Falar do que conheço...

 



Eu também a conheço, aliás, moramos juntas há imenso tempo. A solidão é um estado de espírito. Maioritariamente, nem a sinto. Quando a sinto, não choro. E jamais poria a hipótese de a trocar, fosse por quem fosse. A solidão não me magoa. Esporadicamente, sabe-me bem estar com quem gosto verdadeiramente. Custa-me verbalizar a frase “estar com os meus”, porque sinto, de forma genuína, que não tenho ninguém. Os supostos “meus” têm a sua própria vida, a sua própria família. Não são os meus. São os deles.
Vou falar da solidão. Da minha solidão. É viciante. Não chegou de repente. Foi surgindo, ocupa o espaço dela, dá-me espaço. Fiz as pazes com a minha própria sombra. Permite-me existir sem pressa, sem explicações, sem a necessidade constante de presença alheia. Posso fazer o que me apetece como se estivesse sozinha. Mas ela está lá e, quando não está, eu já não sei estar.
Não foi uma escolha minha. Fatores alheios à minha vontade é que o proporcionaram. A minha gata fazia parte dessa solidão, como se fôssemos a solidão uma da outra. Ela não tolerava mais ninguém.
Não preciso de me alongar. Não há grande novidade no que se possa dizer sobre a solidão. Claro que eu tenho uma visão romantizada, e não sou a única. Sei que há quem a tema, sem que a tenha vivido. E há quem a rejeite, porque lhe pesa demasiado. Compreendo isso. Talvez nem todos tenham encontrado formas de a tornar habitável, de a suavizar sem a negar.
Ouço muitas vezes: “gosto de companhia, mas preciso dos meus momentos de solidão.” Para mim, isso soa a infidelidade. A solidão não se permite pela metade, não se parte em intervalos. Quando existe, ocupa tudo. Quando não existe, não é solidão. É algo inerente à condição humana.
Quebrar a solidão é sempre uma concessão ao dever. Há o resto do mundo, esse ruído inevitável que me obriga a sair de mim: o trabalho, a rotina, os comboios dos dias, as socializações por mera obrigação moral. São apenas pequenas invasões, lapsos de tempo num território que, no fundo, regressa sempre a mim. É soberanamente meu por usucapião.

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