Memórias de um dia de chuva...

 


A frase "vamos tomar um café" tornou-se banal. Um acto de socialização bem aceite e que faz sentido praticar até com quem mal conhecemos ou acabámos de conhecer. Tomar um cafézinho é o mote para estabelecer uma relação, ainda que breve. Há dias, chovia torrencialmente, dei abrigo, no meu minúsculo chapéu de chuva, a um senhor que estava completamente desprotegido de artefactos impermeáveis. Rimos imenso, conversámos o possível e atravessámos estradas com a água pelo tornozelo. Encharcados os dois, na cumplicidade ímpar de quem sabe que o chapéu de chuva não serve de nada quando um dilúvio desaba sobre nós. Passar por isso sozinha seria uma maçada, partilhar a situação com um estranho foi um alívio. Chegados ao destino, estação de comboios, o inevitável convite: "Vamos tomar um café?"- Podia ter-me pedido em casamento, convidar-me para uma viagem a Ulan Bator, podia ter-me até convidado, num plano mais radical, surfarmos a onda da Nazaré. Mas não! Convidou-me para um café. Tomar um café é coisa séria, não se faz por dá cá aquela palha. Não se toma um café encharcado e à pressa, quando se espera um comboio. Tomar um café obedece a um ritual e preceitos que não estavam reunidos na altura. É banal tomar um café só porque sim, mas o café que realmente nos aquece, baseia-se, simbolicamente, no pacto de estabelecer laços. Ou de dar continuidade a laços estabelecidos. É um compromisso.

Façam-se 60 segundos de silêncio pelos cafés desperdiçados. Em penitência vou optar por uma chávena de leite de cabra, aquecido em lava de vulcão.


Imagem Pinterest

Comentários

  1. Que belíssima fotografia em prosa. Há uma dignidade quase cinematográfica — diria até, de um filme de Truffaut — nessa recusa do café "à pressa".

    Muitas vezes, na minha scooter, sinto que a cidade nos empurra para uma funcionalidade cinzenta: o café para acordar, o chapéu para não molhar, o trajeto para chegar. Mas o que descreves aqui é a resistência do ritual. Atravessar o dilúvio com os pés encharcados é uma intimidade rara, uma "cumplicidade ímpar" que o destino nos oferece, mas o café… ah, o café exige o solo seco da intenção e a luz certa de quem não tem um comboio a apitar na alma.

    Um convite para Ulan Bator teria sido, estranhamente, menos exigente. O café é um contrato; e os contratos não se assinam com a roupa a pingar no chão da estação.

    Fico-me por aqui, em 60 segundos de silêncio pelos cafés desperdiçados, enquanto espero que a lava do vulcão atinja a temperatura certa para esse teu leite de cabra.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Diz-se que, em Portugal, o café é a unidade de medida da amizade. Pois eu digo que é, demasiadas vezes, a unidade de medida da falta de imaginação. Tomar um café à pressa, molhados, com o cronómetro do comboio a ditar o ritmo, é como ler um poema a correr: perde-se a métrica, perde-se a alma. Depois daquela odisseia, seria um insulto à água que partilhámos. Concordarás, certamente.




      Eliminar
    2. Concordo em absoluto. Há uma heresia estética em apressar o que foi batizado pelo dilúvio. Esse café seria o epílogo forçado de um argumento que pedia silêncio e secagem lenta. Beber um café com o cronómetro do comboio no pulso é transformar um rito numa transação; é trocar a poesia do imprevisto pela prosa do quotidiano.

      Há chuvas que não pedem café, pedem apenas o reconhecimento de que, por dez minutos, dois estranhos foram o único abrigo um do outro. Que venha, então, esse leite de cabra vulcânico — no tempo certo de quem sabe que a pressa é o maior inimigo da elegância.

      Eliminar
  2. Confesso que já não bebo cafés em estabelecimentos públicos devido a serem sempre mal tirados, com uma enorme poupança de água: pede-se um café e levamos com uma "italiana" e se dizemos alguma coisa servem-nos uma "banheira". Ao longo da vida fui visitante de cafés, com milhares de bicas bebidas e horas de leitura e estudo, sentado a uma mesa, só ou acompanhado. A célebre vida de café com uma população a ler livros e jornais ou a conversar faz parte do século passado, mas beber café com um desconhecido nos dias de hoje, por mais simpática que seja a pessoa é arriscado e quando estamos encharcados a caminho de casa, com um comboio que teima em não chegar é tempo perdido e as horas são demasiado preciosas no tempo que nos resta. Gostei de ler.
    Os melhores cumprimentos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu gosto do café escaldado, seja verão ou inverno, consegue imaginar o tormento, se para servirem um café normal, como no seu caso, é o que é. Também perdi o hábito de beber café fora. Subscrevo tudo o que disse, com uma certa nostalgia à mistura. Muito grata, retribuo os cumprimentos.

      Eliminar
  3. Olá,
    um café é um acto social. Sou incapaz de beber um café sozinho. E repara que gosto tanto de café que o bebo sem açúcar.
    Há quem vá beber o café pois este será o aperitivo do que virá a seguir: um cigarro. Ora como também não fumo.
    Por isso concordo que o café é acima de tudo um acto social... mas com quem gostamos de estar.
    Não como pagamento de uma prestação de um acto de solidariedade.
    AHAHAHAHAHAHAHAHA!
    Bom fim de semana e porta-te mal, faxavor!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá. Eu, já se sabe, prefiro tomar o café sozinha. Novidade: estou sem fumar há dois anos. Lá terei de fazer o sacrifício de me portar mal (angel face). Bom fim de semana, beijinhos.

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Terra Sem Rei...

O lugar onde pertenço

Dubai Safari...