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Para Onde Vão os Guarda-Chuvas...

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  Para Onde Vão os Guarda-Chuvas de Afonso Cruz Um livro que prende pela palavra e não pela ação. Um conjunto de metáforas interessantes, uma narrativa que cativa, mas que nunca chega a criar verdadeiro suspense. O enredo é fraco e tardio. Há uma certa urgência em chegar ao final, causada pelo cansaço provocado pelas cerca de 200 páginas iniciais, excessivas e, muitas vezes, supérfluas. Não interessa verdadeiramente o que vai acontecer, nem a quem. Apesar da empatia por uma das personagens, Isa, não é por aí que o livro prende. Prende pela esperança de surpreender. De ainda conseguir surpreender. Às vezes, um capítulo, uma página ou até um parágrafo conseguem salvar um livro. A escrita é fluida e não chega a maçar, mas havia potencial para mais. Tem 590 páginas. Neste caso, menos teria sido mais. Ainda assim, acho que o livro tem mérito literário genuíno. Não me parece vazio nem pretensioso no mau sentido. Só me parece um livro que privilegia tanto a textura da escrita que acaba po...

O Amor É Uma Dor Fantasma...

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    Sou um intervalo, não uma chegada. Vivo suspensa entre o impulso e a desistência, nesse espaço intermédio onde nada se cumpre por inteiro. Há dias em que me sinto uma frase interrompida, um pensamento que se perdeu. Carrego versões de mim que nunca coincidem, rostos que o tempo desfoca antes de os conseguir compreender. Daí este desgaste silencioso, quase antecipado, como se a vida doesse pela fadiga antes mesmo de acontecer. Não sou realização, mas também não sou o vazio absoluto. Sou a consciência contínua da incompletude, feita de ausências, de tentativas e de páginas viradas sem enredo. O amor é uma dor fantasma: uma ausência que insiste em ficar presente. Não sei se é memória, hábito ou desejo. Sei apenas que permanece, mesmo depois de tudo o resto partir. Sou isto, talvez. Um lugar suspenso, sem chegada e sem partida.

Memórias. Quando me morreste, pai…

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Para o meu pai, que gostava de jazz. Espero que esta música lhe chegue, de algum modo, e lhe seja agradável. Há muito que me apetecia escrever sobre isto, sobre a morte do meu pai, sobre o que ficou, o que se partiu e o que ainda hoje não sei nomear. Falta-me sempre a coragem certa para voltar a esse lugar. Ao ler Morreste-me , do Luís Peixoto, encontrei uma espécie de espelho que não julga nem explica, apenas reconhece. Foi aí que percebi que também eu precisava de dizer, de alguma forma, aquilo que ficou suspenso. Este texto nasceu dessa identificação e dessa necessidade tardia de dar forma ao que a memória insiste em não deixar fechar. Cuidados paliativos. Uma sala, com defuntos adiados, pálidos como se já pertencessem ao dia seguinte. Também lá estavas, pai. A tua mão na minha, abandonada, sem força para apertar ou retirar. E eu, sem força para reter as lágrimas que não deixei cair. Lia-te o jornal. Inventava notícias boas sobre o Sporting. Inventava que já estava tudo preparado pa...

Um poema da nova antologia de António Lobo Antunes

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  NÃO DISSE NADA AMOR (bolero) Não disse nada, amor, não disse nada: Foi o rio que falou com a minha voz A dizer que era noite e é madrugada A dizer que eras tu e somos nós. A dizer os mil rostos de Lisboa Ao longo do teu rosto se te beijo. À luz de um pombo chamo Madragoa E Bairro Alto ao mar se te desejo. Não disse nada, amor. Juro, calei-me: Foi uma voz que ao longe se perdeu. Cuidei que era Lisboa e enganei-me Pensei que éramos dois e sou só eu. https://www.bertrand.pt/blogue-somos-livros/poemas-que-salvam-o-dia/artigo/tres-poemas-da-nova-antologia-de-antonio-lobo-antunes/288987

A Filosofia da Batata…

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O Luís Filipe diz que não concebe uma mesa de refeição desprovida de pessoas. E como eu o percebo. Também me é difícil imaginar um bife desprovido de batatas fritas.

