NEM SEQUER É PARENTE, É SÓ CASTIGO...

Não é meu enteado,  nasceu após o divórcio, nem é meu afilhado, nem sequer vizinho. Não me é rigorosamente nada, nadinhaaaa. Porque carga d' água tenho eu de aturar o pimpolho, sempre que os pais resolvem dar uma escapadinha romântica. Não sei a idade dele, nem me interessa, mas já tem idade suficiente para ficar meses a fio sozinho em casa. Pronto, tem seis ou sete anos, meses a fio é um exagero, mas um fim de semana prolongado até fazia dele um homem, digo eu. Depois tem a mania que é esperto, lembra-me, constantemente, que as crianças têm de brincar. Sugiro aos polícias e ladrões, ele é o ladrão e tem de ficar amordaçado, de pés e mãos amarradas, até os paizinhos voltarem. Não acha boa ideia, que falta de sentido de oportunidade tem este miúdo. Ai e tal, atravessar a estrada, tens de me dar a mão, diz ele. Que sorte a minha não terem inventado que as crianças têm de ser carregadas às costas ao atravessar uma simples passadeira. Lá lhe dou a mão, que não larga, como se a passadeira fosse infinita. Ai e tal, tens de me obrigar a comer  o que tenho no prato. Relembro-lhe as vantagens de até nem comer nada: Poupa-me o trabalho de cozinhar, idas ao supermercado e com um bocado de sorte os paizinhos podem aproveitar a roupinha de há três anos. Olha-me desconfiado e devora tudo. Temos as refeições temáticas, às cegas: comer de olhos vendados. Pré históricas: comer com as mãos. À laia de piquenique: comer no chão. Para não falar das noites de campismo selvagem, quando munidos dos sacos cama dormimos na varanda. Campismo urbano, dormimos no chão da sala.  Também temos castigos personalizados, quem se portar mal anda de barbatanas em casa. Aí sou solidária, dividimos o castigo, uma barbatana a cada um. Advirto-o que a desculpa do pesadelo noturno, para passar para a minha cama, já não resulta. E fico eu toda a noite acordada, não vá o rapaz ter mesmo um pesadelo e sentir-se sozinho. Quando os pais chegam para o levar, é um alívio. Mas lembro-os que o mês de agosto tem vários feriados (invento eu), e que passarem férias sozinhos também tem os seus encantos... Depois, em sintonia, eu e a peste, fazemos cara de mau, olhamo-nos nos olhos, piscamos três vezes . O nosso código secreto que significa, gosto tanto de ti. 


iqt.jpg Foto: dia de piquenique em casa

Comentários

  1. A vida tem destas coisas... cria-nos os mais fortes laços com quem não nos é "nada"
    Gostei desta narrativa ao contrário.
    Bom fim de semana Romi

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  2. Obrigada, Isa. É a minha defesa para me distanciar, emocionalmente, de alguém a que qualquer momento me posso ver privada.
    Beijinho, tem um bom fim de semana.

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  3. Sacana do miúdo
    Obrigada, bom fim de semana.

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  4. Bom dia, Romi

    Mal escrito, mas entendível, penso - "e piu se muove". Mais ou menos isto, que as líguas batem-me nos ouvido e não entram.
    Zé Onofre

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  5. Um dos meus sonhos, é um dia escrever bem. Vou tentando, talvez um dia consiga. Obrigada pela critica. E peço desculpa pelo constrangimento do bloqueio no ouvido. E se me poder ajudar a melhorar, ficarei eternamente grata.
    Bom fim de semana, Zé Onofre.

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  6. Adorei
    Adorei a perspetiva "negacionista" e todas as peripécias relacionadas. As crianças são mágicas e tomam o nosso coração de assalto!
    Beijinhos e só te posso dizer que espero que este post vá para os Destaques pois é absolutamente merecido!!
    Amei!!

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  7. no final tudo corre bem, e gostas mesmo dele . aproveita esse pequenos momentos.

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  8. Vê lá se vem aí a ASAE das crianças e lê o post na diagonal.
    Muito giro. O pirralho tem sorte.

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  9. Nem pensei nisso, melhor apagar o post

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  10. Á e tal afinal...
    Beijinho Romi, bom domingo

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  11. Fui apanhada na curva, quando me armo em durona corre-me sempre mal
    Beijinho, meu amigo.

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  12. Que bonita cumplicidade!
    Bom domingo!
    Beijinhos

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  13. Obrigada, beijinhos. Bom domingo.

