O sabor das palavras...

Nuno Júdice. Porque hoje não me apeteceu jantar sozinha, acompanho-o nessa tentativa de guardar o impossível. A solução encontrada: a estrela brilha no poema, transformada pelo poder das palavras. 


Que prazer jantar consigo, meu querido Nuno Júdice.


Num gesto altruísta, partilho um pouco dessa companhia. 


 


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ASTRONOMIA 


"Vou buscar uma das estrelas que caiu


do céu, esta noite. Ficou presa a um


ramo de árvore, mas só ela brilha,


único fruto luminoso do verão passado.


Ponho-a num frasco, para não se


oxidar; e vejo-a apagar-se, contra


o vidro, à medida que o dia se


aproxima, e o mundo desperta da noite.


Não se pode guardar uma estrela. O


seu lugar é no meio de constelações


 



e nuvens, onde o sonho a protege.



 


Por isso, tirei a estrela do frasco e


meti-a no poema, onde voltou a brilhar,


no meio de palavras, de versos, de imagens."


 


Volta até mim no silêncio da noite



"Volta até mim no silêncio da noite

a tua voz que eu amo, e as tuas palavras

que eu não esqueço. Volta até mim

para que a tua ausência não embacie

o vidro da memória, nem o transforme

no espelho baço dos meus olhos. Volta

com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário

vestido com a mortalha da névoa; e traz

contigo a maré da manhã com que

todos os náufragos sonharam."


 

 


Nuno Júdice

Comentários

  1. Se perde o brilho quando o queremos / O dia é escuro quando não o vemos / e a estrela não deixou de brilhar / Porque nosso sonho se fez cadente.

    Há, pois tem que haver, no egocentrismo do Homem um mundo inteiro para si, todas as justificações possíveis, todos os planos pensados e desculpas dadas na falha da palavra... Há, pois há de certeza, na companhia uma força solitária que outro mundo trás à mesa.

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  2. Linda foto, com o horizonte limpo. Bom final de semana!

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