A MINHA AVÓ (MEMÓRIAS)...

A minha avó não era uma pessoa de afectos. Lembro-me , em miúda, sempre que caminhávamos, eu ficava ligeiramente para trás, e sem lhe tocar, colocava a minha mão na direção da mão dela, para na sombra criar a ilusão de que íamos de mãos dadas. 


Também não era pessoa de ralhar ou castigar. Tinha uma maneira áspera de falar, mas era a maneira dela. A única vez que deu um castigo, não me deixou mágoas. Seriam cerca das sete da tarde, ela tinha de sair, e deixou-me encarregue de descascar as batatas para o jantar. Tinha um cão que a adorava, era recíproco. Por mais que me esforçasse, o cão não me ligava nenhuma. Nessa tarde, talvez  sentido por ela não o ter levado, e estando eu sentada ao lume, veio pela primeira vez aninhar-se no meu colo. Fiquei estática, temia que o meu respirar o afastasse. Aquela coisinha peluda permitiu que lhe fizesse festas e adormeceu como um bebé. Chamava-se Boby.  Na terra todos os cães se chamavam Boby e os gatos Tareco. 


Algum tempo depois, ainda a minha avó não tinha aberto a porta e já o Boby estava aos pulos e a latir, feliz com a chegada dela. Ela não o viu no meu colo, nem viu as batatas descascadas. E de castigo fui para a cama sem jantar.


Não sei precisar quanto tempo depois, quando se é criança não se tem a noção de tempo, foi levar-me uma caneca de leite quente e três bolinhos. Tive oportunidade de lhe explicar porque não lhe obedeci em relação à tarefa. Ela  percebeu. Pela primeira vez aconchegou-me a coberta e deu-me um beijo na testa e desejou-me boa noite ... 


Já crescida, consegui a proeza de a trazer a Lisboa. Como enjoa nos carros fui buscá-la de comboio. Lá estava a minha avó, vestida de preto e com um avental novo, preto com pintinhas brancas. Sempre a conheci de avental e lenço na cabeça. Trazia dois volumes, um quis-me parecer que seria o farnel. E não me enganei. Mesmo que a viagem dure três horas é ponto assente que o farnel está na ordem do dia. Desta vez até era muito soft, pão com queijo para mim, não em formato sandes, fatia de pão e naco de queijo de cabra. Para ela, que não podia comer muito sal, naco de pão com uma omelete, acondicionada numa caixa que tinha sido de margarina. Um termo com cevada e leite para as duas. Os pastéis que eu tinha comprado  jazeram envergonhados no fundo da minha mala e atiramo-nos ao repasto assim que entrámos no comboio. Ninguém disfarçou que estava a olhar para nós e nós raladinhas. Gosto destes momentos com a minha avó porque é nestes momentos que ela gosta de mim. As coisas na cidade correram dentro do previsto. Gostou de visitar o jardim zoológico e achou um tédio o oceanário. Nunca a consegui levar a um restaurante, andámos sempre de farnel a tiracolo e sempre que comia um gelado, algo que gosta muito, soprava-lhe como se não houvesse amanhã. O defeito dos gelados é serem muito frios (risos). Fomos à extinta Feira Popular, adorou o comboio fantasma, riu de gargalhada. Afligiu-se com o senhor da mota no túnel da morte, comeu algodão doce, porque dias não são dias, e levou pipocas para casa que comeu no dia seguinte para não abusar da sorte. Foi embora quando quis e quis ficar poucos dias. 

Comentários

  1. A minha Avó (minhota) era assim. Só gostava de estar na quinta, tinha a sua cadela e gatos siameses que adorava e tratava com todo o desvelo quando os tansos se queimavam nas brasas do borralho. Para além disso era uma profunda conhecedora de capoeiras e chocadeiras. Minha madrinha, imensas saudades dela.
    Gostei muito, vi muitos potos de semelhança.
    Bom fim de semana Romi.

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  2. Todos mereciam uma avó assim, na sua maneira muito particular de amar. E é isso, deixam sempre uma saudade imensa...
    Um beijinho e muito obrigada.
    Bom fim de semana

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  3. As avós e os seus eternos farnéis, já algumas tias minhas fazem o mesmo

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  4. Como adorei esta crónica. A minha avó materna também era muito assim, certas partes da tua partilha fez-me lembrar dela!
    Beijinhos mil, uma boa tarde 🌼

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  5. Beijinhos, querida Sandra. Obrigada

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  6. Eu também adoro farnéis

    Bo tardinha

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  7. Não me lembro da minha avó mas lembro-me do meu avô.
    Bruto e austero para ela e para a filha, minha mãe, terno, doce e meigo para mim. Separei-me dele, avô e dela avó aos cinco anos, nunca mais os vi.
    Feliz resto de dia e dia de amanhã e seguintes.

    Um beijinho

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