SERÕES DA ALDEIA...

Por norma, os serões na aldeia começam por volta das nove e prolongam-se até à meia-noite. Cada um traz a cadeira de casa e histórias para contar. Conforme vai escurecendo, as histórias vão ficando mais sinistras.


É lançado o mote, desta vez pela Amelinha, que diz em tom baixo, mas de modo a que todos possam ouvir, olhando em volta garantindo que nenhum intruso se inteira da indiscrição: "Dizem que o ti Diogo é lobisomem." Ninguém ficou espantado, como se fosse do conhecimento geral.


Uma outra senhora, cujo nome não sei, atirou: - "Dizem não! É lobisomem, que eu bem o vi. Uma noite ia com o meu Fernando para o pinhal e ele estava na clareira do Batista, de braços abertos, em tronco nu, e desata a galopar. Ficámos sem pinga de sangue, ele ia de olhos arregalados e nem nos viu." 


Todos anuíram com a cabeça; garantidamente, o ti Diogo, era lobisomem. A ti Gracinda disse que uma vez foi visitá-lo, porque estava doente, e de vez em quando ele urrava e rangia os dentes.


O senhor António, apercebendo-se de que o assunto do lobisomem estava esgotado, conta o susto de morte que apanhou quando andava no contrabando. Levava um cabrito sobre os ombros, calha a olhar para a cara do animal, e este estava de boca escancarada, olhos vermelhos a deitar chispas, e começa aos guinchos como se fosse um porco em dia de matança. Ninguém ficou impressionado, e o senhor António continuou: "Atirei com ele para o chão, desatei a fugir e por mais que corresse, voltava sempre ao mesmo sítio, como se andasse à roda, mas eu corria a direito. E andei nisto até ser dia."


Aqui já se sentiu uma ligeira agitação. - "Ele há coisas!" disse alguém, enquanto se preparava para contar uma história que superasse todas as outras. E contou a história da moura encantada que aparecia no Castilho. Primeiro explicou-me; todos os outros já sabiam que o Castilho era um monte que tinha uma gruta e, ao que constava, essa gruta escondia um tesouro. - Aqui foi interrompida; alguém se lembrou de que eu, com tanta história, podia ter medo durante a noite. Ao que a Amelinha sugeriu que poderia dormir na casa dela.


"Todos evitavam passar pelo Castilho, quase por superstição, porque constava que as pessoas passavam a agir como que hipnotizadas e diziam que era o encantamento de uma moura, cabelo negro, comprido, olhos brilhantes como brasas, a guardiã do tesouro do Castilho. Eram atraídos por uma melodia, que fluía como uma cascata, e os deixava em estado de transe. Um grupo de caçadores, muito destemidos, resolveram enfrentar o mistério, na tentativa de resgatarem o tesouro. Munidos de tampões nos ouvidos, não ouviram a melodia, mas avistaram a moura. Dançava ondulante ao som da música que eles não conseguiam ouvir.


Entraram na gruta, inconscientes dos perigos que a moura encantada impunha. Uma tempestade de areia formou-se instantaneamente. Ventos fortes varreram pedras e detritos, bloqueando implacavelmente a saída, e os homens ficaram lá sepultados para sempre.


Nunca mais se ouviu falar da moura encantada, mas de tempos em tempos, ecoam urros de agonia das entranhas da gruta. Os lamentos daqueles que ousaram desafiar a moura misturam-se com os uivos dos ventos, lembrando a todos que a busca pelo desconhecido nem sempre termina com recompensas, mas pode levar a um destino sombrio e eterno para aqueles que subestimam o poder das lendas antigas. A gruta permanece como um túmulo silencioso, uma lembrança sombria daqueles que desafiaram o inexplicável e pagaram o preço pela imprudência."


A história não me impressionou; era simplesmente uma boa história. Até que... sem que nada fizesse prever, sente-se uma brisa suave, gelada, seguida de um grito estridente que deixou todos sem respiração. Calma, foi só o senhor António que, inadvertidamente, pisou a cauda do gato.


Claro que dormi na casa da Amelinha.


 


37123996_1915963945101830_863232226848931840_n.jpg FOTO DO ÁLBUM "OS MEUS SERÕES"


 

Comentários

  1. Olá Romi! Gostei de ler!
    Não tenho experiência de serões da aldeia, por aqui as histórias sinistras contam-se à boca pequena e por meias palavras talvez por isso se tornem ainda mais assustadoras!
    Bom fim de semana

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  2. Já vi que não pode haver uma gruta em Portugal que se aprisionam mouras!

    Tenho uma gruta (apelidada de ''Boca'') na minha terra que o conto é muito semelhante; em que uma moura apaixonada por um português teve que se esconder, a pedido dele para não ser capturada, e que ela cantava todas as noites à espera que ele retornasse.

    Daí a ''boca'', pois ouvia-se-lha a cantar, à espera do seu amante.

    Uma boa noite, e obrigado pela agradável leitura!

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  3. Muito bom, Romi. Histórias de "medos" e mouras encantadas.
    Gostei imenso.
    Um beijinho. Boa noite. Sem medos.

