A máscara do dia …
Altero os ponteiros do relógio, aleatoriamente, e engano o tempo. É pela hora alterada que me rejo.
Não importa se é manhã e para mim já é tarde. Não importa se é noite e para mim já é amanhã. Queria ser uma mulher parada num tempo que há-de vir. Enquanto não vem, tento não dar por mim.
Tenho as mãos macias e a emoção inerte. Vou deixando o meu perfume por aqui, por ali e mais além. Respiro o adeus como quem rejeita palavras de amor.
E a chuva miudinha, num gesto altruísta, dissimula gotículas que teimam cair, pelo tempo que se perde à espera do tempo que desenfreadamente vai por aí e num desatino não chega ao tempo que aguardo. O tempo não assina contrato de retorno. Não volta para trás, impedindo-me de o deter num passado que está ali, não muito distante daqui...
Ponho a máscara do dia… Gosto de mim depois das dez. Convida-me para jantar, desarruma os meus lençóis de linho, sem promessa de reencontro...
imagem Pinterest (Gustav Klimt, O Beijo)

Há uma beleza rasgada nessa tentativa de enganar os relógios, Romi. O tempo é mesmo essa coisa ingrata que não assina contratos, mas há qualquer coisa de libertador no ritual de vestir a máscara e aceitar a impermanência — mesmo quando o passado continua ali, ao alcance do olhar. Obrigado pelo bonito texto, daqueles que nos fazem desacelerar o passo.
ResponderEliminarMais uma vez, o comentário supera o texto. Obrigada, Daniel. O tempo, tal como referi algures, é sempre o grande protagonista. Não há nada a fazer.
EliminarO tempo contado pelos relógios não é mesmo que nos conta a meterologia. Provavelmente nenhum deles acerta com o seu contratempo com o tempo.
ResponderEliminarO tempo e os seus trocadilhos. Bem observado, Manuel.
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