"O Trem das Onze" (memórias)...
Lamento sempre quando morre alguém que gosta de viver, independentemente da idade . Gostar de viver é algo comum a muita gente, mas gostar de permanecer vivo é diferente. É não parar, é continuar a produzir, dar continuidade a uma obra que não lhe garante longevidade, mas que o projeta para além da morte.
Morreu o Ti Manel Gervásio, compadre da minha avó. Escultor anónimo, de peças ímpares, que foi espalhando pela aldeia.
A minha avó, muito abalada com a morte do compadre, sentada ao lume, rezava o terço. Eu, entretida a contar as traves do teto da cozinha. O silêncio era quebrado apenas pelo crepitar da lenha. Lá fora, nada acontecia.
A minha avó foi-se deitar sem jantar. Aninhei-me ao pé dela e abracei-a em conchinha. Vencida pelo cansaço, adormeceu rapidamente.
Fiz torradas à lareira e acompanhei-as com café quente. Liguei o rádio, bem baixinho. "Adoniran Barbosa, O Trem das Onze..." tocava suavemente:
(...) Não posso ficar nem mais um minuto com você
Sinto muito, amor, mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder esse trem que sai agora às onze horas
Só amanhã de manhã (…)
O rádio murmurava uma despedida , e eu, tal como o "trem", sabia, e sei, que o tempo não espera por ninguém.
Primeiro, fiquei sem palavras, mas quero agradecer a tua sensibilidade ao contar esta história. 🩵
ResponderEliminarNão vale mesmo a pena ter pressa. O tempo leva-nos sempre lá.
ResponderEliminarBom domingo Romi.
Beijinho
Adoro as memórias com a minha avó. Tenho várias espalhadas por aqui. Acho que vou reuni-las e dedicar-lhe um blog só para ela.
ResponderEliminarO teu comentário também me sensibilizou. Obrigada...
Íamos esbarrando, acabadinha de sair das Ondas do Mar.
ResponderEliminarO tempo é bom companheiro.
Beijinho, João Afonso.
Boas memórias do tempo que passou e não volta mais, porque o invisível tempo escorre-nos por entre os dedos.
ResponderEliminarBom resto de domingo, querida ROMI.
Beijinhos
Beijinho grande, querido José. Boa semana.
ResponderEliminarE obrigada.
E que bom é termos memórias.
ResponderEliminarBeijinhos
Há sempre qualquer coisa que me leva até ela.
ResponderEliminarBeijinho