“I know not what tomorrow will bring.” ...
Há tempos, tomamos o pequeno almoço juntos e segredou-me ao ouvido:
"... Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho."
Claro que ficámos amigos ...
E ontem jantou comigo, cuidou de mim. Como se fosse o meu melhor amigo.

Para além do livro (prosa) que estou a ler, todos os dias leio poesia, nem que seja um só poema. Abro o livro ao acaso, não sigo a regra rigida de começar na primeira página. Curiosamente, não sei bem porquê, neste livro de Fernando Pessoa, é sempre na página 64/65. A "Ode Marítima". Não posso dizer que é o meu poema preferido de Fernando Pessoa, porque na poesia dele tenho poemas que gosto menos, mas não consigo escolher o favorito. É impossível resistir a este, e leio-o tantas vezes que quase o sei de cor. Principalmente esta parte:
(...) Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.(...)
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.(...)
A imagem do cais como uma saudade de pedra, como se naquele intervalo morasse a dor das despedidas e a nostalgia do que fica para trás.
“I know not what tomorrow will bring.” (Não sei o que o amanhã trará.)
As últimas palavras escritas de Fernando Pessoa.
Confesso que quando visitei a casa de Fernando Pessoa e a percorri no sentido proposto pela visita, essa última frase apareceu, sozinha, num papel protegido por um vidro, papel já desbotado, apagado, assim como o que lá escrito - emocionei-me nesse momento, por um homem que nada me foi mas em mim muito se fez.
ResponderEliminarMeu professor de existência, minha âncora de sensações.
Deixai-me olhar,
Deixai-me, que sentir vem depois.
Deixai-me! Já disse,
Meu coração não está cá ---
Vai com outra gente.
Com aquele ali
Oh, é mesmo com aquele
E, passando depressa que vai atrasado
Já me perdi noutro abraço
Que meus braços não deram
Mas tudo viram.
Deixai-me assim.
Por acaso..."não muito por acaso"...tenho os dois volumes...de Álvaro de Campos
ResponderEliminarDá uma vontade imensa de trocar poesia, como se uma fosse melhor que outra. Obrigada pela partilha, Francisco.
ResponderEliminarEu tenho vários livros dele e todos comprados em segunda mão. Ando à procura do "Livro do Desassossego", mas não encontro em alfarrabistas e afins. Vou consultando na net e aguardar que baixe o preço nas livrarias.
ResponderEliminarIsto merece uma resposta de Fernando Pessoa. Há uma coisa que está sempre em cima da minha secretária uma espécie de baralho de cartas que mais não são fragmentos escritos por Fernando Pessoa que foram reunidos numa caixinha com 52 excertos que constiutuem o Jogo do Desassossego.
ResponderEliminarDaí que escolhi esta:
Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter, uns para os outros, uma amabilidade de viagem.
Nunca me deu para me debruçar sobre Fernando Pessoa ou seus heterónimos, sem ser com os básicos que vamos encontrando nas letras que vivem no nosso dia a dia, mas, posso dizer que tenho " O livro do desassossego", apesar de pouco visitado.
ResponderEliminarBom fim de semana, beijinhos
Agora fiquei com inveja desse baralho de cartas.
ResponderEliminarPara a troca deixo esta, e , modéstia à parte, acho que a fez para mim: "A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo."
Obrigada pela partilha. Até queria mais...
Traidora (risos). Lê a Ode Marítima, é de tirar a respiração.
ResponderEliminarMais uma citação : “Nunca amamos ninguém. Amamos, tão somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor.”
Beijinho, bom fim de semana
Que bom amigo!
ResponderEliminarBom fim-de-semana, querida ROMI.
Beijinhos
E o José também é um bom amigo. Sou muito grata por isso.
ResponderEliminarBeijinho, querido José. Bom fim de semana.
Tenho um que comprei na Feira do Livro em 1982, ainda tem o preço: 450 escudos, algo como 2 euros e 25 cêntimos, a preços actuais.
ResponderEliminarNa altura devia ser bastante caro, digo eu. Não faço ideia.
ResponderEliminarEste e mais uns quantos, da mesma coleção e de outros escritores: Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Alexandre Herculano, etc., tive a sorte de encontrar uma feira do livro no mercado de Aveiro, na altura do Natal, e andava tudo a rondar 1€/ 2€ . Foi o melhor presente de Natal.
O Baralho de cartas dá pelo nome de Jogo do Desassossegoe pode ser comprado na Casa Fernando Pessoa.
ResponderEliminarObrigada. Também encontrei online, mas se tiver oportunidade prefiro ir em passeio. A inveja já amainou um bocadinho (risos).
ResponderEliminarBom dia Romi.
ResponderEliminarPasso quando posso.
Gosto muito da sua escrita.
Acho que nunca deixei um comentário, mas hoje não resisti escrever alguma coisa.
Adoro Fernando Pessoa.
Tive o privilégio de receber um convite de um amigo para ir ver o espectáculo no CCB. Ode Marítima de Fernando Pessoa. Oratória SENSACIONISTA de NUNO CORTE-REAL. E Adorei. A Romi se calhar também foi.Uma noite memorável.
Um beijinho.
Luisa Faria
Olá, Luísa. Primeiro quero agradecer as palavras simpáticas. Depois, lamentar não ter ido ao CCB ver o espetáculo, nem tive conhecimento. Vou várias vezes, com uma amiga, por norma ela está sempre a par dos eventos no CCB, para me "desencaminhar", já que os nossos gostos coincidem. Só por desconhecimento falhou, ela também gosta muito de Fernando Pessoa. Quem não gosta?
ResponderEliminarUm beijinho, Luísa. E obrigada, mais uma vez.
Raramente leio poesia. Falta-me o gene, acho, para a coisa. Mas devia insistir mais, obrigar-me a parar e a dar tempo aos poemas.
ResponderEliminarBoas leituras
Pat
Olá, Patrícia. Eu acho a poesia viciante, está sempre a tempo. Comece com os maiores.
ResponderEliminarObrigada, beijinho.