Feira do Livro...

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  Ir à Feira do Livro num feriado implica um maior movimento de pessoas, que não me incomodam, porque são anónimas. Este ano só comprei três livros, a intenção era marcar presença. A tradição ainda é o que era. Claro que eu e a  Ana T., num esforço de memória, não conseguimos recordar o número exato de anos que vamos juntas à Feira do Livro. Há, porém, uma coisa de que não nos esquecemos: a feira, uma sem a outra, não é a mesma coisa. Hoje tivemos a companhia de uma amiga. Talvez a tradição se altere.

A Plataforma dos Ausentes…

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  Numa visão romântica, o livro sugere que Leo Tolstoi escolheu uma viagem de comboio para morrer. A autora apropria-se dessa forma de morrer e transporta-a para si. Isso trouxe-me à memória os sonhos que tive com o meu pai depois de ele falecer. Num desses sonhos, o velório decorria numa estação de metro. Quando a composição chegou, as portas abriram-se, a urna foi colocada lá dentro, as portas permaneceram abertas e ele seguiu viagem. Eu fiquei sozinha na plataforma, a despedir-me dele num longo adeus, até a carruagem desaparecer. Gostava que o meu enterro fosse assim. Morrer sentada numa carruagem de comboio e seguir diretamente para o além, sem flores, sem velas e, provavelmente, sem despedidas. A não ser que alguns dos que já partiram tivessem essa disponibilidade: a Paulinha, o Mário Rui e o meu tio espanhol, o tio Bernardino. Os três na plataforma da estação, num adeus com sabor a até já. O mais caricato é que estou a escrever isto, inspirada pela referência a Tolstoi num li...

Número Singular (Infinito)...

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Como quem cala meias verdades e ouve falsas mentiras, há uma vida que colecciona vidas e já não conta histórias de pasmar. Sonâmbula, liberta, perfumada, género feminino (gaja), número singular (infinito) e, numa reprimida indiferença, recolho as mensagens caídas no chão. No código dos risos permaneci, como se fosse ontem. Seduzo a sombra do que fui, as barreiras são surdas. O tempo espelha o presente; o futuro esquece a cópia do passado. Uma metáfora camuflada sob a folha murcha de uma biografia que revela uma leitura inacabada. Cresce a consciência do renascer. Talvez um dia eu não me importe de ouvir a porta bater. Talvez um dia eu não me importe que não se levantem para me receber: gestos que tropeçam na indiferença, sem contorno de acção, porque já não importa agradar. Talvez um dia eu não me importe de recolher pedacinhos de mim e formar o puzzle que constrói o destino. Talvez um dia eu não me importe de ignorar palavras mudas, caladas por quem não soube corresponder, nem compree...

Ler, escrever e comer. Sem orar...

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  Eu e a minha consciência temos uma dinâmica muito engraçada, na ótica do utilizador.

Falar do que conheço...

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  Eu também a conheço, aliás, moramos juntas há imenso tempo. A solidão é um estado de espírito. Maioritariamente, nem a sinto. Quando a sinto, não choro. E jamais poria a hipótese de a trocar, fosse por quem fosse. A solidão não me magoa. Esporadicamente, sabe-me bem estar com quem gosto verdadeiramente. Custa-me verbalizar a frase “estar com os meus”, porque sinto, de forma genuína, que não tenho ninguém. Os supostos “meus” têm a sua própria vida, a sua própria família. Não são os meus. São os deles. Vou falar da solidão. Da minha solidão. É viciante. Não chegou de repente. Foi surgindo, ocupa o espaço dela, dá-me espaço. Fiz as pazes com a minha própria sombra. Permite-me existir sem pressa, sem explicações, sem a necessidade constante de presença alheia. Posso fazer o que me apetece como se estivesse sozinha. Mas ela está lá e, quando não está, eu já não sei estar. Não foi uma escolha minha. Fatores alheios à minha vontade é que o proporcionaram. A minha gata fazia parte dessa ...