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Alterar o que não ensina...

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O passado é imutável, mas nem todos se conformam com isso. Para alguns, os erros são lições, degraus necessários. Mas há quem sinta o contrário. Certas dores não ensinam, apenas doem. Éramos cinco ao jantar. O passado veio à baila. Ninguém mudava nada, caso pudesse. Todos os erros foram lições, crescimento. Há pessoas que valorizam particularmente a aprendizagem que nasce das falhas, dos tais erros, como se o sucesso e as vitórias não oferecessem o mesmo nível de conhecimento ou crescimento pessoal. Eu, a única a discordar. Mudaria tudo. Até o almoço da véspera, e o pequeno almoço do dia. Era a oportunidade de viver tudo de maneira diferente. Outra versão de mim, outros caminhos, outras histórias. Editar escolhas. Até o passado delas, eu mudaria. Os erros não me ensinam nada. Não é com eles que quero aprender. Se o tempo voltasse atrás, a urgência maior seria silenciar as dores que ainda ecoam. Proporcionar-me-ia o que, por medo, me privei de viver, de ter, de arriscar ... Ir-me-ia da...

Síndrome da Noctofobia Cinderélica... (Atualização Sapo Blogs)

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Eu também me acho uma pessoa estranha e sei que certas coisas inusitadas que me acontecem são fruto da minha capacidade de vestir a pele das personagens que os livros me oferecem. Gosto do chá Earl Grey porque, num livro de Ellery Queen, uma Mrs. não-sei-das-quantas só bebia esse chá. Mas o pior são as síndromes de que padeço, todas com a mesma origem. A uma delas dei o nome de Síndrome da Noctofobia Cinderélica (não confundir com nictofobia). Eu explico: a história da Cinderela sempre me acompanhou. Sofri horrores com medo de que ela se transformasse em abóbora caso as doze badaladas a apanhassem na rua. Não sei quando começou, mas sei que é mais forte do que eu: esteja onde estiver, com quem estiver, com o aproximar da meia-noite, desapareço a grande velocidade. No limite, o barulho da porta a fechar tem de coincidir com o som da última badalada. Era a noite branca. A festa na praia até estava a correr bem. Mas, com o anoitecer, vieram as minhas inquietações. Os meus olhos, impacient...

Entre o escritor e a obra...

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João Tordo, em Águas Passadas. Foi um livro que não me cativou. Ponderei deixá-lo a meio. Escreve fluidamente, é certo, mas sem o cuidado de embelezar um parágrafo que seja. É o deixar ir. Faltou-lhe a lapidação e o cuidado estético que procuro na literatura. Não posso julgar um escritor por um único livro. Ele, inadvertidamente, lembrou-me isso quando, numa passagem, refere Sidarta, de Hermann Hesse. Um livro que adorei e que me levou a comprar outros livros do autor. Caso tivesse sido O Lobo das Estepes, um livro que me desiludiu profundamente, provavelmente teria desistido de Hesse para sempre, perdendo assim a oportunidade de descobrir literatura de excelência. Portanto, não vou desistir de João Tordo. Aguardo outro registo. A utilização frequente de linguagem obscena, insultos e palavrões nos diálogos também me cansou. Não só por algum pudor da minha parte, mas porque, ao repetir-se, deixou de servir as personagens para se transformar num recurso previsível. O mesmo aconteceu com ...

Páginas de atraso...

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O comboio atrasou-se 12 páginas. O percurso demorou 46. Se o comboio se atrasasse mais umas páginas, um livro de 150 lia-se numa ida e volta. Catálogo de Sombras, de José Eduardo Agualusa. Numa anotação, perguntei porque raio escrevia ele no gerúndio. Depois percebi. Depois, perdi deliberadamente vários comboios. Como se fossem minutos contados em páginas. Agualusa tem essa capacidade quase desleal de suspender o tempo. Um livro de contos. Cada página virada, um prazer a menos. Há livros que deviam ser infinitos. Cheguei a casa noite escura. Madrugada fosse, seria sempre cedo demais.

FOTOGRAFIAS "POST MORTEM"... (Atualização Sapo Blogs)

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  Fotografar pessoas depois de mortas e colocá-las em poses como se estivessem vivas, ou simplesmente adormecidas, poderá parecer uma ideia excêntrica. Contudo, é importante ter em conta que a morte foi encarada de formas muito diferentes ao longo das épocas. O morto desperta sentimentos distintos consoante o tempo e a cultura em que é inserido. A prática ganhou particular expressão durante o século XIX, época em que a fotografia se tornou uma forma cada vez mais acessível de preservar a memória dos que partiam. A própria Rainha Vitória, profundamente marcada pela morte do marido, o Príncipe Albert, recorreu à fotografia Post Mortem. O luto da soberana tornou-se, aliás, uma das expressões mais conhecidas da forma como a sociedade vitoriana encarava a morte e a memória dos seus mortos. Hoje, este costume pode parecer mórbido, mas, naquela época, era encarado com naturalidade. Os chamados álbuns dos mortos funcionavam, de certa forma, como uma homenagem, uma tentativa de preservar a ...

