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Por Carla...

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  A minha mão sobre a da Carla. Eu e a Carla não éramos as melhores amigas. Por culpa minha, não é fácil ser minha amiga. Só estávamos juntas nos jantares de grupo. Num desses jantares, recebemos pulseiras iguais, daí a fotografia. A Carla faleceu precocemente. Temos várias fotos juntas, mas esta simboliza as vezes em que lhe podia ter dado a mão e só o fiz num momento fútil. As mãos tocam-se, mas o que verdadeiramente as une são os objetos, não o gesto. Nunca fui fácil de acompanhar ou de decifrar, e isso afastou-me do essencial, como dar a mão no momento certo. Vivo bem com isso. O mundo transborda de boas pessoas e conforta-me saber que não faço mal a ninguém. Gosto das pessoas na ausência, canso-me delas na presença. Não é frieza, é defesa. Talvez gostar à distância seja a minha forma imperfeita de amar.  

Compasso de espera...

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  Ainda não passou um mês desde que a minha gata partiu, e já perdi a conta às vezes que me sugeriram adotar outra. Como se a sua ausência fosse um mero inconveniente: uma camisola que se rasgou, um sapato que descolou e urge substituir. Quem nunca criou uma relação verdadeira com um animal, quem nunca partilhou brincadeiras, afeto e rotinas, dificilmente compreende que a perda não é “só um gato”. É família. É a ausência de uma companhia que, durante quinze anos, fez parte da minha vida. A sugestão de “adotar logo outro” é fria, porque ignora o luto, a memória e o espaço que ainda está dolorosamente preenchido, o lugar que é dela. É uma ligação intemporal: não se apaga, não se substitui. Ninguém substitui um familiar que morre. Os nossos animais não são objetos de estimação; são seres com quem partilhamos amor. Eu sei que não é por maldade; é antes uma forma de cuidado, uma tentativa de me oferecerem companhia no vazio que ficou. Um remendo, como se um novo afeto pudesse costurar de im...

Reflexo da ausência ...

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  Hoje, um avião sobrevoou a casa com um barulho ensurdecedor. Corri, instintivamente, para a minha gata. Queria protegê-la, como sempre, do medo que os ruídos lhe traziam. Mas ela não estava.     Não abriu os telejornais. Não foi notícia de primeira página Nem mereceu um canto discreto na capa dos jornais. Ninguém soube. Ninguém se importou. Como se fosse coisa pouca. E eu, destroçada, sem ela para me consolar. A morte, impiedosa, resgatou-ma. E eu, impotente, limitei-me a vê-la partir em forma de alma gentil ... ficando eu cá na terra sempre triste...   Esbarro na sua ausência. Apesar de a sentir pela casa toda. Tinha o dom de preencher silêncios. De se enroscar nas minhas rotinas. Onde arrumo isto que sinto? Como me dispo desta saudade, imensa, sem retorno? Como se faz? Eu não sei.

O mundo tornou-se um lugar menor...

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      Ficarás para sempre em cada silêncio da minha saudade...