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  4. "Ele há coisas" em que a gente bate com cabeça na parede e, para lá do contrabando e dos lobisomens, dá e cheio com a Beira Baixa, com um escrita limpinnha com o Erges, a pular como achigãs, tão bonita que até inveja, já a fazer dormir mal.
    Amiga Romi, com toda a reverência, um beijinho de boa noite que bem merece

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  5. Ali a parte mais assustadora foi mesmo o berro que o gato deu, imagino o susto da dona Chica

    Beijinhos, bom fim de semana

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  6. Há histórias que são comuns, principalmente nas aldeias. A tua bem mais romântica. Obrigada por partilhares.
    Vi que há novidades, já passo no teu "cantinho".
    E obrigada, eu. Bom fim de semana.

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  7. Obrigada, Isabel. Sem medos...

    Beijinho, bom fim de semana

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  8. Íamos esbarrando novamente? É mesmo o Erges e os achigãs. Mas o Castilho, se a memória não me falha, fica do lado espanhol. Pela conversa do senhor António, o contrabandista, basta passar o rio e subir horrores. Qualquer dia confirmo, não em busca da moura encantada, mas do tesouro.
    Agradeço tanto toda a simpatia, na incapacidade de retribuir proporcionalmente, deixo um abraço.

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  9. Nos serões das aldeias nunca faltavam estes ingredientes e quanto mais arrepiantes melhor.
    Excelente, mas o gato assustou quase toda a gente.
    Bom domingo, Romi!
    Beijinhos

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  10. Na casa do meu avô materno havia muitos serões desses. O ambiente era por si só fantasmagórico, porque não existia luz eléctrica num raio aproximado de 9 km, em redor da casa , no meio do campo algarvio a 20km das praias, só exitiam duas outras casas próximas, que forneciam pessoal para os serões, a via férrea fica a 4 km, quando o comboio passava via-se a luz a avançar e o barulho da locomotiva a diesel, este era o único som exterior artificial que nos chegava até casa, por fim o som dos grilos, das corujas, dos cães, das ovelhas, dos gatos eram permanentes ao que se juntava a fraca luz do candeeiro a petróleo para iluminar as faces das histórias de encantar ou de susto.

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  11. Tantas saudades, destes serões na casa dos avós

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  12. O gato foi o ponto alto da noite, sem ele sustos zero (risos)
    Beijinho grande, José. Bom domingo.

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  13. Os serões da aldeia são fascinantes. E quando mete discussão porque um tem uma versão da história diferente da do outro. Mas na noite seguinte, lá estão todos, para nova tertúlia.
    Obrigada pela partilha. Boa noite e bom domingo.

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  14. O que eu me rio com as histórias de terror.
    Apesar de já não ter avó, lá vou mantando saudades.
    Beijinho, Di

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  15. Olá Romi!
    Este é que é um serão como deve ser!!! E muito a propósito, pela noite de eclipse de hoje, onde todas as Pessoas sabem acontecem coisas estranhas inusitadas e encantadas
    Gostei tanto das histórias e da partilha desta roda, também estive aqui na minha cadeira a escutar muito atenta, obrigada querida Romi!
    Noite boa, continuação de boas histórias e boa companhia
    Beijinhos

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  16. Aí sogadinha na cadeira, nada de pisar a cauda ao gato.
    Sempre que vou à aldeia, no verão, o serão é garantido. Mas só no verão, no inverno fica tudo recolhido nas suas casas à lareira.
    Bom serão, minha Cotovia linda. Beijinhos

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  17. Excelente história! Prende logo do início e está muito bem escrita. É um conto que vale por si só, mas parece também um primeiro capítulo de um livro ainda por escrever.

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  18. Obrigada, Inês. Não imaginas como as tuas palavras me tocaram. Me levantaram até.
    Salvaste o meu dia.

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  19. Gostei tanto de ler. Os meus serões nunca tiveram destas histórias "assustadoras"

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  20. Eu nem sempre faço serão com o mesmo grupo, como estou lá pouco tempo corro as "capelinhas" todas. Invariavelmente todos começam com coisas do quotidiano, depois risota, a seguir há sempre histórias do outro mundo para remate (risos).

    Beijinho, querida. Obrigada.

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  21. Tão bom! Senti-me lá, sentadinha na minha cadeirinha ao pé da Amelinha, da ti Gracinda, do Sr. António, e com os pelos da nuca arrepiados.
    É isto que diferencia as pessoas, o valor que se dá a uma reunião na aldeia, e a descrição que se consegue fazer de um simples serão melhor do que um chá com a rainha.
    Beijinho, boa semana!

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  22. Obrigada, Isabel. A diferença está nos olhos de quem lê <3
    Lindo era fazermos um serão todos juntos, gostava tanto.
    Beijinho, boa semana. E é sempre muito gratificante ser lida por pessoas como tu.

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  23. adorei a história. Bons tempos que se passavam serões a falar
    Boa semana

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  24. Obrigada, Anita. Eu tenho uma costela aldeã, apesar de ter nascido na cidade e passar lá pouco tempo, mas adoro falar do que tenho saudades.
    Uma boa semana. Beijinho grande

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