Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta livros

Desembrulhar Gestos...

Imagem
Há presentes que chegam embrulhados em papel e assim permanecem. Prometi abrir na noite e à hora em que, supostamente, o Pai Natal anda a distribuir presentes a quem se portou bem.     Há presentes que chegam embrulhados em gestos. Poemas Reunidos , de Pedro Mexia, é um deles. É quase como quem chega a casa e encontra uma voz conhecida à espera.     Vai para a prateleira das vozes que acho que conheço, aquelas a que regresso vezes sem conta para reler um conto, um poema, uma frase. Como quem desembala pesamentos...    Ontem, por exemplo, José da Xã foi a companhia ao jantar.    Que sorte a minha...

Um aniversário fora do roteiro, entre pedras e páginas...

Imagem
No dia do meu aniversário, decidi começar a manhã com um mergulho numa piscina de água aquecida, claro. Rodeada de pessoas especiais, quebrei a tradição de passar este dia sozinha.     De férias, proporcionei-me algo diferente. Não a rota dos castelos, mas a visita a lugares que sempre desejei conhecer com calma, sem ser apenas de passagem. Acordar em Monsanto foi mágico.    Uma aldeia singular, construída entre enormes penedos, onde as casas parecem brotar da própria rocha. No topo, ergue-se o castelo medieval, com uma vista ampla sobre a planície, reforçando a sensação de estarmos num lugar intemporal e quase mítico.     Seguiu-se Óbidos, vila medieval muralhada, marcada por ruas empedradas, casas brancas com faixas azuis e amarelas e varandas floridas. Nesta época, transforma-se numa verdadeira Aldeia de Natal, com iluminação vibrante e mercados temáticos.     Para mim, uma das maiores surpresas são as livrarias espalhadas pela vila. Destaco a livraria instalada na antiga Igreja de ...

Porque sim ...

Imagem
     Porque eu gosto de chuva, dias enevoados, arroz doce quente, um bom livro. Tudo no mesmo dia...

Amores, desamores, afinidades e Mrs. Pollifax …

Imagem
Já aqui falei na Mrs. Pollifax (se não foi aqui, foi ali, é igual) e hoje lembrei-me dela. Estava um sol envergonhado, não quis arriscar e voltei a casa buscar o chapéu de chuva. A Mrs Pollifax anda sempre com um chapéu de chuva. Não me surpreenderia se descobríssemos outras manias em comum. Arrisco mesmo a apostar que Mrs. Pollifax, tal como eu, começa a procurar a chave de casa dois quilómetros antes de chegar. E, no campo das afinidades, tenho a certeza de que ela partilha a minha filosofia: só gosta de quem gosta dela. Por esta simples regra de reciprocidade, é muito provável que Mrs. Pollifax goste de mim. Afinal não choveu. Que maçada, queria estrear o meu chapéu de chuva novo. Também queria começar a ler  “Os Reinegros” de Alves Redol e não comecei. Não sei se Alves Redol gostaria de mim. Temo que não. Eu gosto dele, desde que a minha madrasta me comprou o “Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos.” Comecei a ler contrariada, sabia que a intenção dela era desviar-me dos livros...

"As Coisas Que Faltam"...

Imagem
   " I am dying beyond my means” (Estou a morrer acima das minhas possibilidades). A frase atribui-se a Oscar Wilde e surge-me sempre que compro um livro. É o meu dilema como leitora: estou a comprar, compulsivamente, e acima das minhas possibilidades. Para não me pesar tanto na carteira como na consciência, aproveito as promoções. Foi numa dessas promoções que comprei "As Coisas Que Faltam" de Rita da Nova. A leitura revelou-se muito fluida e percebe-se um cuidado especial na forma como a autora aborda as relações interpessoais. A construção das personagens transmite uma grande verdade, e acredito que o livro toque cada leitor de modo diferente, consoante a sua própria história. Por momentos tentei rever-me naquela prosa, mas não era eu.  Recomendo  este livro pela  honestidade e pela forma como nos conduz a uma introspeção sobre os laços familiares. Parabéns à autora pelo sucesso, com o primeiro livro a alcançar já a sexta edição!

O Carteiro de Pablo Neruda...

