Memórias. Quando me morreste, pai…


Para o meu pai, que gostava de jazz. Espero que esta música lhe chegue, de algum modo, e lhe seja agradável.



Há muito que me apetecia escrever sobre isto, sobre a morte do meu pai, sobre o que ficou, o que se partiu e o que ainda hoje não sei nomear. Falta-me sempre a coragem certa para voltar a esse lugar. Ao ler Morreste-me, do Luís Peixoto, encontrei uma espécie de espelho que não julga nem explica, apenas reconhece. Foi aí que percebi que também eu precisava de dizer, de alguma forma, aquilo que ficou suspenso. Este texto nasceu dessa identificação e dessa necessidade tardia de dar forma ao que a memória insiste em não deixar fechar.



Cuidados paliativos. Uma sala, com defuntos adiados, pálidos como se já pertencessem ao dia seguinte. Também lá estavas, pai. A tua mão na minha, abandonada, sem força para apertar ou retirar. E eu, sem força para reter as lágrimas que não deixei cair.

Lia-te o jornal. Inventava notícias boas sobre o Sporting. Inventava que já estava tudo preparado para a festa da tua chegada. O Eng. João Pires tinha conseguido algumas garrafas da Quinta de Portlobo, o vinho tinto que gostavas de recomendar. O sr. Luís Pio tinha encomendado leitão da Bairrada, e o resto era surpresa.

E continuei:

“Deve parecer-te impossível, pai. Sei que te sentes muito mal, mas faz parte do tratamento. Que susto nos pregaste. Estiveste muito doente. Tememos o pior. Mais dois dias e vais ter alta. A festa da tua chegada. Que festa, pai. Que recepção.”

Eu acreditei na minha mentira. E tu, pai? Sabias quão débil estavas? Magro. Pele e osso. Pálido. Olhos fechados. Os teus olhos verdes fechados. Nem sabia se me ouvias. Queria acreditar que sim, por isso nem perguntei a quem sabia responder.

Morreste-me, pai. E morreram também os teus canários. E o cão. O teu cão. As árvores também morreram. Não de véspera, como tu. Morreram lentamente. Ainda hoje morrem um bocadinho. Poucas continuam a dar fruto.

Quando, de manhã muito cedo, ligaram da clínica a anunciar a tua partida, fiquei feliz, pai. Tão feliz. Agradeci ao meu Deus, que mora por cima do meu olhar, não propriamente no céu. Ainda hoje estou feliz e agradecida pela tua partida, não tão precoce como o meu desejo. Só para não te ver sofrer, pai. Para eu também não sofrer.

Percebi o conceito de “a vida por um fio”.

O velório. Compraram-te um fato novo, pai. Sei que seria do teu agrado. Gravata lisa, camisa lisa, nos tons do fato liso. Estavas lindo.

Lembro-me de ti de fato e gravata. Lembro-me de ti de calças de ganga e polo da Lacoste. Lembro-me de ti com o fato de caça camuflado. Lembro-me de ti. Pai.

Estavas ali, rodeado dos teus familiares e amigos. Muitos amigos.

Eu, quase ausente na minha forma de estar presente, recebia e agradecia a presença dos teus, na tua despedida final. O Telles André, que eu não conhecia, acompanhou-me. Era o melhor amigo de alguém teu que não conseguiu comparecer. E, naquele dia, esteve por ela também. Não veio por ti, pai. Veio para ti e para mim. Foi um apoio enorme. Um conforto. Grata, muito grata, Telles André. Descansa em paz, agora, também.

No dia seguinte, o funeral. Na tentativa de passar despercebida, estava arrasada, fiquei afastada o suficiente para parecer que não estava presente. Um amigo teu, o Dr. Ricardo Salgado, veio dar-me um abraço. Um amigo meu também. E é do que me lembro, pai. Do abraço dos nossos amigos.

Eu não chorei, pai.

Até hoje não chorei o que merecias e o que me apetecia chorar. Devo-te isso. Nunca te consegui chorar o suficiente.

A Impossibilidade de te perder devagar. Às vezes, a saudade dá-nos esperança. Esperança à espera do nada. Eu sei.

Mas não consigo chorar.

Pai.

Comentários

  1. O alívio do fim do sofrimento é o que tem da mandar. As saudades são uma condição da nossa vida. Penso e espero que tenha superado esse momento difícil. Ontem foi a vez da minha única Tia paterna, 102 anos... e sempre vivendo connosco. Está em paz; estão todos em paz.
    Beijinho Romi.

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