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O Chinelo, a Sopa e a Ausência do Príncipe...

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Eu também me acho uma pessoa estranha e sei que certas coisas inusitadas que me acontecem são fruto da minha capacidade de vestir a pele das personagens que os livros me oferecem. Gosto do chá Earl Grey porque, num livro de Ellery Queen, uma Mrs. não-sei-das-quantas só bebia esse chá. Mas o pior são as síndromes de que padeço, todas com a mesma origem. A uma delas dei o nome de Síndrome da Noctofobia Cinderélica (não confundir com nictofobia). Eu explico: a história da Cinderela sempre me acompanhou. Sofri horrores com medo de que ela se transformasse em abóbora caso as doze badaladas a apanhassem na rua. Não sei quando começou, mas sei que é mais forte do que eu: esteja onde estiver, com quem estiver, com o aproximar da meia-noite, desapareço a grande velocidade. No limite, o barulho da porta a fechar tem de coincidir com o som da última badalada. Era a noite branca. A festa na praia até estava a correr bem. Mas, com o anoitecer, vieram as minhas inquietações. Os meus olhos, impacient...

Feitiço à primeira vista…

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Eu nem sou de fazer perguntas, mas fiz. De forma desajeitada, claro, falta de hábito. Perguntei o que fazia, senti que ele dava o mote para que o fizesse. “Sou Bruxo”, disse ele. “Bruxo Dorian Crow. Qualquer coisa, pergunte por mim. Toda a gente me conhece.” E chamou-me querida. Estranhei um bruxo não saber o meu nome. O sorriso dele, por entre o cabelo comprido e negro, era simpático. Os olhos muito verdes, quase transparentes. Era um bruxo com ar de príncipe, ou de surfista. Eu acredito em bruxos. Em bruxas, nem tanto, embora em espanhol digam que las hay. Não é próprio de uma pessoa civilizada acreditar em bruxos. O que me leva a crer que a minha civilização já não é o que era. O mais dramático é que nem me preocupo com isso. Fiquei feliz, por acreditar que alguém olha para mim e sabe a minha vidinha toda, inclusive o meu futuro. Sem que eu tenha de dizer “ai”. Somos amigos, suponho. Viajámos juntos, dormimos juntos (no banco do comboio, bem entendido). Aliás, ele é que me acordou q...