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O Miguel (memórias)...

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    O Miguel, de olhos fechados, parecia querer mergulhar nas teclas do piano, que o próprio tocava, para se reerguer, no mesmo instante, e ondulante, abria os olhos lentamente, quase a pedir silêncio, que nada perturbasse as notas que lhe saiam da alma. Fração de segundos,  tudo voltava ao normal, na casa de campo. Com um lago cheio de rãs que só se calavam para ouvir o Miguel tocar.  Não era suposto eu estar ali. Tinha ido visitar a minha avó, sem a avisar, e a surpresa foi  minha porque afinal ela não estava, tinha ido a “Banhos". Nunca percebi o que era ir a banhos. Seria nome de uma terra, seria um tratamento termal? Não perguntei. Nunca fui de fazer perguntas. Ainda hoje. Isso é considerado, por muitos, indiferença. Faço-o na consciência de que as pessoas só dizem o que querem e caso queiram que saibamos algo, é dito sem necessidade de perguntar.  O Miguel, companheiro de infância, neto da vizinha da minha avó. Raras vezes a nossa ida "à terra" coincidia. Aceitei, ...

O meu Conde...

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    Em arrumações, o quarto que era da Luna. A caixa das fotografias, que guardo sem qualquer significado. Passado morto. Sempre quis entender as pessoas que têm fotos espalhadas pela casa. Penso desfazer-me de umas quantas: as memórias felizes não me tornam mais feliz. Lei do desapego, é este o espírito em dia de arrumações. Eu e o MJ debaixo de um moinho, no parque de campismo da Ericeira. De Porto Côvo. De Algeciras. CCL. Eu e o MJ gostávamos muito de acampar, concluo. Lixo. A festa de aniversário de A, B, C… até ao fim do abecedário. Lixo. Chuva de arroz e pétalas abate-se, num agouro de felicidade, sobre os noivos à saída da igreja.  A, B, C… até ao fim do abecedário. Lixo. Lixo. Lixo. A caixa quase vazia. E surge a Foto. Uma amizade improvável, marcada por uma diferença de quarenta anos. Talvez mais. Suscitou dúvidas. Gerou rótulos. Como se fosse mais uma Lolita de Vladimir Nabokov. A nossa cumplicidade, tranquila, ignorou-os. Meu salvador. Meu confidente. Ríamos. Conversávamos. ...

Anatomia de um nome...

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Pensamento intrusivo. Surge o teu nome. Sem rima, sem rumo, quase a ruir. Memórias pequenas ecoam nas margens, como uma maré que não recua. E salva-se o teu nome na maneira absurda de deixar de ser apenas um nome. Mas há noites, no fim de um serão cansado, em que o teu nome chega antes do sono e encosta-se devagar às paredes do meu peito. E mesmo quando me calo, dizes-te em mim, como quem já não precisa de voz. E quase... é só um nome.    

Ponto sem fuga...

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  Em gesto distraído inventa memórias. Tudo o mais é um mar de silêncio Onde se pescam  gritos. É permitido dizer adeus sem enviar um beijo. E fecha a porta, com quem apaga uma vela E passa a velar-se a si próprio. Faz-se triste na solidão exposta  Ele, chora baixinho, porque ela não volta. Como que esvaída no perfume duma flor que murchou. Em gesto distraído inventa memórias Como quem desenha lágrimas, com lápis de ponta fina Numa página que se rasgou...

Por aí...

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A Torre da polémica, na Covilhã. Inacabada há mais de 40 anos. Falou-se que iria ser demolida, felizmente, e ao que parece, vai ser remodelada. E ainda bem. Desde miúda que é o meu farol, quando a avisto, por norma do comboio, já sei que estou perto. Habituei-me a sabe-la ali, é ali que quero que esteja.    Para mim, Covilhã é uma aldeia grande. Simpática, afável,  em constante evolução e com um nascer do sol fantástico.  As fotos, tiradas em horas e ângulos ligeiramente diferentes. Captadas com o telemóvel, da janela de um quarto andar. A vista, a estação dos comboios.