As cores desmaiam com a delicadeza que só as coisas cansadas sabem ter. O mundo, exausto, quer retirar-se em silêncio. Há um rumor leve no ar, o último fôlego de um dia que persiste, teima em não querer partir. As sombras alongam-se devagar, tocam os muros, os rostos, as memórias. Tudo parece suspenso entre o ainda e o já não, entre o que foi e o que se despede sem alarde. O tempo abranda, perde a pressa de existir. As vozes tornam-se ecos distantes, dissolvidos numa névoa húmida. Levanta-se o vento, que recusa ser pintado em repouso. Nesse instante quase imóvel, o ocaso, esbatido, parece adormecer dentro de si, embalado pela própria exaustão. Esvai-se o dia, cansado. As cores começam a desbotar, transformando o mundo num esboço a carvão .
Um preconceito que está cada vez mais presente é o de que ler um livro é, por definição, enriquecedor, enquanto passar tempo na Internet é prejudicial. O problema não está no meio que utilizamos, mas na forma como o utilizamos. Um livro pode abrir-nos horizontes, despertar o pensamento crítico e transmitir-nos conhecimento. Mas também podemos ler sem refletir, sem questionar e sem aprender verdadeiramente. Da mesma forma, a Internet pode ser um espaço de superficialidade e distração, mas também uma fonte extraordinária de conhecimento, cultura, ciência, história, literatura e pensamento. Claro que há uma diferença importante: ter acesso à informação não significa adquirir conhecimento. É preciso saber selecionar fontes, questionar o que lemos, distinguir factos de opiniões e pensar por nós próprios. E isso aplica-se tanto à Internet como aos livros. Não devemos julgar a inteligência, a cultura ou a capacidade de alguém pelo suporte que escolhe para aprender. O conhecimento não te...
Quando anunciaram que o Vasco ia declamar poesia, saí de mansinho. A minha ligação à poesia não é auditiva. Quando leio poesia, nem sequer crio uma voz interior. Os versos permanecem em silêncio. Não precisam de som para produzir emoção. Há uma maneira de declamar poesia que parece obedecer a um código, tornando todos os poemas semelhantes. Na minha opinião, nem toda a poesia foi feita para ser declamada, nem toda a poesia ganha quando lhe damos voz. Gosto de sentir o poema sem que ninguém determine o ritmo ou a emoção que devo encontrar nele. Abro, no entanto, uma excepção para Cântico Negro, de José Régio, na interpretação de Vítor Norte. Há qualquer coisa naquela forma de dizer o poema, sobretudo no final, que me rende por completo. A voz ganha uma agressividade quase zangada, uma revolta que não procura suavizar as palavras nem torná-las mais bonitas. Pelo contrário, dá-lhes a força de quem sabe que não vai por ali. Sigo a página «O Poema Ensina a Cair». Raquel Marinho ...
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