Imagem
       O epílogo de um livro é como o epitáfio na campa de um defunto. Ambos são marcadores finais. Tive esta percepção quando cheguei ao epílogo do livro O Carteiro de Pablo Neruda, de Antonio Skármeta. Já aqui manifestei o meu hábito de ler mais do que um livro em simultâneo. O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, é uma obra que resiste ao conceito tradicional de “terminar”, pois a sua estrutura permite uma leitura intermitente, ideal para leitores como eu. Não sei quantos livros já li, mantendo à distância o final do Desassossego. É um livro que vai deixar saudades. É a minha forma de evitar o epitáfio, de lhe prolongar a vida. O Carteiro de Pablo Neruda tem, em doses suaves, tudo o que aprecio num livro. Mistura realidade e ficção, numa escrita limpa, elegante e quase poética. Há uma passagem icónica que me fascinou: a descrição do som das ondas do mar, do vento e das gaivotas que Mario gravou para que Neruda, em França, matasse saudades dos sons da Ilha Negra...

Falácias e Chocolate Quente...

Imagem
  Se viveria num país tropical? Sem hesitar, sim, sempre. Mas não deixo de ter um certo apreço por estes dias cinzentos, de chuva fina. Sem vento. Não gosto do vento, na mesma proporção em que ele não gosta de mim. A nossa relação é de mútua e fria indiferença. Pode considerar-se esta afirmação uma falácia patética, admito. Um erro de lógica que atribui sentimentos a algo inanimado. Mas eu e as falácias convivemos bem. E eu sei sempre quem gosta, ou não, de mim: sejam animais, coisas, pessoas, estados meteorológicos, meses, dias, horas ou segundos. Um eco que me sussurra "bem-vindo", ou uma sombra me adverte: "passa à frente.” E eu obedeço. Hoje, chove como eu gosto: sem frio e sem vento. Saí para a rua, toda eu sorrisos, debaixo daquela chuva que molha parvos. E molhou-me a mim. De volta a casa, preparei um chocolate quente, pus Tom Waits  a cantar baixinho e abri um livro. A chuva, lá fora, acompanhava o som da voz e o virar das páginas. E, por um breve instante, senti...

Notas de Uma Solidão Lúcida...

Imagem
  Não há coisa mais enfadonha do que ouvir os sonhos dos outros. Eu nem dou conta dos meus, e tenho alguns recorrentes, mas só sei que o são no próprio sonho. Outro tédio: as anedotas.  O que me faz rir, e eu adoro rir, é diferente do que faz rir as pessoas com quem tenho de conviver. Rio-me sempre em tempos diferentes, e por norma, sozinha. Reporto-me à série 'Allo 'Allo!: eu, perdida de riso, e os meus amigos, na altura, com cara de caso a olhar para mim. Monty Python dava na RTP2; só eu gostava. Rui Veloso diz que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. Também é válido para quem não partilha o mesmo sentido de humor, nem o interesse pelos mesmos temas de conversa. Eu rio-me com o absurdo, com a sátira mordaz, com a ironia disfarçada. Com a capacidade de expor a hipocrisia e as contradições sociais de forma hilariante, mas elegante. Fugindo sempre da lógica convencional. Segundo os entendidos, um riso que, por ser mais cerebral e menos imediato, é naturalmente solitári...

A Dignidade do Caos...

Imagem
    Leio o Livro do Desassossego. Fernando Pessoa fala da dignidade do tédio. Ouço Edith Piaf: "La Foule". Queixa-se da multidão que, primeiro, a lança nos braços do seu amor, para, logo depois, a mesma multidão a afastar dele. Eu já fui afastada por menos. Intercalo a leitura com outro livro. Nunca consigo ler apenas um. Bebo chá Earl Grey, o meu preferido, numa caneca comprada no Líbano, quando o Líbano ainda recuperava das feridas. Hoje, novamente em sofrimento. Acompanho o chá com bombons, recomendado pelo senhor "S.", o segurança. Gosto, mas continuo a preferir chocolate com queijo da ilha.   Quase meia-noite. Dezoito graus. Uma lua deitada, quarto crescente, creio. A secretária num desalinho. Fernando Pessoa sugere dignidade no tédio. Pudesse eu pôr alguma dignidade no caos.    

Entre Livros e Risos com António Victorino D' Almeida...

