Páginas de atraso...
O comboio atrasou-se 12 páginas. O percurso demorou 46.
Se o comboio se atrasasse mais umas páginas, um livro de 150 lia-se numa ida e volta.
Catálogo de Sombras, de José Eduardo Agualusa. Numa anotação, perguntei porque raio escrevia ele no gerúndio. Depois percebi.
Depois, perdi deliberadamente vários comboios. Como se fossem minutos contados em páginas.
Agualusa tem essa capacidade quase desleal de suspender o tempo.
Um livro de contos. Cada página virada, um prazer a menos.
Há livros que deviam ser infinitos.
Cheguei a casa noite escura. Madrugada fosse, seria sempre cedo demais.

Atrapalhei-me a ler o teu texto porque me reconheci nele de imediato. Ando a tentar atrasar o fim de um livro, só para não ter de me despedir dele.
ResponderEliminarA ideia de "perder comboios deliberadamente" para ganhar mais umas páginas é de uma poesia rara — talvez o elogio mais honesto que se pode fazer a um livro: travar a marcha só para que a viagem não acabe já.
Estou a adiar a última página exatamente agora, com o Bornfreee, do Rui Barbosa Batista. Abrandar o ritmo, contar as páginas que restam como quem mede os últimos quilómetros antes de chegar ao destino.
Que texto bonito, Romi. Fica a ecoar como esses atrasos bons que, em vez de nos roubarem tempo, nos devolvem algum.
Às vezes, chegar à última página de um livro é, de certa forma, como dizer o último adeus a um amigo. Há livros a que volto frequentemente, numa tentativa de adiar uma despedida definitiva. A Redundância da Coragem, de Timothy Mo, é um deles. Por isso, percebo o que sentes. Vou aproveitar a sugestão, Bornfreee, do Rui Barbosa Batista, já está na minha lista de livros a adquirir. Obrigada, pelo comentário. Sabes que sou assídua na tua página, e é sempre um prazer ler as tuas crónicas. Dá vontade de perguntar: para quando um livro?
EliminarJá me perguntaram várias vezes pelo livro. A verdade é que nunca soube dar uma resposta clara. Mas vou tentar dar-ta a ti, pela primeira vez.
EliminarHá tantos bons livros, tantos autores extraordinários a escrever no papel. E, no entanto, quantos blogues ainda se detêm nessa procura?
Às vezes penso que aquilo que escrevo ganha um sentido de rebeldia precisamente por existir no digital. Escrever aqui, neste lugar onde tudo parece feito para ser breve e depressa esquecido, talvez também possa ser uma forma de resistência.
Se o Entre Curvas conseguir, nem que seja uma vez, levar alguém a pousar o ecrã e a pegar num livro — de um autor conhecido ou de alguém que ainda não conhece — então já terá valido a pena.
Por isso, talvez o livro esteja aí, de outra maneira. Neste pequeno ato de rebeldia. Nesta vontade de continuar a procurar, a ler e a fazer outros descobrir livros.
Obrigado pelas tuas palavras, Romi. E, sobretudo, pela companhia constante nesta viagem. É um prazer saber-te desse lado.
Surpreendente e assertiva, a tua resposta. Diria mesmo que é uma resposta de excelência. Concordo com cada palavra.
EliminarAinda assim, e talvez por ter ficado marcada pela má experiência que tivemos com a plataforma Sapo, não consigo deixar de pensar no quanto um livro pode ser importante. Acredito que aqui isso não vá acontecer, mas existe sempre a possibilidade de, um dia, decidires desistir e apagar a página (bati na madeira 3X).
Um livro preserva a memória. E há pessoas, palavras e momentos que não queremos perder. Talvez seja também por isso que continue a achar que aquilo que escreves merece ficar em papel.
Mas, enquanto isso não acontece, continuarei a ler, a descobrir e a acompanhar as tuas viagens. Obrigada eu, pelas palavras e pela companhia..
Entendo perfeitamente o teu receio, Romi. A memória no digital tem por vezes a fragilidade do efémero — e essa ferida da transição do Sapo ainda nos lembra a todos como a "nuvem" pode ser volátil.
EliminarMas não precisas de bater na madeira três vezes: as palavras do Entre Curvas guardam-se bem, e a intenção de continuar por cá, devagar e sem pressa, veio para ficar. O digital pode ser o suporte, mas o cuidado de quem lê e conversa — como tu — é o verdadeiro papel onde estas histórias ficam impressas.
Obrigado, de coração, por este espaço de conversa e por estares desse lado da viagem. Boa leitura com o Bornfreee!
Daniel e Romi: dois grandes literatos. Eu ficaria horas ouvindo uma conversa deles e jamais os interromperia. Ficaria ali por perto, se me fosse permitido, mas no mais absoluto silêncio. Apenas ouvindo. E aprendendo.
ResponderEliminarNão seja modesto. Uma conversa a três, isso é que era.
EliminarQue generosidade, Filipe. Mas não haveria qualquer silêncio imposto — a beleza de uma boa conversa está precisamente na mesa que se alarga para que mais alguém se sente. Seria um privilégio enorme ter-te a essa mesa. Um abraço e obrigado por te juntares a nós nesta viagem!
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