Descalços de ruído...

 



Gosto de ouvir, ver e ler Pedro Mexia. “Conheci-o” através do blog Malparado, segundo ele: adjectivo que se encontra em posição desfavorável, pouco seguro, em risco de perder-se. Infelizmente, perdeu-se. Março de 2015 foi a data da última publicação. Eu continuo a visitá-lo. Deixo os sapatos à porta, como se fosse hábito bebermos chá descalços.

Transmite-me serenidade, acalma-me. Pedro Mexia tem esse efeito em mim. A serenidade das palavras escolhidas com precisão, a ironia subtil, a lucidez melancólica. É fácil sentir que estou a beber chá com ele, em silêncio cúmplice, descalços de ruído.


Pedro Mexia

As gavetas

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

De Duplo Império, 1999

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