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Porque sim ...

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     Porque eu gosto de chuva, dias enevoados, arroz doce quente, um bom livro. Tudo no mesmo dia...

Amores, desamores, afinidades e Mrs. Pollifax …

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Já aqui falei na Mrs. Pollifax (se não foi aqui, foi ali, é igual) e hoje lembrei-me dela. Estava um sol envergonhado, não quis arriscar e voltei a casa buscar o chapéu de chuva. A Mrs Pollifax anda sempre com um chapéu de chuva. Não me surpreenderia se descobríssemos outras manias em comum. Arrisco mesmo a apostar que Mrs. Pollifax, tal como eu, começa a procurar a chave de casa dois quilómetros antes de chegar. E, no campo das afinidades, tenho a certeza de que ela partilha a minha filosofia: só gosta de quem gosta dela. Por esta simples regra de reciprocidade, é muito provável que Mrs. Pollifax goste de mim. Afinal não choveu. Que maçada, queria estrear o meu chapéu de chuva novo. Também queria começar a ler  “Os Reinegros” de Alves Redol e não comecei. Não sei se Alves Redol gostaria de mim. Temo que não. Eu gosto dele, desde que a minha madrasta me comprou o “Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos.” Comecei a ler contrariada, sabia que a intenção dela era desviar-me dos livros...

Lágrimas de Vidro...

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  Chuva e vento desassossegados falam uma linguagem que não domino. Cúmplices no homicídio qualificado, na forma tentada, de afogar o outono. O abacateiro suporta firme a enxurrada. A água que não sustem desliza em cada folha como se fossem lágrimas. Por trás da vidraça, testemunha silenciosa, em apneia, para não perturbar o momento...

Falácias e Chocolate Quente...

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  Se viveria num país tropical? Sem hesitar, sim, sempre. Mas não deixo de ter um certo apreço por estes dias cinzentos, de chuva fina. Sem vento. Não gosto do vento, na mesma proporção em que ele não gosta de mim. A nossa relação é de mútua e fria indiferença. Pode considerar-se esta afirmação uma falácia patética, admito. Um erro de lógica que atribui sentimentos a algo inanimado. Mas eu e as falácias convivemos bem. E eu sei sempre quem gosta, ou não, de mim: sejam animais, coisas, pessoas, estados meteorológicos, meses, dias, horas ou segundos. Um eco que me sussurra "bem-vindo", ou uma sombra me adverte: "passa à frente.” E eu obedeço. Hoje, chove como eu gosto: sem frio e sem vento. Saí para a rua, toda eu sorrisos, debaixo daquela chuva que molha parvos. E molhou-me a mim. De volta a casa, preparei um chocolate quente, pus Tom Waits  a cantar baixinho e abri um livro. A chuva, lá fora, acompanhava o som da voz e o virar das páginas. E, por um breve instante, senti...

Quando, Simplesmente, Chove...

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      Já aqui estive antes. Não me refiro ao lugar… Refiro-me ao instante. Chovia… Como acontece muito quando chove. A chuva torna a noite  silenciosa.   Gosto mesmo de momentos! Quero apenas cinco minutos…   Vou só ali apanhar chuva. O momento em que me abraço E fico simplesmente  deixar a chuva acontecer. Cada gota chama o meu nome.   Depois, molhada, desnorteada Finjo que é domingo E invento mais um momento Até a chuva passar.   Só quero cinco minutos.   A solidão é a única companhia quando, simplesmente, chove. Hoje, simplesmente, chove.    

Ritual de Ausências...

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  Continuo a por mesa para dois  mesmo quando o sol se põe.    Continuo a alinhar conversas  em ângulos inconstantes.    Continuo a perder-me em vulgaridades  quando me sinto desarticulada de mim.    Contínuo mimada, insuportável  no modo mais discreto que consigo.    Chovem-me lágrimas na memória e sufocam-me não sei porquê quero secá-las mas não sei como...  

A VISTA DA MINHA JANELA...

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      Dia cinzento. Educadamente cinzento...  

PAUSA PARA UM CAFÉ...

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A frase "vamos tomar um café" tornou-se banal. Um acto de socialização bem aceite e que faz sentido praticar até com quem mal conhecemos ou acabámos de conhecer. Tomar um cafézinho é o mote para estabelecer uma relação, ainda que breve. Há dias, chovia torrencialmente, dei abrigo, no meu minúsculo chapéu de chuva, a um senhor que estava completamente desprotegido de artefactos impermeáveis. Rimos imenso, conversámos o possível e atravessámos estradas com a água pelo tornozelo. Encharcados os dois, na cumplicidade ímpar de quem sabe que o chapéu de chuva não serve de nada quando um dilúvio desaba sobre nós. Passar por isso sozinha seria uma maçada, partilhar a situação com um estranho foi um alívio. Chegados ao destino, estação de comboios, o inevitável convite: "Vamos tomar um café?"- Podia ter-me pedido em casamento, convidar-me para uma viagem à volta do mundo, podia ter-me até convidado, num plano mais radical, surfarmos a onda da Nazaré. Mas não! Convidou-me par...

DIA DE CHUVA...

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  Chuva e vento desassossegados. Falam uma linguagem que não domino. Cúmplices no homicídio qualificado na forma tentada de afogar o verão. O abacateiro, suporta firme a enxurrada. A água que não sustem desliza em cada folha como se fossem lágrimas. Por trás da vidraça Testemunha silenciosa em apneia para não perturbar o momento...