O Miguel (memórias)...
O Miguel, de olhos fechados, parecia querer mergulhar nas teclas do piano, que o próprio tocava, para se reerguer, no mesmo instante, e ondulante, abria os olhos lentamente, quase a pedir silêncio, que nada perturbasse as notas que lhe saiam da alma. Fração de segundos, tudo voltava ao normal, na casa de campo. Com um lago cheio de rãs que só se calavam para ouvir o Miguel tocar. Não era suposto eu estar ali. Tinha ido visitar a minha avó, sem a avisar, e a surpresa foi minha porque afinal ela não estava, tinha ido a “Banhos". Nunca percebi o que era ir a banhos. Seria nome de uma terra, seria um tratamento termal? Não perguntei. Nunca fui de fazer perguntas. Ainda hoje. Isso é considerado, por muitos, indiferença. Faço-o na consciência de que as pessoas só dizem o que querem e caso queiram que saibamos algo, é dito sem necessidade de perguntar. O Miguel, companheiro de infância, neto da vizinha da minha avó. Raras vezes a nossa ida "à terra" coincidia. Aceitei, ...