Imagem
    O primeiro livro que li de António Victorino D' Almeida foi " Coca-Coca Killer ". Já o referi aqui: é de ir às lágrimas. Lembro-me de o ler no comboio, perdida de riso. Quase envergonhada por não conseguir parar de rir nem de parar a leitura, em meu auxílio vieram  os passageiros que contagiados riram comigo. Em seguida, nas minhas leituras, veio o " Tubarão 2000 ". Não me lembro se o comprei e o emprestei (e não devolveram) ou se o li emprestado. Sei que não o tenho nem aqui nem na casa da aldeia. Quando me deparei com uma promoção na Fnac, não resisti e comprei-o novamente. E, como uma coisa boa nunca vem só, aproveitei e comprei mais um dele, " Os Devoradores de Livros" . Sei que não  vai desiludir. E a necessidade que tenho de rir vai ser reposta.

Hay-on-Wye, Aldeia dos Livros...

Imagem
    Eu não tenho a mania que sou rica, só ando a treinar. Sonhar faz parte do treino. Quando certa informação, sem que eu procure, vem até mim, encaro isso como um sinal. Sinal de que esse evento me está destinado e começo a sonhar. Neste momento “estou” em  Hay-on-Wye,  uma pequena cidade no País de Gales, junto à fronteira com  Inglaterra, famosa por ser a “capital dos livros”. Existem dezenas de livrarias espalhadas por ruas pitorescas.  Algumas até funcionam ao ar livre, com estantes encostadas a muros e um sistema de “honesty box” (o cliente deixa o dinheiro numa caixinha). Possivelmente, a   LIVREaria   foi nesta particularidade que se inspirou. A história de Hay-on-Wye, também conhecida como “aldeia dos livros” começa graças a Richard Booth, uma figura muito excêntrica. Em 1960, Booth percebeu que muitas bibliotecas e livrarias nos Estados Unidos estavam a fechar e a vender livros ao desbarato. Ele comprou imensos, e enviou-os de barco para Hay-on-Wye. Ao instalá-los numa antiga...

O Samurai, de Shusaku Endo...

Imagem
  O Samurai, de Shusaku Endo, é um romance notável. É menos uma história de samurais no sentido tradicional, e mais uma meditação sobre fé, identidade, sofrimento e o confronto entre culturas. Baseado numa missão diplomática real do século XVII, o livro acompanha um samurai enviado do Japão à Europa numa tentativa de estabelecer relações comerciais e religiosas com o Ocidente. Não sei bem o que me levou, na altura, a comprar o livro. Talvez o preço. O título, confesso, não me sugeria um tipo de leitura que apreciasse. Mas foi um livro que me tocou profundamente e que me acompanhou muito para além da última página. Há uma passagem que me indignou imenso. Um japonês, ao observar uma imagem de Cristo, dizia não entender como os católicos conseguiam adorar um ser tão miserável. Meio nu, coberto de feridas, vestido com uma fralda e uma coroa de espinhos na cabeça. Para ele, habituado à figura opulenta e feliz do Buda, gordo e corado, aquilo era simplesmente incompreensível. Questionava o qu...

Sem legenda...

Imagem
   "uma vez que tudo se perdeu" Pedro Mexia.     

A Alma dos Lugares com Alma...

Imagem
A livraria Acqua Alta, em Veneza (Itália). Em vez de prateleiras normais, os livros (novos e usados) são acomodados em gôndolas, canoas, tanques e banheiras antigas, para os proteger das inundações típicas venezianas. Não é apenas uma loja que vende livros, é pura poesia. É-me difícil eleger favoritos. O filme, o livro, a música, o prato preferido, o doce... sei lá. Há coisas que não se comparam. A livraria Acqua Alta, em Veneza, quase deitava por terra essa minha máxima. Depois, penso na Lello, na Ler Devagar, na Bertrand do Chiado, entre outras livrarias que não conheço pessoalmente. Cada uma, à sua maneira, desperta o mesmo espanto, o mesmo encantamento. Compará-las, ou eleger uma, seria reduzir o que é feito de arte, memória e silêncio. O impacto é o mesmo. A dificuldade em eleger "o favorito" não é uma indecisão, mas sim um reconhecimento da singularidade de cada experiência. Talvez os lugares mais bonitos sejam aqueles onde sentimos que também cabemos.