A senhora da mercearia trata-me por meu amor. Trata toda a gente assim. Eu trato-a por querida. Ao rapazinho que me vem entregar as pizzas, também o trato por querido. Não é sempre o mesmo, para mim é como se fosse.

Gosto à séria de termos afetuosos. Como se eu fosse muito boa pessoa.

Há pessoas que me irritam de morte. Depois de lhes falar com uma certa acidez, tipo raspanete, remato com um querido/a e a pessoa continua a irritar-me, mas olha-me tranquilamente, sem se sentir injustiçada. Isso alivia-me um subtil peso de consciência.

Porque as pessoas agem em conformidade com o que são e sentem, e não como pessoas robotizadas, feitas à minha medida e à minha tolerância. É uma canseira, mas é o que temos.

Escrito na quinta-feira. O único dia que tolero na semana.




Comentários

  1. Lendo isto logo a seguir ao texto anterior, cheguei à conclusão de que preciso de espantalhos portáteis para pessoas irritantes: um amuleto que a gente abana e diz “obrigado, querido, mas pousa noutro poleiro!”. Era encomendar um em tamanho de bolso para usar às quintas-feiras e nos restantes dias da semana.

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  2. Talvez por isso frequente um restaurante no Centro Histórico (mas um bocadinho - só mesmo um bocadinho - fora dele) que me tratam por menino e eu, por verginha, porque sou velho, não trato as senhoras por queridas, até para evitar mal entendidos.

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    1. Um "querida" respeitoso não causa mal entendidos. Digo eu, que de queridas e queridos percebo muito pouco...

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    2. Hoje em dia, com o fundamentalismo social que grassa na internet, nunca fiando.

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    3. Sim, hoje em dia tudo é considerado assédio. Qualquer dia vou presa, tenho este péssimo hábito. E mais com estranhos.

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