Conversas com os Botões e Outros Desatinos... (e a Saca do Pão)
No céu, o rasto branco dos aviões que se cruzam e, sabe-se lá porquê, escapam impunes. Não chocam, passam resvés Campo de Ourique, como se a expressão tivesse sido inventada para eles, embora a sua origem exata seja incerta e se divida por várias teorias populares.
Mas já não se fala disso. Fala-se de outras coisas, do preço do peixe vermelho, como quem diz redfish, e da palha de Abrantes, que molda lampreias em dias de festa e não precisa de estrangeirismos para se perceber que não é uma palha qualquer. Daquelas que enchem colchões, climatizada, que aquece nas noites frias e refresca nas quentes.
E talvez seja por isso que se fala tanto do tempo, que também já não é o que era, embora continue a ser tempo, essa coisa que passa sem pedir licença e que, ao contrário dos aviões, não deixa rasto branco no céu. Só uma espécie de memória mal arrumada, feita de dias que foram quentes quando deviam ter sido frios e de noites que se prolongaram para além da conta.
Isto é a conversa com os meus botões. Eles conhecem-me das conversas intermináveis, sem rumo, sem nexo e sem hora marcada. Uma conversa entre neurónios que se recusam a fazer fila, cada um a querer chegar primeiro, sem respeitar prioridades nem sinais de trânsito.
Marcada também não está a viagem, apesar da mochila pronta. Mochila XXL, não fosse o diabo tecê-las.
Comprar online é imprevisível. Comprei uma no tamanho ideal para fins de semana improvisados e era tão pequena que praticamente só dava para levar um par de cuequinhas, caso fossem fio-dental. A saca do pão, que uso para dormir, nem metade cabia.
Nova encomenda. Meu Deus, que exagero! Nesta cabe o sofá, a mesa de apoio e, por uma unha negra, não cabe também o cadeirão de baloiço que encomendei para as noites de insónia e ainda não chegou.
A mochila está pronta. Destino: Gare do Oriente, até onde dá o passe mensal. Depois, escolher o menu no placard da estação, como nos restaurantes. Raramente sabemos o que vamos comer, escolhemos na hora. Assim é que gosto: não saber para onde vou. Escolher o destino na hora, ter em conta o comboio com menos tempo de espera, comprar o bilhete e partir.
Eu e a minha mochila gigante. Carregadinha de gulodices, uma muda de roupa, artigos de higiene e cosmética. As minhas cuequinhas em versão sexy. E, claro, a saca do pão.
Destino? Depois digo…

A saca do pão como abrigo e a mochila XXL pronta para albergar o mundo — ou pelo menos o essencial, incluindo as indispensáveis audácias em versão mini. O melhor de embarcar sem rumo fixo é que o placard da Gare do Oriente nunca nos diz se vamos em busca de silêncio ou de apenas mais uma boa história para contar aos botões. Que o próximo comboio demore o tempo exato para nos deixar sonhar um bocadinho mais na plataforma. Boa viagem!
ResponderEliminarPara não fugir à regra, comigo, é tudo muito imprevisível. Para complicar, descer em Campolide: o comboio antecipou-se ao da Gare do Oriente. Um menu mais magro, exibido no placar, ainda assim, não menos interessante. Depois conto.
EliminarO tempo não deixa rasto no ar como os aviões, mas deixa rasto visível nos rostos de quem o viveu por algum tempo. A mochila se não sabe o caminho também não interessa, o telemóvel grava-nos o rasto e nós arastamo-lo connosco o tempo todo. Boa viagem, com tempo para que o strees não ataque e a inspiração se mantenaha.
EliminarForam poucos dias, mas reparadores. Obrigada, Manuel.
Eliminar