SÉRAPHINE DE SENLIS
Para mim, uma tarde bem passada equivale a estar amarfanhada no sofá, rodeada de livros e gulodices, televisão ligada e a saltitar de canal em canal, até que algum me desperte a atenção. Foi o caso, e por mero acaso.
Gosto de filmes coloridos, com ritmo e pessoas bonitas. Deparei-me com um filme monótono, humilde, miserável mesmo. E a banda sonora… nem me lembro se tinha banda sonora. Sinceramente, acho que o que me fez parar no canal foi a coincidência de apanhar um filme no início.
Então lá estava uma senhora robusta, de traseiro para o ar, a limpar o chão. O filme não passava disto e eu não mudava de canal.
Muito a passo de caracol, a história foi-se desenrolando e, sem dar por isso, eu saí do meu sofá carregada de gulodices para acabar num manicómio francês do século XX, sem estranhar o caminho.
Já completamente rendida aos longos planos, tipo Manoel de Oliveira, fiquei a conhecer Séraphine de Senlis, pintora autodidacta de quem nunca tinha ouvido falar.
Nasceu em Arsy, a 3 de Setembro de 1864. Filha de uma família humilde, ficou órfã muito cedo e foi criada pela irmã mais velha. Foi pastora até aos 17 anos e trabalhou depois como assistente num convento, em Clermont. Mais tarde, começou a servir em várias casas de Senlis.
Só aos 42 anos começou a pintar. Dizia ouvir vozes que lhe pediam que o fizesse. Comprava tinta branca e, com uma técnica muito pessoal, criava as restantes cores a partir de plantas, barro, azeite surripiado das velas das igrejas, sangue de animais e até do próprio sangue, quando se magoava. Autodidacta, num estilo naïf que faz lembrar Van Gogh, acabou por ver o seu talento reconhecido.
Foi descoberta pelo crítico de arte e coleccionador Wilhelm Uhde, responsável também pela descoberta de Rousseau e ligado a nomes como Picasso. Mas as vicissitudes da Primeira e da Segunda Guerra Mundial foram um enorme obstáculo à sua projecção.
Enlouqueceu e acabou internada num manicómio, onde viria a morrer aos 78 anos.
Foi enterrada numa vala comum.
A guerra não perdoa.
Descansa em paz, Séraphine de Senlis.
*Ao contrário de vários filmes que repetem constantemente na televisão, este só deu uma única vez.
Imagens Pinterest




Romi, obrigado por ter favoritado meu post na Sapo, mas peço desculpas por eu remover aquela postagem. Vou substituir a imagem, que será acompanhada de texto.
ResponderEliminarUm abraço.
Tranquilo, Filipe. Um abraço.
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