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Notas de Uma Solidão Lúcida...

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Não há coisa mais enfadonha do que ouvir os sonhos dos outros. Eu nem dou conta dos meus, e tenho alguns recorrentes, mas só sei que o são no próprio sonho. Outro tédio: as anedotas. O que me faz rir, e eu adoro rir, é diferente do que faz rir as pessoas com quem tenho de conviver. Rio-me sempre em tempos diferentes, e por norma, sozinha. Reporto-me à série 'Allo 'Allo!: eu, perdida de riso, e os meus amigos, na altura, com cara de caso a olhar para mim. Monty Python dava na RTP2; só eu gostava. Rui Veloso diz que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. Também é válido para quem não partilha o mesmo sentido de humor, nem o interesse pelos mesmos temas de conversa. Eu rio-me com o absurdo, com a sátira mordaz, com a ironia disfarçada. Com a capacidade de expor a hipocrisia e as contradições sociais de forma hilariante, mas elegante. Fugindo sempre da lógica convencional. Segundo os entendidos, um riso que, por ser mais cerebral e menos imediato, é naturalmente solitário. ...

Revista Pendura.

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  Um projecto em que acredito genuinamente e que nasce com identidade, visão e vontade de fazer diferente. Bookazine, um conceito pensado para quem gosta de ler sem pressa. Confesso que estou verdadeiramente ansiosa pelo primeiro volume. Fiquem atentos. https://revistapendura.blogspot.com/2026/05/breve-manifesto-contra-pressa-ou-o-que.html

Completamente sozinha, completamente completa …

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  Às vezes preciso de me isolar para não me sentir só.

Oásis de Cinzas…

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O céu arde em laranja sobre a terra e mar sem cor. Horizonte é fogo e pó. A sede cede à promessa do oásis. Asas resistem, rasgam o sol que queima. O chão, em martírio, abre-se. Imagina-se uma flor.

Súplica (Miguel Torga)

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  "Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas Às urgentes perguntas Que te fiz. Deixa-me ser feliz Assim, Já tão longe de ti como de mim. Perde-se a vida a desejá-la tanto. Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor Durou. Mas o tempo passou, Há calmaria... Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria Matar a sede com água salgada."

Virgulas inoportunas...

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    Dispo a túnica de linho branco, sinto salpicos de mar matematicamente inoportunos. Divido-me em capítulos, reservo um para ti que conservo em câmara lenta. Gesto de quem alucina porque o normal já não me basta. Numa linguagem própria de quem sabe que chega para além de um prazo razoavelmente traduzível, mergulho nas ondas imprevistas e num gesto de estátua que não sabe morrer, salvo a palavra que caiu no vácuo sem promessa. Mas já era tarde! Velam-se os gritos que estão vivos porque respiram. Agora tenho todo o tempo do mundo para inventar vírgulas que sepulto na região demarcada do verbo amar. Há que ter em conta que tudo pode ser em vão. Assim sendo acendo um cigarro e incendeio a saudade. Os distúrbios das letras intelectuais circundantes… Nem eu sei porque sou assim!

O Idílio e a Inevitabilidade...

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  Invento sonhos e moro neles. No limiar, uma ferradura, amuleto contra pesadelos. Saio para a rua como se fosse primavera, cheiro as flores sem as colher e os pássaros, ao sobrevoarem-me, abanam as asas para me refrescar. Alimento-me de certezas, de histórias de bem-querer, como a guardiã à janela de uma torre antiga, dedos manchados de tinta, a escrever destinos que destribui aleatoriamente. Um dia, o amuleto falha. O pesadelo, que não me acorda, transforma pássaros em abutres, com rajadas de vento nas asas que me levam para longe daqui. À janela, a guardiã vacila, as palavras deixam de obedecer. Já não há histórias com final feliz. Uma borboleta de asa negra surge, presságio ou guia, e conduz-me por labirintos de silêncio, onde as certezas de outrora morrem como frutos caídos. Caminho descalça por terreno incerto. O verdadeiro poder não está em morar no sonho, mas em atravessar o labirinto sem procurar a saída A borboleta negra dissolve-se num sopro de fumo, deixando-me nos dedo...

Analfabetismo do ruído…

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  Há quem subestime o silêncio. No seu lugar, usa-se o ruído como arma de arremesso, uma tentativa de diminuir o outro mesmo onde não existe ameaça. E nesse barulho mal alinhado, perde-se algo raro: o encantamento de ser visto com atenção. A admiração, quando não é cuidada, desvanece. Ao tentarem rebaixar o outro, as pessoas destroem o próprio degrau onde poderiam ser elevadas. Tornam-se peças de um puzzle que já não encaixam. E o mais inquietante é perceber que não é a falta de valor que impede o ajuste. O silêncio, quando é inteiro, constrói espaço. O ruído, quando é vazio, apenas o ocupa sem nunca o preencher. No fim, quem quer diminuir é quem acaba por se tornar menor. Com o tempo, percebemos que o eco do que dizemos atinge-nos. O que é lançado sem cuidado não se dissipa, acumula-se em quem o lançou. Já o silêncio permanece como a medida exata de tudo o que não precisou de ser reduzido para conseguir existir. Há palavras que não elevam nem questionam, apenas desgastam. E ao r...

Exílio Sem Cor ...

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  É manhã. Desprendo-me de mim. Adormeço com palavras em forma de poema. Acordo com palavras mudas, pensamentos com forma e sem vibração. É manhã. Eu já cá não estou! É como se o dia viesse e me levasse para um sítio onde não quero estar. Logo à noite, talvez regresse… frágil, desamparada, inocente. Mas agora tenho de ir, infiltrar-me no mundo dos outros, distribuir simpatias e sorrisos ensaiados. O meu mundo é a preto e branco, e obrigam-me a afagar o arco-íris. Não quero pisar caminhos já trilhados, nem ser protagonista de uma história que morre de tédio terminal. Mas, enquanto a noite não vem, tenho de ir e sentir que estou a ser integrada acima das minhas possibilidades, camuflando uma louca ilusão… A ilusão de que, algures, num sítio a definir, secreto, em que é reservado o direito de admissão... exclusivo para pessoas que vivem a preto e branco …, há lugar para mim. É dia, e a vida não para. Continuam a nascer e a morrer pessoas. Pergunto se não terei morrido também… ou se so...

Efeito secundário...

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Era feriado. Curiosamente, todos estávamos constipados. Apesar disso, comparecemos, fiéis ao compromisso. Reuníamo-nos, simplesmente, porque tínhamos disponibilidade. Cuidámos uns dos outros entre analgésicos, antipiréticos, anti-histamínicos e aquelas pastilhas efervescentes que o Carlos jurava resolver tudo. O importante era estarmos juntos, partilhar alegrias e frustrações naquele barracão na encosta do monte, que outrora pertencera aos avós do Miguel. Havia gargalhadas misturadas com o cheiro a frango assado no carvão. Palavras a preencher silêncios antigos. É feriado. Já ninguém se queixa. Eu, ainda ligeiramente febril, deixo-me ficar nesse arrepio, na necessidade de afeto que me puxa de volta ao barracão. O barracão, um monumento à ausência. Foi dos avós do Miguel, depois dele. Agora é só meu. Parece-me. Naquele tempo, a dor era o cimento da nossa amizade. Hoje, resta a assepsia do silêncio. Um a um, todos parecem ter tido alta. Foram-se curando devagar… da vida, das ausências. R...