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A NETA DA MARIA...

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  Põe o lenço na cabeça, pega nas duas pontas, cruza-as atrás do pescoço, agilmente, e ata-as no cimo da cabeça. Lenço azul petróleo, com florinhas brancas, avental a condizer, que é domingo. Sai para a rua, bate a porta, fecha-a à chave, põe a chave debaixo do vaso dos manjericos. Vai pela vereda, para aproveitar a sombra. Segue ligeira, com a mão na cintura, a outra balança ao ritmo dos passos. Vai almoçar com a ti Xica, a comadre. Chegada ao destino, sem bater à porta, entra. A comadre recebe-a com um sorriso, diz-lhe que está adiantada, os grelos ainda estão ao lume. Responde que não tem muita fome, anda com uma dor nas cruzes, a filha quer que "lhe chegue" uma pomada, mas ela prefere ir ao Ti Gabão, o endireita. Foi ele que a curou da dor no ombro e nunca mais padeceu de tal mal. Entretanto, os grelos cozeram. Grelos com batatas e ovos cozidos. Servidos numa malga, empurrados com o pão para uma colher. Findo o repasto, pegaram num bloco de linhas, dois envelopes e dois s...

"O Trem das Onze" (memórias)...

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  Lamento sempre quando morre alguém que gosta de viver, independentemente da idade . Gostar de viver é algo comum a muita gente, mas gostar de permanecer vivo é diferente. É não parar, é continuar a produzir, dar continuidade a uma obra que não lhe garante longevidade, mas que o projeta para além da morte. Morreu o Ti Manel Gervásio, compadre da minha avó. Escultor anónimo, de peças ímpares, que foi espalhando pela aldeia. A minha avó, muito abalada com a morte do compadre,  sentada ao lume, rezava o terço. Eu, entretida a contar as traves do teto da cozinha. O silêncio era quebrado apenas pelo crepitar da lenha. Lá fora, nada acontecia. A minha avó foi-se deitar sem jantar. Aninhei-me ao pé dela e abracei-a em conchinha. Vencida pelo cansaço, adormeceu rapidamente. Fiz torradas à lareira e acompanhei-as com café quente. Liguei o rádio, bem baixinho. "Adoniran Barbosa, O Trem das Onze..." tocava suavemente: (...) Não posso ficar nem mais um minuto com você Sinto muito, amor,...

A CASA DA ALDEIA...

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Não me imagino a viver na casa da aldeia, nem gosto de ir à aldeia. Deprime-me. Não gosto de acordar com os passarinhos, nem de adormecer com o irritante do grilo. Gosto de passarinhos e grilos, mas caladinhos. O que eu gosto mesmo é das osgas que habitam o anexo, a que chamo a casa do lume. E na casa do lume, verão ou inverno, há sempre uma ou duas osgas.  Depois há o senhor que trata das parreiras e fica com as uvas, teima sempre em dar-me um garrafão de vinho. Só aceito a garrafa de bagaço. Pasme-se, gosto de bagaço. Depois há o senhor que trata das oliveiras, lá rejeito eu o garrafão de azeite. Mas gosto desta dinâmica da aldeia, de tratar do que é dos outros e apesar de  raramente lá ir , tem tudo um ar muito cuidado, como se a minha avó ainda respirasse.  Estive há pouco tempo na casa da aldeia, há assuntos que só eu posso tratar e há situações recorrentes; A minha avó deitava-se muito cedo. Eu ficava na casa do lume, sozinha,  num serão que se alongava. Adoro serões. Quando regr...

COM MUITO AMOR ...

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  Hoje era dia de cobrir-te de mimos, oferecer um ramo de flores e uma caixa de bombos de chocolate com recheio de cereja. Mas tu não estás, avó... 

A MINHA AVÓ (MEMÓRIAS)...

A minha avó não era uma pessoa de afectos. Lembro-me , em miúda, sempre que caminhávamos, eu ficava ligeiramente para trás, e sem lhe tocar, colocava a minha mão na direção da mão dela, para na sombra criar a ilusão de que íamos de mãos dadas.  Também não era pessoa de ralhar ou castigar. Tinha uma maneira áspera de falar, mas era a maneira dela. A única vez que deu um castigo, não me deixou mágoas. Seriam cerca das sete da tarde, ela tinha de sair, e deixou-me encarregue de descascar as batatas para o jantar. Tinha um cão que a adorava, era recíproco. Por mais que me esforçasse, o cão não me ligava nenhuma. Nessa tarde, talvez  sentido por ela não o ter levado, e estando eu sentada ao lume, veio pela primeira vez aninhar-se no meu colo. Fiquei estática, temia que o meu respirar o afastasse. Aquela coisinha peluda permitiu que lhe fizesse festas e adormeceu como um bebé. Chamava-se Boby.  Na terra todos os cães se chamavam Boby e os gatos Tareco.  Algum tempo depois, ainda a minha avó ...

A CASA DA MINHA AVÓ ...

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A casa da minha avó tinha um candeeiro a petróleo, cortinas em vez de portas e umas colheres de ferro, muito pesadas, com que comíamos as migas tostadas que ela fazia ao pequeno almoço.  A casa da minha avó, tinha aranhas debaixo da cama e sapatos pendurados nas vigas do teto do quarto. Também pendurava chapéus de chuva e outras coisas que a memória me falha. O quarto tinha duas camas, com colchões de palha, com um rasgão ao meio. Por cima da minha cama, a minha avó, pendurava uvas, para secarem e se transformarem em passas.  Na casa da minha avó eu comia as uvas, penduradas por cima da minha cama e antes de se transformarem em passas. Fazia bolas de lã com o pelo dos cobertores. A minha avó ralhava e eu não me importava, continuava a fazer bolas de lã. Na casa da minha avó, não havia histórias ao deitar, nem canções de embalar. Havia o barulho que a minha vó fazia a comer tremoços e comia tremoços noite fora.   Na casa da minha avó, havia cadeiras de palha, à volta do lume, e um púcar...