PAUSA PARA UM CAFÉ...
A frase "vamos tomar um café" tornou-se banal. Um acto de socialização bem aceite e que faz sentido praticar até com quem mal conhecemos ou acabámos de conhecer. Tomar um cafézinho é o mote para estabelecer uma relação, ainda que breve. Há dias, chovia torrencialmente, dei abrigo, no meu minúsculo chapéu de chuva, a um senhor que estava completamente desprotegido de artefactos impermeáveis. Rimos imenso, conversámos o possível e atravessámos estradas com a água pelo tornozelo. Encharcados os dois, na cumplicidade ímpar de quem sabe que o chapéu de chuva não serve de nada quando um dilúvio desaba sobre nós. Passar por isso sozinha seria uma maçada, partilhar a situação com um estranho foi um alívio. Chegados ao destino, estação de comboios, o inevitável convite: "Vamos tomar um café?"- Podia ter-me pedido em casamento, convidar-me para uma viagem à volta do mundo, podia ter-me até convidado, num plano mais radical, surfarmos a onda da Nazaré. Mas não! Convidou-me para um café. Tomar um café é coisa séria, não se faz por dá cá aquela palha. Não se toma um café encharcado e à pressa, quando se espera um comboio. Tomar um café obedece a um ritual e preceitos que não estavam reunidos na altura. É banal tomar um café só porque sim, mas o café que realmente nos aquece, baseia-se, simbolicamente, no pacto de estabelecer laços. Ou de dar continuidade a laços estabelecidos. É um compromisso.

Que belo e molhado café com um desconhecido. Ai, as afinidades. Fizeste-me tirar do baú uma memória do muito chuvoso Inverno de 2021. Estava na Galiza a segurar o guarda-chuva à espera de Táxi com a rua transformada em rio, quando se aproximou um senhor de gabardina ensopada. Abriguei-o. Agradeceu e resolvemos dividir o Táxi até às Devesas, ele ia apanhar o comboio para Sul, eu fiquei já ali, a mais 300 metros, onde vivia. Não houve pedido de casamento, nem sequer convite para café, suponho, já que a minha memória é péssima. Para dizer a verdade não me recordo minimamente do rosto do homem. Mas às vezes quando estou no meio de um dilúvio lembro o momento, que desenterraste agora com o teu post. Obrigada. 😊
ResponderEliminarComeça bem a semana. Beijinho.
*2001 e não 2021 ... foi há bués
ResponderEliminarDiga lá Romi: é o segundo café tomado, não é?
ResponderEliminarBom proveito. E um beijinho. Já sei a receita para qualquer esbarramento.
Eu também não tomei café com ele. Ele também não me pediu em casamento nem surfámos a onda da Nazaré, o ingrato.
ResponderEliminarAdorei a tua história. Também não me lembro da cara do meu, sei que era muito alto (como eu gosto).
O meu foi mais recente, há cerca de três anos. Apareceu-me nas memórias do face e partilhei aqui.
ResponderEliminarEsbarramento ou embirramento? (risos)
ResponderEliminarE é o segundo café, mas como há fregueses novos pode ser que resulte.
Beijinho, boa semana.
"sei que era muito alto (como eu gosto)"
ResponderEliminarCaramba, mais afinidades. Não serás a irmã gémea que que eu imaginava em criança?
O que conta é o ato de partilharmos com alguém, nem que sejam umas palavras, e isso fica-nos, na memória, para sempre.
ResponderEliminarBeijinhos, Romi!
Vamos imaginar que sim (risos)
ResponderEliminarVerdade e essa partilha é cada vez mais rara.
ResponderEliminarBeijinho, José.
Tão bonito...poderiam ter surfado a onda da Nazaré, porque não?
ResponderEliminarOu escalar o Everest. Coisinhas assim simples
ResponderEliminarObrigada.
e... foram ou não tomar café?
ResponderEliminarA vida dá-nos momentos inesperados, que nos ficam na memória
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