A máscara do dia …

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  Altero os ponteiros do relógio, aleatoriamente, e engano o tempo. É pela hora alterada que me rejo. Não importa se é manhã e para mim já é tarde. Não importa se é noite e para mim já é amanhã. Queria ser uma mulher parada num tempo que há-de vir. Enquanto não vem, tento não dar por mim. Tenho as mãos macias e a emoção inerte. Vou deixando o meu perfume por aqui, por ali e mais além. Respiro o adeus como quem rejeita palavras de amor. E a chuva miudinha, num gesto altruísta, dissimula gotículas que teimam cair, pelo tempo que se perde à espera do tempo que desenfreadamente vai por aí e num desatino não chega ao tempo que aguardo. O tempo não assina contrato de retorno. Não volta para trás, impedindo-me de o deter num passado que está ali, não muito distante daqui... Ponho a máscara do dia… Gosto de mim depois das dez. Convida-me para jantar, desarruma os meus lençóis de linho, sem promessa de reencontro.. . imagem Pinterest (Gustav Klimt, O Beijo)

Sombras em janelas vazias...

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Os medos adormecem dentro dos meus bolsos, dobrados como cartas que nunca tive coragem de enviar. Carrego sombras inteiras nos ombros, silhuetas em janelas onde alguém ainda espera por alguém. Há palavras que chegam tarde, outras chegam vazias. Encostam-se ao meu nome como aves cansadas, mas eu já não abro as mãos para as recolher. Abro-as para as deixar partir devagar. Sem promessa de horizontes. O mar devolve ondas. Não implora permanências. O vento respira sozinho. Reconheço-me naquilo que não quero. O vazio esconde-se comigo no escuro e resiste.  Há uma cumplicidade qualquer nas tardes de novembro que se despedem sem pressa. Há um conforto qualquer nas ausências que continuo a querer. Não fico sozinha só porque sim.

QUE COMECE O SERÃO…

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Tenho a secretária cheia de papéis. De forma completamente aleatória, retiro um do monte e esse passa a ser o tema do próximo post. São ideias que vão surgindo e ficando registadas em papel. Algumas resumem-se a um simples mote, outras já estão escritas na íntegra e só falta passá-las para o computador. Uma grande parte são críticas aos livros que li. As restantes são inspirações do momento que ficaram à espera de um retoque. Esta, por exemplo, não faço a mínima ideia de como a retocar: "Sobre a toalha, como migalhas, caem, gota a gota, as mágoas do dia. Sacudidas, depois, na janela aberta. Dois pardais, desiludidos, voam para o beiral seguinte…" Quando encontro apenas o mote, a tarefa torna-se mais complicada. O que me inspirou naquele momento perdeu, entretanto, o prazo de validade. O contexto perdeu-se. Num papel cor-de-rosa choque, por exemplo, está escrito: "Se eu não soubesse o que é amar, talvez acreditasse em todas as declarações de amor que me são feitas. Seria ...

Silêncios partilhados num banco de jardim ...

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  Esta é a Isabelinha. A Isabelinha, se fosse uma pessoa, seria a secretária de um ministro. Distinguir-se-ia pela organização, discrição, disciplina e rigor. Vestiria de forma cuidada. Saia e casaco de estilo Chanel. Sapatos elegantes, confortáveis e de cor neutra. Sorriso tímido e penteado sofisticado. Pouco comunicativa, medrosa e sempre atenta a tudo o que pudesse perturbar o seu isolamento, fora do horário de trabalho. Esta é a Isabelinha. Uma pomba. A mais frágil do bando, sem nunca conseguir sentir-se parte dele. A Isabelinha isola-se. Aproxima-se de mim quando quer comer. Partilho o meu lanche com ela e dou-lhe milho. Às vezes, vem para a minha beira, como se eu não desse por isso. Como se fosse transparente. Não quer ser vista. Como se quisesse apenas agradecer. Percebo-a. Também eu tenho dias em que gostava de ser transparente. De me esconder atrás do meu livro e permanecer ali, invisível. Eu e a Isabelinha partilhamos o mesmo banco de jardim. Cada uma na sua ponta. Entre...

Um pequeno esclarecimento...

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Olá a todos. Nos últimos dias, alguns bloggers contactaram-me a perguntar porque razão deixei de os seguir. Quero esclarecer que não removi ninguém da minha lista de blogues seguidos e que esta situação é completamente alheia à minha vontade. Parece ter acontecido algum problema com a ligação entre contas no Blogger, fazendo com que alguns seguidores deixassem de aparecer como tal. Agradeço  a todos  que me alertaram para a situação. Graças a esses contactos, pude voltar a seguir os vossos blogues e continuar a acompanhar os vossos trabalhos, como sempre fiz. Obrigada pela  atenção, pela amizade e por continuarem desse lado.