Feitiço à primeira vista…

Eu nem sou de fazer perguntas, mas fiz. De forma desajeitada, claro, falta de hábito. Perguntei o que fazia, senti que ele dava o mote para que o fizesse.
“Sou Bruxo”, disse ele. “Bruxo Dorian Crow. Qualquer coisa, pergunte por mim. Toda a gente me conhece.”
E chamou-me querida.
Estranhei um bruxo não saber o meu nome.
O sorriso dele, por entre o cabelo comprido e negro, era simpático. Os olhos muito verdes, quase transparentes. Era um bruxo com ar de príncipe, ou de surfista.
Eu acredito em bruxos. Em bruxas, nem tanto, embora em espanhol digam que las hay.
Não é próprio de uma pessoa civilizada acreditar em bruxos. O que me leva a crer que a minha civilização já não é o que era.
O mais dramático é que nem me preocupo com isso. Fiquei feliz, por acreditar que alguém olha para mim e sabe a minha vidinha toda, inclusive o meu futuro. Sem que eu tenha de dizer “ai”.
Somos amigos, suponho. Viajámos juntos, dormimos juntos (no banco do comboio, bem entendido). Aliás, ele é que me acordou quando chegámos ao destino, há quem seja amigo por menos. Ter um amigo bruxo é do outro mundo, que orgulho.
Indiferente às minhas reflexões sobre a amizade, o meu amigo bruxo, ruma, rua abaixo, sem dizer adeus, à velocidade de TGV, e deixa-me sozinha a contas com o GPS, para descobrir o hotel.
Decididamente, não reúne condições para ser meu amigo. Apesar de não ser bruxa, eu própria adivinhava que as coisas não iam ficar por ali. Não me podem chamar querida e ignorarem-me só porque sim. Toda a gente o conhece, não é?
Senti-me, verdadeiramente a Mrs Pollifax, sem guarda chuva, mas com um mistério para resolver.
A primeira pista, a única, era o nome: Bruxo Dorian Crow. Procurei no Google por Bruxo Dorian Crow e, para minha surpresa, o primeiro resultado foi um bar. Não um bruxo, mas um bar. Bruxo's Bar Dorian Crow . Fiquei entre o desapontamento e a curiosidade, mas a curiosidade foi mais forte. O GPS indicava que era a poucas ruas dali, num beco perto da praia. A porta do bar estava aberta, convidativa, e lá dentro, atrás do balcão, estava ele. O Dorian (nome artístico, suponho). Entrei. Ele levantou os olhos, como se já soubesse que eu ia aparecer.
“Olá, querida.” O bar inteiro pareceu ecoar a palavra, e eu percebi que não era apenas uma palavra. Era uma promessa.
Ainda hoje não sei se entrei num bar… ou no feitiço do destino.
Esta não é uma história de ficção; qualquer semelhança com a realidade é pura magia (ou vice versa).
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