A Plataforma dos Ausentes…

 



Numa visão romântica, o livro sugere que Leo Tolstoi escolheu uma viagem de comboio para morrer. A autora apropria-se dessa forma de morrer e transporta-a para si. Isso trouxe-me à memória os sonhos que tive com o meu pai depois de ele falecer.

Num desses sonhos, o velório decorria numa estação de metro. Quando a composição chegou, as portas abriram-se, a urna foi colocada lá dentro, as portas permaneceram abertas e ele seguiu viagem. Eu fiquei sozinha na plataforma, a despedir-me dele num longo adeus, até a carruagem desaparecer.

Gostava que o meu enterro fosse assim. Morrer sentada numa carruagem de comboio e seguir diretamente para o além, sem flores, sem velas e, provavelmente, sem despedidas. A não ser que alguns dos que já partiram tivessem essa disponibilidade: a Paulinha, o Mário Rui e o meu tio espanhol, o tio Bernardino. Os três na plataforma da estação, num adeus com sabor a até já.

O mais caricato é que estou a escrever isto, inspirada pela referência a Tolstoi num livro de Alice Vieira, e estou precisamente num comboio. E se, num gesto improvável, o destino decidisse que eu devia morrer agora, aqui?

Imagino a cara de quem encontrasse estas páginas. Não acreditaria numa premonição, mas talvez hesitasse por um instante. Porque há coincidências que, quando acontecem, se recusam a descer na estação errada.

Comentários

  1. Quem faz do caminho o seu caderno de sensações sabe bem que os comboios, as estações e o movimento têm essa capacidade quase mística de nos ligar ao invisível. Essa plataforma de afetos que desenhaste afasta o peso do fim e devolve-lhe a poesia do movimento. Que o destino te guarde por muitas estações ainda, mas que texto magnífico para se encontrar perdido num vagão.

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    1. O comboio é sempre uma fonte de inspiração. Seja em trabalho ou lazer, é o meu meio de transporte preferido. Claude Monet montou um estúdio num barco, eu, se pudesse, alugava uma carruagem e transformava-a na minha casa por tempo indeterminado. Há qualquer coisa no entra e sai dos passageiros, no movimento constante e nas paisagens em permanente mudança que põe as palavras a viajar comigo.

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