrem os sonhos, depois é o silêncio que fala, eco que deseja ser voz. Olho o espelho: reflete a indiferença de mim. Vigília ritmada que se inventa. Terei sempre o esquecimento, um instante para sublinhar, e a noite... A noite é o meu lugar. Eu não sei se é a morte que pousa na minha sombra. Pelas vezes que morri, pelas vezes que me ergui, ergue-se a lua, empática, e chora sob o meu nome. Penitência de um ser anónimo: a essência purificada pela dor. Visto-me de cinzas.

"Obrigado de papel"...

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    A esplanada, fantástica, quase vazia. Sentei-me e reparei no aviso: não há serviço de esplanada. Entrei. O espaço era pequeno. Uma vitrine exibia os pratos já compostos, peixe ou carne, que por sua vez eram depositados num tabuleiro e deslizavam pelo trilho de metal, como se fosse uma linha de montagem, rumo ao pão, à bebida, à sobremesa e, por fim, à caixa de pagamento, onde a funcionária se limitava a receber. O "muito obrigado" vinha impresso no talão. Sei que este tipo de serviço, hoje em dia, é vulgar, sobretudo nos Centros Comerciais, num restaurante de rua não estava à espera. Lembrei-me da primeira vez que almocei no refeitório da Faculdade. Naquela época, o conceito de self-service era, para mim, uma novidade. No primeiro dia deixei vários colegas passarem à frente, apenas para entender a "coreografia" do processo. Claro que a senha era pré-comprada, e havia uma funcionária a orientar o serviço.  Mas a maior diferença é que, enquanto na altura a refeiçã...

Metamorfoses do silêncio...

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  Parte-se o silêncio em dois, o barulho cai em ruínas. Empurro o tempo e afasto o futuro.   No ar, o cheiro a café mistura-se com as notas da Valsinha de Vinicius e Chico Buarque. E eu também amanheci em paz.   Resignação em gesto brando. Abraços que resgatam dias iguais. Pudor desarrumado num canto confere uma ausência. Um vazio.   Segredo revelado na margem indivisível da metamorfose do silêncio.   "E então ela se fez bonita Como há muito tempo não queria ousar Com seu vestido decotado Cheirando a guardado de tanto esperar."

"Não me sacudam que estou cheio de lágrimas." (II)

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  Bateu à porta levemente, deu-me a correspondência em mãos e perguntou: Estás a chorar? Não é pergunta que se faça. Pessoas como eu são demasiado cobardes para chorar. Chorar é para os fortes. Nós, os cobardes, temos conjuntivite, alergia, um cisco no olho... nunca são lágrimas. Nem lhe respondi. Se dissesse a verdade, teria de confessar mais do que lágrimas. Despachei-o com um aceno, e ele continuou a distribuir a correspondência pelos vários gabinetes. Não éramos colegas. Várias firmas tinham escritórios alugados no mesmo espaço: um andar na zona do Marquês de Pombal. Por norma, ele, era o último a chegar, coincidindo com a hora do carteiro. Outras vezes, chegava tarde, e era eu a incumbida da tarefa. Havia espaço para uma breve troca de palavras.  Não éramos amigos. Imperava a cordialidade, e só. Nunca aceitei o convite para tomar café. Evitar, a qualquer custo, criar laços. E eu estava a chorar, sim. Porque era o meu último dia ali. Porque ia embora para um novo espaço, noutra loc...

Cartas de amor...

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  O silêncio não é inocente, produz ecos que não consigo ler.  Pessoas feitas como peças de lego que não encaixam.  Encaixo-me no dia de hoje.  Rejeito o café, mordo o pau de canela.  Diariamente finjo que caí, mas estou em pé!  Sanidade à beira do abismo, quero subir ao alto da montanha e soltar a noite.  Quero um encontro de amigos que ficam pela noite dentro, em pijama, a conversar e a beber chá.  Estou sozinha nessa pretensão. Paciência!  Lamento profundamente quem sabe como deve ser e depois não é.  Já não imagino uma mão a segurar a minha.  Ideia marginal como uma estrada.  O carteiro passa num aceno de quem já não entrega cartas de amor.  Peço um café curto e escaldado, sem açucar.  Fico parada, nesse intervalo, a ouvir-me respirar.  O carteiro passa e volta a acenar, digo-lhe adeus também…    

E eu ...

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  E eu Vestida de negro, como a noite, Não por morte ou desgosto. É uma pretensão analfabeta,  Uma crença devocional que me rasga e amarrota  como se eu fosse papel.   E eu   Vestida de negro, como uma sombra, Não por negligência ou engano É  como uma paixão que se dança Que amadurece e se expande  Na berma de um presságio triste.   E eu   Vestida de negro, como o silêncio, Não por escolha ou acaso. É um eco que me habita, Um murmúrio que se enrola, Resiste e esmorece Na perpendicular de uma prece.   Foto Praia Grande            

Pecados consentidos...

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  A noite tem a cor que eu gosto, tem fantasmas do meu tamanho. Tem medos que adormecem e me deixam dormir também. Na hora do excesso permitido, bailam pecados em meu redor. Eu escondi-me muito pouco... Fugaz mendiga das horas paradas, ampliadas num suspiro qualquer. Existem palavras soletradas, esculpidas em pedra dura, que não se cruzam. No silêncio, não há palavras cruzadas. Eu sei, e tu sabes. Perto ou longe, nunca seremos nós...

O Vento do Sul...