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  14. Desculpe que lhe diga, Zé Onofre: mesmo que fosse verdade, que não é, não havia necessidade...

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  15. Muito muito bom. Inicialmente deixa no ar a dúvida dissipada por um humor, de certa forma negro, realmente de meu gênero 👏✌️

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  16. A ideia era essa, também sou fã do humor negro. Aliás, é a única cor que tolero no humor.
    Obrigada, um abraço.

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  17. Obrigada, Miguel. Mas acho que tal como eu, também interpretou mal as palavras do Zé, que até tem sido bastante simpático comigo, por isso estranhei e fui averiguar.
    "Eppur si muove ou E pur si muove é uma frase polêmica que, segundo a tradição, Galileu Galilei pronunciou depois de renegar a visão heliocêntrica do mundo perante o tribunal da Inquisição." Wikipédia
    Quando o Zé refere que está mal escrito, mas entendível, refere-se à forma, como escreveu "e piu se muove", justificando que as palavras batem no ouvido e não entram, daí a duvida se seria a forma correta de escrever a frase. O paralelo é que tanto eu como Galileu estamos em negação.
    As minhas desculpas ao Zé Onofre. A minha enorme gratidão ao Miguel, que fez o que também costumo fazer quando detecto uma injustiça.
    Um beijo aos dois.

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  18. Boa tarde, Romi
    Talvez tenha sido mal interpretado o que escrevi.
    Nunca iria criticar a escrita de alguém quando eu não sou nenhuma perfeição, antes pelo contrário.
    Eu é que sou duro de ouvido, nem o inglês sou capaz de entender e falar mediocremente.
    Finalmente, quis citar o julgamento de Galileu. Foi obrigado a renegar a teoria de que a Terra é que se move à volta do Sol. À saída do tribunal da inquisição disse, agora em português, "e, contudo, move-se."
    Ora a Romi fez-me lembrar o Galileu. em todo o texto diz quão "aborrecido" é ficar com o Pimpolho.
    Porém no fim faz um gesto - o piscar de olhos cúmplice com o pimpolho - que entendi como a negação de todo o relato, traduzindo a expressão de Galileu - "e contudo divirto-me com ele.
    Peço desculpa pela apreciação que fiz de modo a não revelar com clareza o que queria dizer.
    Zé Onofre



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  19. Boa tarde, Miguel Lucas
    Antes de lhe esclarecer o que quis dizer com a apreciação que fiz ao texto da Romi expliquei-me junto dela.
    Agora que aqui cheguei vi que a Romi já lhe explicou, como eu me expliquei a ela, o sentido da mensagem.
    Não vejo necessidade de a repetir.
    Contudo obrigado por me chamar a atenção para os comentários que faço. Já não é a primeira vez no dia a dia, cá em casa, que faço comentários tão sintéticos que ficam a olhar para mim. E eu que queria falar pouco lá me vejo obrigado a gastar mais palavras.
    Sempre que tiver dúvidas sobre algum comentário meu que leia no seu blog, ou em algum dos seus amigos, amigas, faça o favor de me questionar qaue eu me explicarei.
    Zé Onofre

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  20. Tal como percebeu, foi essa a explicação que dei ao meu amigo Miguel. O seu comentário foi um tanto confuso e daí a mal interpretação. Mas reforço que serei sempre receptiva a criticas. O Zé foi das primeiras pessoas que "conheci" aqui, tem toda a minha admiração e respeito, por toda a cordialidade que o caracterizam. Peço desculpa pelo equivoco, mais uma vez. Grata pelo tempo dispensado na resolução.

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  21. Olá aos dois. Ainda me ri um bocado com toda esta trapalhada. Relendo agora o comentário do Zé Onofre, depois de ler as vossas respostas, tudo se torna claro como a água. Até associei a frase ao Galileu, mas não entendi o que pretendia dizer... Fiquei estupefacto com a suposta injustiça e indelicadeza e resolvi intervir. E afinal eu é que fui injusto. Ainda bem que tudo se esclareceu. As minhas desculpas por esta confusão e boas escritas!

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  22. Eu tive o meu momento de glória, não me o roubem se faz favor, não é todos os dias que me defendem em praça pública (risos). Ninguém foi injusto, e felizmente ainda há pessoas com empatia. Considero o teu gesto nobre. Tudo está bem quando acaba bem, somos humanos e civilizados, só podia correr bem. Um abraço e muito grata mesmo.

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