A NETA DA MARIA...

Põe o lenço na cabeça, pega nas duas pontas, cruza-as atrás do pescoço, agilmente, e ata-as no cimo da cabeça. Lenço azul petróleo, com florinhas brancas, avental a condizer, que é domingo. Sai para a rua, bate a porta, fecha-a à chave, põe a chave debaixo do vaso dos manjericos. Vai pela vereda, para aproveitar a sombra. Segue ligeira, com a mão na cintura, a outra balança ao ritmo dos passos. Vai almoçar com a ti Xica, a comadre. Chegada ao destino, sem bater à porta, entra. A comadre recebe-a com um sorriso, diz-lhe que está adiantada, os grelos ainda estão ao lume. Responde que não tem muita fome, anda com uma dor nas cruzes, a filha quer que "lhe chegue" uma pomada, mas ela prefere ir ao Ti Gabão, o endireita. Foi ele que a curou da dor no ombro e nunca mais padeceu de tal mal. Entretanto, os grelos cozeram. Grelos com batatas e ovos cozidos. Servidos numa malga, empurrados com o pão para uma colher. Findo o repasto, pegaram num bloco de linhas, dois envelopes e dois selos. Saíram porta fora, com a ligeireza que a dor nas cruzes não travou. Já aguardavam 4 pessoas na soleira da casa da Maria, que tinha cá a neta e era ela que lhes escrevia as cartas, que começavam invariavelmente assim: " Querido(a) filho(a), cá recebi a tua carta, e nela vi tudo o que me mandaste dizer..."
Eu sou a neta da Maria, não sei quantas cartas escrevi, asseguro que todas começaram assim ...
Ou, Espero que esta carta vos encontre bem, nóa por cá vamos andando como Deus quer.
ResponderEliminarProvavelmente...
ResponderEliminarBoa prosa, linda recordação das pessoas que construíram a sociedade (que ainda reconhecemos...). 🙂
ResponderEliminarPois é verdade, todas começavam assim. Também escrevi muitas vezes para a minha avó alentejana, e clara que lá vinha a tradicional frase. Mas o texto fez-me lembrar que também escrevia cartas a vizinhas que me pediam, sendo uma delas cega. Não tenho saudades desses tempos, apenas sinto o tamanho da nostalgia medida pela distância que vai do hoje ao passado.
ResponderEliminarObrigada. Convém mesmo não esquecer. Mergulhar nestas recordações é como mergulhar num banho de humildade.
ResponderEliminarEu não sou de saudades, uso a palavra por exaustão semântica, à força de tanto ser ouvida. Mas há sítios no passado que gosto de visitar, sem me demorar. Concordo com a abordagem à nostalgia.
ResponderEliminarOlá querida Romi!
ResponderEliminarAs cartas que deixam mais saudades são as que nunca enviamos. Ou as que às escondidas eram colocadas para serem encontradas e que nunca saberemos se foram lidas, embora suponha que sim... só não foram encontradas as respostas.
Cartas de avó/ô têm uma emoção especial, de mãe, de filho/a, de amigo/a, também.
Ou postais.
Obrigada pela tua carta da carta.
Beijinhos e um Xi- dos nossos, que voam junto com as cartas enviadas e por enviar.
Leste na diagonal, tá visto. Não é carta nenhuma (perdida de riso).
ResponderEliminarValeu pelo xi dos nossos que retribuo
Não é carta? Como assim não é carta? Li, e até li no computador, deve ser isso, já não estou habituada ao mega tamanho do texto, quando chego ao fim da frase ou do parágrafo já não retive o seu início.
ResponderEliminarNão será culpa da tua escrita, mas do meu défice.
Outro xi-coração