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  Fui visitar o Solar do Silêncio… Arrasei como alma que se quer penada.  Se o vento do Sul voltar à tardinha, em forma de sentinela zelosa, devolver-me-á O sorriso que se quer triste. E depois deste pranto lento De alguém que perdeu o rumo e jamais o encontrou Derramará gotículas que se querem nuas, porque são salgadas. E em sintonia depravada Busca  recordações vivas, mas que já não respiram. Rasgará flores e corações em forma de pensamento Que se perdeu à beira dos dias. E rodopia e baila e continua. Porque o bem querer morreu de morte lenta. Não sabia morrer de repente. E o vento do Sul não veio à tardinha. Ficou por aí suspenso em parte ingrata. E o dia que jaz, porque se quer vivo Virou as costas e anoiteceu... Fui visitar o Solar do Silêncio Acendi mil velas sem calor. Depois fugi, como alguém que se quer gente E está despido de si… 

Silêncios de Novembro...

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      No gesto altruísta de quem decide oficializar a distância, parti. Partir é quase morrer... com a capacidade de ressuscitar. Pesa o silêncio a que a memória se habituou. Esboço um sorriso que não é o meu ... Esse morreu ontem à noite. A noite, essa, mantém-se lá fora... E são duas da manhã. Uma janela que se fecha... A minha... Como um Novembro sem calma... Um episódio em forma de fim. Alguém que morreu, sem partir e ainda não sabe. As ondas, essas, morrem na praia. Nem todas vão para o céu...   Foto do  álbum "Os meus serões".        

"O Trem das Onze" (memórias)...

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  Lamento sempre quando morre alguém que gosta de viver, independentemente da idade . Gostar de viver é algo comum a muita gente, mas gostar de permanecer vivo é diferente. É não parar, é continuar a produzir, dar continuidade a uma obra que não lhe garante longevidade, mas que o projeta para além da morte. Morreu o Ti Manel Gervásio, compadre da minha avó. Escultor anónimo, de peças ímpares, que foi espalhando pela aldeia. A minha avó, muito abalada com a morte do compadre,  sentada ao lume, rezava o terço. Eu, entretida a contar as traves do teto da cozinha. O silêncio era quebrado apenas pelo crepitar da lenha. Lá fora, nada acontecia. A minha avó foi-se deitar sem jantar. Aninhei-me ao pé dela e abracei-a em conchinha. Vencida pelo cansaço, adormeceu rapidamente. Fiz torradas à lareira e acompanhei-as com café quente. Liguei o rádio, bem baixinho. "Adoniran Barbosa, O Trem das Onze..." tocava suavemente: (...) Não posso ficar nem mais um minuto com você Sinto muito, amor,...

Silêncio, estamos em Sintra ...

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  Sintra, à noite, transforma-se, ostenta um manto de mistério. Veste-se de gala e de respeito. O silêncio impera como um código secreto. Ninguém ousa falar alto. Sussurros e risos abafados são a norma, para não quebrar o encanto. De todas as caminhadas noturnas em que participei, só em Sintra senti este efeito. Dentro da localidade, era-nos pedido que fizéssemos o mínimo barulho, para descanso dos residentes. No interior da serra, essa necessidade não existia, mas, por efeito coletivo ou não, todos murmuravam, ninguém falava alto. Sintra, à noite, não é um lugar, é uma sensação. É a simbiose perfeita de tudo o que representa, a harmonia mística, a magia das lendas e contos. Segredos escondidos em cada recanto. Caminhar pela serra de Sintra, à noite, é como entrar num conto de fadas, cada sombra parece contar uma história, que nos embala, e não apetece sair.       Fotos do meu álbum "Caminhadas" com o grupo "Pegadas Noturnas".  As fotos não são da minha autoria.  

A CASA DA ALDEIA...

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Não me imagino a viver na casa da aldeia, nem gosto de ir à aldeia. Deprime-me. Não gosto de acordar com os passarinhos, nem de adormecer com o irritante do grilo. Gosto de passarinhos e grilos, mas caladinhos. O que eu gosto mesmo é das osgas que habitam o anexo, a que chamo a casa do lume. E na casa do lume, verão ou inverno, há sempre uma ou duas osgas.  Depois há o senhor que trata das parreiras e fica com as uvas, teima sempre em dar-me um garrafão de vinho. Só aceito a garrafa de bagaço. Pasme-se, gosto de bagaço. Depois há o senhor que trata das oliveiras, lá rejeito eu o garrafão de azeite. Mas gosto desta dinâmica da aldeia, de tratar do que é dos outros e apesar de  raramente lá ir , tem tudo um ar muito cuidado, como se a minha avó ainda respirasse.  Estive há pouco tempo na casa da aldeia, há assuntos que só eu posso tratar e há situações recorrentes; A minha avó deitava-se muito cedo. Eu ficava na casa do lume, sozinha,  num serão que se alongava. Adoro serões. Quando regr...

EM PASSO PLANEADO...

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Apertei os sapatos em ritmo de Adeus. Parto em passo planado, com o sol em poente, reivindico uma gaivota triste como complemento de paisagem. Só depois me afasto, sem carácter de urgência. Vestida de preto, com salpicos de silêncio e um apontamento a designar, levo nas mãos acenos gastos à força de tanto serem usados. Remeto-as à inercia! Pela primeira vez não olho para trás num gesto póstumo. Há "nós" e laços, há agora um projecto de consciência em ruína. Atirei, como uma noiva, um ramo de crisântemos. Lamento imenso se alguém o apanhou...  "Ele foi sempre um mar de inverno, ela quis ser uma gaivota de verão."   Foto by me