A casa da minha Avó (memórias)…

 


A casa da minha avó não tinha telhados de vidro. Mas não é de uma casa escura que me lembro. Lembro-me da gargalhada espontânea, cristalina, que lhe empurrava a cabeça para trás, para depois mergulhar sobre o ombro, a tentativa de ocultar a cara com o braço. Fazia-se silêncio, e só os movimentos, quase peristálticos, denunciavam que a gargalhada não tinha terminado. Eu olhava-a em apneia, fascinada, quando fosse grande queria rir assim.
Não é só da gargalhada, ímpar, que me lembro. Lembro-me da luz mortiça do candeeiro a petróleo, do cheiro característico que emanava e cujo acesso me estava proibido. Era a minha avó que o segurava, enquanto eu me preparava para dormir . Depois saía, como uma luz que se apaga.
Fazia-me meias de renda e vestidos de chita fina, que eu estreava nas festas da aldeia. Curava-me as mazelas com beijinhos e dizia: já passou!
Não é de uma casa escura que me lembro. É de uma gargalhada que não me esqueço. A história da princesa que me embalou, a luz mortiça do candeeiro a petróleo que se afasta, como uma luz que se apaga. Mas que nunca se apagou...

Comentários

  1. Romi, que belíssima e densa fotografia em palavras. Há textos que lemos e outros que habitamos; este transportou-me de imediato para essa penumbra quente, onde o cheiro do petróleo e o toque da chita fina definem o que é, afinal, a arquitetura do afeto.

    É fascinante como a memória subverte a física: a luz do candeeiro afasta-se no corredor, mas o brilho dessa gargalhada permanece aceso, intacto. As casas da nossa infância nunca chegam a ser escuras enquanto houver quem as conte assim.

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    1. A sua sensibilidade captou a simbiose de emoções que estas memórias carregam. Há, realmente, luzes que nunca se apagam. Obrigada pelas palavras.

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    2. Daniel, não leves a mal o tratamento por você no comentário anterior, é um péssimo hábito o meu. Peço desculpa. Estive no teu cantinho, adoro como escreves, foste a minha companhia ao jantar. Boa semana.

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    3. Romi, não há pedido de desculpa que caiba aqui; o "você" ou o "tu" são apenas diferentes texturas de papel para a mesma carta. Fico genuinamente feliz por saber que a minha Honda te fez companhia ao jantar — há algo de muito cinematográfico na ideia de as minhas palavras estarem à mesa com alguém que escreve com tanta luz sobre o que é, por norma, penumbra.

      É um privilégio ter-te por aquele "meu cantinho". Que esta troca de leituras seja o início de uma viagem bonita. Boa semana e obrigado pelo carinho.

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    4. O Azul cura mesmo. Um abraço.

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