O silêncio dos versos...

 



Quando anunciaram que o Vasco ia declamar poesia, saí de mansinho. A minha ligação à poesia não é auditiva. Quando leio poesia, nem sequer crio uma voz interior. Os versos permanecem em silêncio. Não precisam de som para produzir emoção.

Há uma maneira de declamar poesia que parece obedecer a um código, tornando todos os poemas semelhantes. Na minha opinião, nem toda a poesia foi feita para ser declamada, nem toda a poesia ganha quando lhe damos voz. Gosto de sentir o poema sem que ninguém determine o ritmo ou a emoção que devo encontrar nele.

Abro, no entanto, uma excepção para Cântico Negro, de José Régio, na interpretação de Vítor Norte. Há qualquer coisa naquela forma de dizer o poema, sobretudo no final, que me rende por completo. A voz ganha uma agressividade quase zangada, uma revolta que não procura suavizar as palavras nem torná-las mais bonitas. Pelo contrário, dá-lhes a força de quem sabe que não vai por ali. 

Sigo a página «O Poema Ensina a Cair». Raquel Marinho anuncia que recebeu um poema do mais recente livro de Anne Carson, distinguida com o Prémio Nobel da Literatura de 2026. O livro ainda não foi publicado em Portugal e o poema foi traduzido por Ricardo Marques.

Generosamente, Raquel começa a declamar o poema. Tal como fiz com o Vasco, saí de mansinho.

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