A vista panorâmica da janela do meu quarto. 

Na procura de alojamento, desta vez no Porto, veio-me à memória um S. João que lá passei, há muitos anos, a convite de um amigo, e a trabalheira que tive para encontrar um hotel a preços comportáveis, sabendo de antemão que não seria tarefa fácil, dada a época. Qual não foi o meu espanto quando, na altura, em plena Avenida dos Aliados, encontrei um hotel de 2 estrelas, é certo, mas por metade do preço que tinha estipulado como plafond. Assim sendo, acabei por ficar uma semana completa, em vez dos três dias programados.
Percebi que o hotel estava em obras mal entrei no elevador. Tranquila. Cheguei à recepção, ninguém. Nem campainha para chamar. Comecei a dizer boa tarde, relativamente baixo e em crescendo, mas o barulho de martelos e berbequins não facilitava. Até que alguém, aos gritos lá do terceiro andar, me deu as coordenadas: que tirasse a chave do quarto e, se precisasse de algo, fosse ter com ela à lavandaria (creio eu).

Entrei no quarto. Cruzes, credo, abrenúncio! A mobília não era vintage, era velha mesmo. A televisão em cima do roupeiro, uma ventoinha presa ao tecto, a cama entalada entre duas paredes, eu, magra, só cabia de lado. Dois candeeiros, só um acendia, pregados na parede lateral da cama, cada abat-jour de sua nação. Colchas e cortinados, nada combinava, nem sequer fazia contraste. Salvou-se a casa de banho, novinha a estrear. E salvou-se, principalmente, a funcionária, a faz-tudo, de uma simpatia genuína.
Às tantas, já andava eu carregada de toalhas e lençóis a ajudá-la. Fazia eu a minha cama e ia buscar as toalhas quando precisavam de ser mudadas. Avisava-a em altos berros, e ela gritava um “está bem!” no mesmo tom de soprano. Adorei. Quando vim embora, despedimo-nos com um abraço, como duas amigas.

De volta ao presente, o hotel ainda lá está. Continua com duas estrelas, mas a um preço mais elevado do que o Batalha, a pouca distância, e com mais estrelas. O Batalha era o hotel onde o meu pai costumava ficar. Agora estou indecisa entre uma nostalgia e outra. Mas, se me garantissem que ainda teria de gritar do vão das escadas para ser ouvida, não teria dúvidas. Apesar de mais caro, seria essa a minha opção. Hotel Paulista, com muito carinho, um hotel de gritos.

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