O SENHOR DO CACHIMBO...

 



Era costume ir, a uma determinada hora, à janela da marquise para ver o pôr do sol. Na varanda da vivenda em frente, um senhor, de meia idade, barba branca e ar distinto, fumava cachimbo. Se os olhares se cruzassem, dizíamos, imperceptivelmente, boa tarde e nada mais. Por norma, e para meu deleite, havia sempre uma música clássica no ar. Uma em particular que eu gostava muito, sabia que era do Pavarotti, mas não sabia o nome da canção.  Enchi-me de coragem e perguntei-lhe. Caruso, respondeu ele. 

A partir desse dia, sempre que eu ia à janela, ele punha Caruso. E eu agradecia-lhe com um acenar de cabeça e sorriso discreto. 
O senhor, não sei o nome, manteve o ar distinto, apesar de cada dia mais débil. Quando umas senhoras, vestidas de preto, encerraram de vez as portadas das janelas, deduzi que faleceu.
Eu, em homenagem, continuo a ouvir Caruso. O senhor já não está. E mesmo que estivesse, não o poderia ver. Nem ao pôr do sol. As árvores do jardim de baixo cresceram imenso. De tal forma que quando vou à janela, só vejo o cume das árvores. Mas gosto de acreditar que o senhor do cachimbo está lá e que põe Caruso só para mim.
Eu, quando ponho, é para os dois... 



Comentários

  1. Há uma certa nobreza nesses diálogos feitos de silêncio, música e fumo de cachimbo. Faz-me pensar em como a cidade é feita destes fios invisíveis que nos ligam a quem não conhecemos, mas que nos moldam os dias. Algures em Braga, também eu ouvirei Caruso em memória desse senhor e das janelas que se fecham, mas que a literatura mantém abertas. Obrigado por este momento de "leitura lenta".

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    1. Obrigada, Daniel, pela leitura tão atenta. Fico feliz por saber que o senhor do Cachimbo encontrou eco noutro lugar. Que a leitura lenta continue a abrir janelas, mesmo quando as árvores crescem.

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