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Acústica Imperfeita

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A sinfonia áspera dos atritos, o ranger das engrenagens enferrujadas da alma, a acústica imperfeita, o lamento, quebram o silêncio. Curvo-me como uma vírgula e apanho os cacos.  A fricção constante de todas as arestas que a ausência de ruído já não pode limar ou suavizar. Suspendo-me na textura emocional do silêncio fragmentado, repartido num puzzle imperfeito. Morreu o silêncio, este. E é por essa possibilidade perdida que a mágoa cai, pesada e única, na madeira crua do novo ruído que agora me habita. A perda da quietude interior. Desespero assumido. Chore-se, então. Desalmadamente. No descanso sem paz. No adeus sem lenço branco. Velório, funeral e missa do sétimo dia. Cuidarei de manter vivas as flores na campa do silêncio improvisado.  

Reflexo da ausência ...

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  Hoje, um avião sobrevoou a casa com um barulho ensurdecedor. Corri, instintivamente, para a minha gata. Queria protegê-la, como sempre, do medo que os ruídos lhe traziam. Mas ela não estava.     Não abriu os telejornais. Não foi notícia de primeira página Nem mereceu um canto discreto na capa dos jornais. Ninguém soube. Ninguém se importou. Como se fosse coisa pouca. E eu, destroçada, sem ela para me consolar. A morte, impiedosa, resgatou-ma. E eu, impotente, limitei-me a vê-la partir em forma de alma gentil ... ficando eu cá na terra sempre triste...   Esbarro na sua ausência. Apesar de a sentir pela casa toda. Tinha o dom de preencher silêncios. De se enroscar nas minhas rotinas. Onde arrumo isto que sinto? Como me dispo desta saudade, imensa, sem retorno? Como se faz? Eu não sei.

O Lado Vazio...

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    Num ambiente de ruído branco, entro no sono com a destreza de quem domina o presente do indicativo do verbo sonhar. Apagaram-se as estrelas. Fechou-se uma porta. Quero voltar a acordar. Não sei se sei! Dormir é como morrer, com a capacidade de ressuscitar. Fui ressuscitando aos bocadinhos. Uma mão segurava a minha. Não era a tua... ...não ainda!  

A Inércia dos Sorrisos...

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  Esperavas um sorriso. Não sobrou nenhum. Perderam o prazo de validade e a capacidade de se reproduzirem, devido à inércia a que foram submetidos. Sentimentos perdidos em forma de inventário. Eu sem mim dá menos, mesmo elevada ao infinito. Quero-me de volta à minha vidinha suportável, sem medo de uma recaída, porque sou pessimista e gosto. Ser prudente é uma coisa que me irrita. Quero registar emoções a débito, sem lembrar que já fui sólida. A transparência há muito que deixou de me incomodar, porque as garças não passeiam no jardim e a cadeira vazia denuncia uma ausência, conferindo-me a angústia de não saber porquê. Hoje dispo-me de ontem, o que me deixa infeliz duma forma extremamente feliz...

A VISTA DA MINHA JANELA...

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      Dia cinzento. Educadamente cinzento...